Flávio Bolsonaro deixa Brasil rumo aos EUA após ordem do STF
Senador deixa o Brasil rumo aos EUA após ordem de apreensão de passaportes pelo STF. Aliados dizem que viagem é exílio para frustrar suposto plano de pressão na eleição para presidência do Senado.

Política
Senador Flávio Bolsonaro parte para os EUA após decisão do STF que apreendeu seus passaportes, gerando especulações sobre estratégia política.
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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil na madrugada desta terça-feira (27), rumo aos Estados Unidos, após ter os passaportes determinado para apreensão pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Aliados classificam a viagem como um exílio político para evitar que o parlamentar seja usado como moeda de troca na eleição para a presidência do Senado.
Por que Flávio Bolsonaro foi para o exílio nos EUA?
Flávio viaja aos Estados Unidos depois de uma ordem judicial que mandou apreender seus passaportes pessoal e diplomático, que deveriam ser entregues à Polícia Federal até o fim da manhã de hoje. Ele não entregou os documentos e deixou o país durante a madrugada, em movimento que aliados descrevem como fuga de uma possível prisão e tentativa de frustrar o que chamam de plano de pressão de Alexandre de Moraes sobre o Senado.
Fontes da Polícia Federal e políticos próximos ao senador confirmam a saída do Brasil. Há indicação de que o trajeto incluiu uma passagem pela Argentina antes do embarque para os EUA, mas o governo argentino não confirmou oficialmente a entrada do parlamentar em seu território.
Flávio Bolsonaro é alvo de três investigações no STF. Entre elas, há apurações sobre suposta lavagem de dinheiro envolvendo o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, ligado ao antigo Banco Master, e o advogado Willer Tomaz, amigo pessoal do senador. Tomaz é apontado em relatórios da investigação como “usuário master” de contas de uma empresa suspeita de servir para lavagem de recursos, inclusive por meio de operações internacionais.
Na semana passada, Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores de Willer Tomaz, em investigação que também atinge o senador. Segundo a Polícia Federal, Flávio teria sido beneficiário de recursos ligados à Alcazar Holdings, empresa com sede em Portugal que é alvo de inquérito por operações financeiras suspeitas. A decisão de apreensão de passaportes faz parte desse processo.
Em vídeo publicado nas redes sociais ontem, o senador disse que foi notificado pela PF, após visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, para entregar os passaportes. A defesa de Flávio ainda não se manifestou publicamente sobre a viagem aos EUA e as novas medidas judiciais.
Aliados falam em “moeda de troca” na eleição do Senado
Deputados e senadores da oposição afirmam que a ida de Flávio aos EUA é uma forma de impedir que ele seja usado como instrumento de pressão na disputa pela presidência do Senado, marcada para o início de 2027. O alvo das críticas é o ministro Alexandre de Moraes e o atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).
O deputado Maurício Marcon (PL-RS), vice-líder da oposição na Câmara e um dos primeiros a confirmar a saída do senador, diz que a viagem é um gesto político calculado.
“O Flávio conseguiu estar no exílio, vai nos representar num país livre, seguirá sendo o nosso líder assim como Jair Bolsonaro”, afirmou Marcon, que comparou o caso ao da opositora venezuelana María Corina Machado. Para ele, o objetivo da ordem de Moraes era usar a ameaça de prisão do senador para influenciar o voto de parlamentares.
“Agora, senadores que têm compromisso com o impeachment de Alexandre de Moraes, que estavam meio titubeantes em votar em Alcolumbre ou em Marinho, não precisam mais ter dúvida nenhuma. O plano [de Moraes] era: ou vocês votam no Alcolumbre, ou eu prendo o Flávio”, declarou o deputado.
O nome defendido pela oposição para a presidência do Senado é o do senador Rogério Marinho (PL-RN). Na avaliação desse grupo, a permanência de Alcolumbre no comando da Casa garantiria blindagem a Moraes contra pedidos de impeachment.
Como aliados de Flávio Bolsonaro justificam a viagem aos EUA como exílio?
Aliados apresentam a saída do país como um exílio político para escapar de perseguição judicial e de um suposto uso da prisão preventiva como arma de chantagem institucional. O deputado Carlos Jordy (PL-RJ), um dos mais próximos de Flávio, afirmou nas redes sociais que a fuga foi uma decisão correta.
“Querem intimidar a oposição, querem intimidar os senadores. […] Se Flávio Bolsonaro fugiu, ele fez certo. Precisamos garantir a presidência do Senado Federal. A responsabilidade dos senadores eleitos aumentou muito”, disse Jordy. Ele também argumenta que a eventual eleição de Flávio para a Presidência da República teria “custado caro” para ministros do STF.
“Sabiam que a eleição de Flávio Bolsonaro custaria muito caro para esses ministros que cometem abuso. Eles sabem que, agora, com maioria no Senado, um impeachment de ministro do Supremo seria inevitável”, afirmou o deputado.
O senador eleito Deltan Dallagnol (Novo-PR) afirmou que a ida de Flávio aos EUA desmonta a principal ferramenta de pressão atribuída a Moraes.
“O medo de uma prisão vira pressão para que a direita recue, que não faça impeachment. Entendem aonde que o Moraes quis chegar”, disse. Para Dallagnol, sem o risco imediato de prisão do senador no Brasil, o ministro perde poder de influência sobre a bancada de oposição no Senado.
Outro aliado, o deputado Gustavo Gayer (PL-GO), considerou que Flávio “fez o que deveria fazer” ao deixar o país. Segundo ele, o senador seria preso e usado como “peça de barganha” para impedir que um presidente de perfil conservador chegasse ao comando do Senado ou que avançassem pedidos de impeachment contra Moraes.
A deputada Caroline de Toni (PL-SC) também tratou o caso como sintoma de degradação institucional. “Perseguido pelo Supremo Tribunal, Flávio deixa o país. […] Ainda há quem não veja motivo para se preocupar com os rumos da nossa democracia”, escreveu.
Entenda o contexto
A crise se aprofunda em meio à disputa antecipada pelo comando do Senado e às investigações sobre lavagem de dinheiro envolvendo nomes ligados à cúpula política. Flávio Bolsonaro, figura central da oposição, passou a concentrar tanto a pressão judicial quanto o cálculo político em torno da sucessão de Davi Alcolumbre.
De um lado, ministros do STF e órgãos de investigação intensificam apurações sobre fluxos financeiros ligados a empresas no exterior, apostas esportivas e supostos esquemas de lavagem de dinheiro, com decisões que incluem bloqueios bilionários, queima de sigilo e apreensão de passaportes. Do outro, a oposição acusa o tribunal de extrapolar competências e usar o aparato judicial para enquadrar adversários e influenciar votações no Congresso.
A saída de Flávio para os EUA altera esse tabuleiro. Sem o senador em território nacional e com os passaportes cancelados pela PF, cresce a possibilidade de o caso ganhar dimensão internacional, com eventual pedido de cooperação entre autoridades dos dois países. Ao mesmo tempo, a oposição tenta transformar o episódio em bandeira política contra o que chama de “perseguição” do Supremo.
Internamente no Senado, a ausência física de Flávio pode reduzir sua articulação direta, mas tende a reforçar o discurso de vitimização e mobilizar apoios em torno da candidatura de Rogério Marinho, apresentada como ruptura com o atual comando da Casa e com a atual relação com o STF.
Venezuela e a comparação com María Corina Machado
A comparação feita por aliados de Flávio com a líder da oposição venezuelana María Corina Machado busca enquadrar o caso brasileiro na narrativa de exílio político na América Latina. Marcon afirmou: “Assim como María Corina Machado, Flávio Bolsonaro, o candidato derrotado nas eleições também busca exílio em outro país”.
María Corina passou quase um ano fora da Venezuela antes de retornar ao país recentemente, em meio a tensões com o governo venezuelano e pressão internacional. Seu caso se tornou símbolo de perseguição a opositores em regimes considerados autoritários por críticos, e é usado por parlamentares brasileiros para sugerir paralelos com o tratamento dado a figuras da direita no Brasil.
No plano diplomático, a presença de um senador brasileiro nos Estados Unidos alegando exílio político pode abrir espaço para discursos de denúncia em fóruns internacionais e junto a partidos conservadores estrangeiros. Aliados de Flávio afirmam que, nos EUA, ele poderá “denunciar tudo” o que considera abusos do Judiciário brasileiro.
Por outro lado, a permanência do parlamentar no exterior sob ordens judiciais em vigor tende a colocar à prova os instrumentos de cooperação entre Brasil e Estados Unidos em matéria penal, além de aumentar a tensão entre STF, Congresso e Palácio do Planalto. Novas decisões de Moraes ou do plenário do Supremo, e a reação da cúpula do Senado, devem definir os próximos capítulos da crise.


