Mercados
S&P 5007.659▼ 1,09%Nasdaq26.140▼ 2,14%Dow Jones52.002▼ 0,34%Ibovespa205.430▲ 0,54%FTSE 10010.882▲ 0,38%DAX25.623▲ 0,95%Nikkei65.324▲ 1,39%DólarR$ 5,07– 0,00%EuroR$ 5,69▼ 0,46%BitcoinR$ 413.378▲ 0,14%Powered by WIREDESK OSS&P 5007.659▼ 1,09%Nasdaq26.140▼ 2,14%Dow Jones52.002▼ 0,34%Ibovespa205.430▲ 0,54%FTSE 10010.882▲ 0,38%DAX25.623▲ 0,95%Nikkei65.324▲ 1,39%DólarR$ 5,07– 0,00%EuroR$ 5,69▼ 0,46%BitcoinR$ 413.378▲ 0,14%Powered by WIREDESK OS
Powered by WIREDESK OS
Inteligência Artificial

Esalq-USP lança IA ética para transformar restauração florestal

Pesquisa da Esalq-USP defende usar inteligência artificial como apoio à regeneração natural das florestas, abandonando a ideia de “reconstruir” ecossistemas como obras de engenharia.

Esalq-USP lança IA ética para transformar restauração florestal

Inteligência Artificial

Nova tecnologia da Esalq-USP propõe abordagem ética para apoiar a regeneração natural das florestas.

Leia também: Flávio Bolsonaro paga R$ 731,9 mil à Elytron, alvo de denúncia

Um estudo do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical, da Esalq-USP, propõe usar inteligência artificial na restauração florestal como aliada da regeneração ecológica, e não como ferramenta para “reconstruir” a natureza como se fosse uma obra de engenharia. A pesquisa, de Pedro Henrique Santin Brancalion e Marcelo P.L. Medeiros, foi publicada em setembro de 2026 e ganha repercussão nesta semana após divulgação pela Agência Fapesp em 8 de outubro.

Pesquisa quer integrar três formas de inteligência

O trabalho defende que projetos de restauração em larga escala só serão efetivos se deixarem de tratar a floresta como infraestrutura planejada, montada a partir da escolha de espécies e arranjos pré-definidos. Em vez disso, a prioridade deve ser criar condições para que os próprios ecossistemas retomem sua complexidade por meio da sucessão ecológica e de outros processos naturais.

Nessa mudança de perspectiva, os autores propõem integrar três formas de inteligência. A humana define objetivos, mobiliza recursos e conduz as decisões; a natural corresponde à capacidade dos ecossistemas de se auto-organizar e ganhar complexidade; e a artificial entra como suporte, ajudando a planejar, monitorar e ajustar o manejo com mais precisão e sensibilidade às diferenças entre paisagens.

“Restaurar florestas não é simplesmente plantar árvores, mas criar condições para que os ecossistemas recuperem sua complexidade. A inteligência artificial pode ampliar nossa capacidade de compreender essa complexidade, mas não substitui os processos naturais nem elimina os limites da ação humana”, afirma Pedro Henrique Santin Brancalion.

Entenda o contexto

A crítica central do artigo é à visão ainda dominante de que seria possível “reconstruir” uma floresta como se projeta uma estrada ou uma barragem, selecionando componentes e encaixando-os em um modelo idealizado. Para os pesquisadores, florestas são sistemas vivos formados por interações entre plantas, animais, microrganismos, solo, água, clima e processos ecológicos que se transformam ao longo do tempo.

Por isso, o plantio de árvores continua sendo visto como ferramenta importante em determinadas situações, mas não como sinônimo de restauração. Em muitos casos, apontam os autores, a recuperação de florestas nativas ocorre por regeneração natural, com comunidades biológicas se reorganizando e aumentando sua complexidade sem que cada etapa seja controlada por pessoas.

Nesse cenário, a IA pode ser usada para mapear melhor as condições locais, identificar onde o plantio é de fato necessário, prever trajetórias de regeneração e apoiar um manejo adaptativo, que responda às mudanças observadas no campo. A ideia é ajustar intervenções de forma contínua, em vez de seguir um projeto rígido desenhado de antemão.

Riscos do mau uso da IA na restauração

Brancalion e Medeiros alertam, porém, que sistemas de IA não são neutros. Os resultados dependem dos dados usados nos treinamentos, dos algoritmos e dos valores embutidos em quem desenvolve e opera as ferramentas. Se forem mal aplicadas, essas tecnologias podem reforçar justamente os erros que o estudo tenta superar.

Um risco citado é a priorização automática de plantios em larga escala, porque há mais dados disponíveis sobre espécies comerciais ou mais estudadas, em detrimento da regeneração natural e de espécies menos conhecidas. Outro problema é ignorar interações ecológicas complexas que ainda não aparecem nos bancos de dados, mas são cruciais para a saúde da floresta.

Os autores também chamam atenção para impactos sociais. A automação pode aumentar a eficiência de atividades de campo e de análise de dados, mas tende a alterar oportunidades de trabalho e geração de renda em comunidades que hoje dependem diretamente de programas de restauração e plantio.

Debate ético e próximos passos

A proposta da Esalq-USP já provoca discussões entre pesquisadores, gestores ambientais e formuladores de políticas públicas sobre como regular o uso de IA em projetos ambientais. A defesa é que qualquer decisão sobre adoção dessas tecnologias considere, além da eficiência ecológica e econômica, o bem-estar humano, os meios de vida locais e prioridades sociais definidas com participação das comunidades envolvidas.

Entre os próximos passos, o grupo do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical trabalha na elaboração de protocolos e ferramentas que operem explicitamente com as três formas de inteligência — humana, natural e artificial — em conjunto. A meta é desenvolver modelos de restauração que reconheçam limites do controle humano, respeitem os processos ecológicos e avaliem de forma sistemática os efeitos da automação sobre empregos e renda nas áreas rurais.

A expectativa é que, com essas diretrizes, a restauração em grandes áreas florestais ganhe escala sem repetir práticas mecanicistas, fortalecendo a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, desde que o avanço tecnológico seja guiado por critérios éticos claros e por respeito às realidades locais.

Fonte: matéria original