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Inteligência Artificial

Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil a empresa de IA sob suspeita

Flávio Bolsonaro pagou cerca de R$ 600 mil à Elytron, firma que oferece sistema de IA para manipulação política clandestina. Caso acende alerta sobre riscos à democracia e deve pressionar por novas regras eleitorais.

Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil a empresa de IA sob suspeita

Inteligência Artificial

Pagamento milionário a empresa de IA levanta preocupações sobre manipulação política e impacto nas eleições.

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Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, pagou cerca de R$ 600 mil à Elytron, empresa de cibersegurança que oferece no exterior um sistema de inteligência artificial capaz de operar em campanhas políticas de forma clandestina, com criação de perfis falsos, uso de deepfakes e infiltração em redes de opositores, o que acendeu um alerta imediato entre especialistas em democracia digital.

Documentos que embasam a denúncia descrevem uma infraestrutura tecnológica desenhada para cruzar grandes volumes de dados, segmentar eleitores com alta precisão e executar ações coordenadas para influenciar o debate público sem identificação clara de origem. A operação é apontada como capaz de simular manifestações de apoio, inflar artificialmente a popularidade de narrativas específicas e atacar adversários, com potencial para distorcer a percepção da opinião pública.

Ferramenta cria “encenação tecnológica do consenso”

O estrategista político Marcelo Senise, presidente do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (IRIA), afirma que o ponto central não é apenas o volume de dados ou a sofisticação da tecnologia, mas a capacidade de fabricar a sensação de maioria social em torno de determinadas posições.

“Imagine um eleitor que começa a receber determinadas narrativas, encontra opiniões semelhantes em diferentes perfis, percebe um aparente consenso nos comentários e passa a acreditar que aquela interpretação representa o pensamento predominante da sociedade”, explica Senise. “Se parte dessas interações foi produzida artificialmente, não estamos diante de uma manifestação espontânea da opinião pública, mas de uma possível encenação tecnológica do consenso”.

Segundo ele, a estrutura atribuída à Elytron permite identificar vulnerabilidades comportamentais de grupos específicos, montar ambientes artificiais de opinião e interferir diretamente em como as pessoas percebem a realidade política. Não se trata apenas de espalhar desinformação clássica, mas de manipular o clima social aparente por meio de redes de perfis automatizados e conteúdos gerados por IA, inclusive deepfakes.

Senise destaca que o uso de inteligência artificial em campanhas, por si só, não é ilegal. Monitoramento de redes, análise de sentimento e segmentação de mensagens já fazem parte do arsenal comum de marketing político. “O problema surge quando esses agentes ocultam sua natureza artificial, simulam relações humanas e são empregados para manipular percepções políticas”, afirma, ao se referir aos chamados neurobots, como denomina agentes automatizados criados para influenciar o comportamento dos usuários.

Entenda o contexto

A Elytron atua na área de cibersegurança e, a partir de sua base nos Estados Unidos, oferece uma suíte de serviços de inteligência artificial anunciada como capaz de operar em ambientes de conflito informacional. No pacote aparecem ferramentas para criar e gerenciar identidades falsas, infiltrar agentes em comunidades digitais de adversários, gerar e distribuir conteúdos hiperdirigidos e automatizar interações para dar aparência de engajamento espontâneo em grande escala.

Na prática, esses sistemas permitem orquestrar campanhas inteiras sem que o público consiga distinguir o que é opinião genuína de outros cidadãos e o que é resultado de intervenção tecnológica. A manipulação pode ocorrer mesmo sem uma notícia objetivamente falsa: a mera repetição massiva de determinadas opiniões, replica Senise, já é suficiente para distorcer a percepção de qual visão é majoritária.

“A inteligência artificial não criou a manipulação política. Ela pode reduzir seus custos, ampliar sua velocidade, multiplicar sua escala e tornar muito mais difícil distinguir uma interação humana autêntica de uma intervenção fabricada”, diz o presidente do IRIA.

Pressão por investigação e novas regras

A revelação do pagamento de R$ 600 mil pela campanha de Flávio Bolsonaro à Elytron intensifica a pressão por uma apuração formal sobre a finalidade exata do contrato e o tipo de serviço prestado. A principal preocupação de entidades e especialistas é verificar se houve uso de operações ocultas para interferir no debate eleitoral, o que poderia configurar abuso de poder econômico ou violação das regras de propaganda.

Senise ressalta que um dos maiores obstáculos para qualquer investigação é a velocidade das operações automatizadas. Enquanto conteúdos, perfis e interações artificiais podem ser produzidos e apagados em poucos minutos, a identificação de responsáveis e o rastreamento técnico costumam ser lentos. Ele defende uma atuação coordenada de autoridades e empresas de tecnologia.

Para o estrategista, a Justiça Eleitoral, plataformas digitais e instituições de pesquisa precisam compartilhar indicadores técnicos, rastros de atividade e sinais de atuação coordenada para que seja possível preservar provas e diferenciar “a manifestação espontânea da sociedade de uma possível operação clandestina destinada a fabricar artificialmente essa manifestação”.

Na avaliação de analistas ouvidos por entidades do setor, o caso tende a acelerar discussões sobre a criação de regras específicas para o uso de IA em campanhas: dever de transparência em conteúdos automatizados, identificação clara de perfis controlados por máquinas, limites para microsegmentação política e protocolos de auditoria independente para contratos de comunicação digital.

Democracia em risco e disputa de narrativas

Além do impacto direto nas eleições em curso, o episódio reacende o debate sobre os fundamentos da democracia em ambientes digitais. “A democracia não depende apenas de uma urna inviolável. Depende, antes de tudo, de um eleitor livre para pensar. E essa liberdade precisa ser protegida também antes do momento do voto”, avalia Senise.

Para ele, quando uma campanha tem acesso a ferramentas capazes de simular multidões de apoiadores e fabricar consensos aparentes, abre-se uma assimetria profunda em relação a candidatos que não dispõem dos mesmos recursos ou optam por estratégias transparentes. Quem ganha com isso são os atores com capacidade financeira e tecnológica para operar no subsolo informacional; quem perde são os concorrentes, o eleitor e a própria credibilidade do sistema político.

No setor de tecnologia, a repercussão deve recair sobre empresas de cibersegurança e plataformas digitais, pressionadas a adotar mecanismos mais robustos de fiscalização e transparência, sob risco de verem seus serviços associados a esquemas de manipulação política. No campo institucional, cresce a expectativa de que tribunais eleitorais, Ministério Público e órgãos de controle abram frentes específicas para acompanhar contratos envolvendo IA em campanhas.

Em nota enviada à reportagem, a equipe do presidenciável do PL afirma que os serviços contratados junto à Elytron são voltados à segurança da informação e nega qualquer irregularidade ou arranjo que viole a legislação eleitoral. A empresa, por sua vez, também nega oferecer ou executar operações de manipulação política, insistindo que atua apenas na proteção de ativos digitais e na defesa contra ameaças cibernéticas.

Com versões opostas em campo e um contrato de alto valor sob suspeita, a continuidade das apurações e uma eventual reação regulatória devem definir o peso político do caso nas próximas semanas.

Fonte: matéria original