Flávio Bolsonaro promete ‘guerra’ ao narcotráfico na TV Globo
Em sabatina na TV Globo, Flávio Bolsonaro promete classificar PCC e Comando Vermelho como terroristas, defende mais armas para civis e rebate suspeitas sobre filme de Jair Bolsonaro.

Política
Flávio Bolsonaro anuncia medidas duras contra o narcotráfico e aborda temas polêmicos em entrevista na TV Globo.
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Em sabatina na TV Globo nesta sexta-feira (16), o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, afirmou que, se eleito, declarará “guerra” ao narcotráfico logo no início do governo, classificará PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas e usará tropas de elite da Marinha e do Exército em pontos estratégicos como o Porto de Santos e a Amazônia.
Entrevistado pela jornalista Renata Lo Prete, ele também defendeu a ampliação do acesso a armas por civis, negou plano para dar cargo ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, afastou a hipótese de o irmão Eduardo Bolsonaro ser chanceler e tentou conter o desgaste com o chamado caso Master, que envolve o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de Jair.
Como foi a entrevista de Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro, que disputa o segundo turno com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no dia 25, foi o segundo presidenciável a participar da série de entrevistas eleitorais da emissora. Ele chega à reta final com 47% das intenções de voto contra 45% de Lula, uma vantagem de dois pontos. No primeiro turno, teve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista — diferença de 1,87 ponto percentual, cerca de 2,2 milhões de votos.
No bloco de segurança pública, o senador disse que um de seus primeiros atos seria enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como grupos terroristas, seguindo modelo adotado nos Estados Unidos sob o governo Donald Trump, e anunciar a entrada do Brasil no chamado Escudo das Américas, iniciativa regional de cooperação no combate ao tráfico de drogas.
Segundo ele, tropas de elite da Marinha atuariam no Porto de Santos e do Exército, na região amazônica, para reforçar o combate às rotas do tráfico. A estratégia, se implementada, tende a reacender o debate sobre uso de militares em funções típicas de polícia, impactos sobre comunidades locais e eventuais efeitos sobre comércio exterior e circulação de cargas.
Armas, MST e Estatuto do Desarmamento
Questionado sobre a política armamentista, Flávio Bolsonaro rejeitou estudos que relacionam mais armas em circulação ao aumento da violência e chamou essas análises de “teses malucas”. Ele voltou a defender o porte e a posse para civis que cumpram exigências legais.
“Se você não quer ter uma arma, tudo bem, é um direito seu. Agora, quem atende aos requisitos legais tem direito a ter uma para defender sua família, defender sua casa, defender sua propriedade rural, defender a sua fazenda de invasão de MST. Isso aí é o que está na Constituição, o direito à legítima defesa”, afirmou.
O candidato disse querer “melhorar” o Estatuto do Desarmamento e atacou a legislação atual: “Ele [o estatuto] proíbe o cidadão de se defender e autoriza os marginais a comprarem armas de guerra porque não tem fiscalização nenhuma”. A fala reforça a plataforma de flexibilização defendida pelo campo bolsonarista e tende a mobilizar tanto o eleitorado pró-armas quanto setores que temem aumento da violência e acidentes.
Família no governo e distância calculada
Em meio às especulações sobre participação de Jair Bolsonaro em um eventual governo, Flávio tentou mostrar distância. Disse que o tema não foi discutido com o pai e que não há plano para acomodá-lo em cargo oficial.
“Não está no radar a possibilidade de meu pai ter cargo no governo”, declarou o senador, repetindo, porém, a promessa de que o ex-presidente subiria a rampa do Planalto com ele em uma eventual posse. Jair cumpre prisão domiciliar após condenações por tentativa de golpe e outros crimes, o que alimenta o debate sobre um possível indulto caso o filho chegue ao Planalto.
Sobre o irmão Eduardo Bolsonaro, deputado condenado por crime de coação e que vive nos Estados Unidos, Flávio afirmou que ele não será chanceler, embora tenha, segundo o senador, um “trabalho brilhante” com líderes conservadores internacionais. Eduardo foi recentemente alvo de decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou o cumprimento da pena no Brasil, mas ele diz não ter intenção de voltar ao país.
Entenda o contexto
A estratégia de Flávio na entrevista foi reafirmar bandeiras centrais do bolsonarismo — endurecimento contra o crime, críticas ao STF, defesa de mais armas — e, ao mesmo tempo, sinalizar algum distanciamento da figura do pai em cargos de governo. O equilíbrio é visto como tentativa de manter a base fiel e, ao mesmo tempo, reduzir resistências no eleitorado moderado na reta final do segundo turno.
Na disputa com Lula, a diferença apertada nas pesquisas e o histórico do primeiro turno fazem de cada exposição em TV aberta um momento decisivo de consolidação de narrativas e respostas a acusações. O caso Master, tema mais sensível da sabatina, aparece nesse contexto.
Tensão no ar: o caso Master e o filme sobre Jair Bolsonaro
O momento mais tenso da entrevista ocorreu quando Renata Lo Prete abordou a relação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o financiamento do longa “Dark Horse”, que conta a história de Jair Bolsonaro.
Investigações da Polícia Federal apontam que o senador pediu R$ 134 milhões a Vorcaro e recebeu quase R$ 70 milhões. Em vez de seguir diretamente para a produtora responsável pelo filme, os recursos teriam sido direcionados a um fundo imobiliário nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, amigo de Eduardo Bolsonaro.
Questionado sobre a falta de transparência no destino final do dinheiro, Flávio disse que a produtora brasileira prestou contas dos gastos e negou irregularidades. “Eu estou falando de um pedido de um patrocínio privado para um filme privado, sem absolutamente nenhuma contrapartida”, afirmou.
A jornalista confrontou o senador com a diferença entre o valor solicitado e o custo apontado para o filme. Uma perícia contratada pela própria produtora teria estimado a produção em R$ 75 milhões, bem abaixo dos R$ 134 milhões pedidos ao banqueiro. Flávio respondeu que o contrato não foi integralmente cumprido e que o filme foi finalizado com recursos de Vorcaro e outros investidores, sem explicar por que o aporte pedido superava em tanto o orçamento periciado.
Provocado sobre a escolha do Banco Master entre cerca de 1.600 instituições financeiras e quase 170 bancos em operação no país, o candidato disse ter conversado com “vários possíveis investidores” e alegou que Vorcaro aceitou a proposta em um momento em que “não tinha absolutamente nada de errado”. Em seguida, partiu para acusações contra aliados de Lula, mencionando supostas contrapartidas envolvendo fundos de pensão e o próprio Banco Master.
Renata Lo Prete interrompeu, afirmando que não iria reproduzir acusações sem confirmação da apuração da emissora ou da Polícia Federal. O embate expôs um dos pontos mais frágeis da campanha de Flávio, que tenta se defender da percepção de proximidade entre interesses privados, financiamento cultural e projeto político da família Bolsonaro.
Salário mínimo, ‘tesouraço’ e contas públicas
No campo econômico, Flávio Bolsonaro reiterou a promessa de um “tesouraço” nas contas públicas, com economia estimada em cerca de R$ 200 bilhões. Ao mesmo tempo, garantiu que manterá reajustes do salário mínimo acima da inflação e que não pretende desvincular aposentadorias do piso nacional.
Ele também afirmou que não enviará proposta de mudança na Constituição para reduzir os pisos obrigatórios de gastos em saúde e educação, acusando Lula de “terrorismo” e “fake news” ao sugerir cortes nessas áreas.
Especialistas ouvidos por economistas e analistas de mercado vêm apontando dificuldade em conciliar um corte dessa magnitude com a preservação de despesas previdenciárias e sociais — entre as maiores do Orçamento. Flávio respondeu que pretende fechar a conta com corte de gastos, combate à corrupção e aumento de receitas.
“Tem muitas receitas novas a serem feitas e tem despesas para serem cortadas, principalmente combatendo a corrupção e fazendo uma gestão com inteligência artificial”, disse. Entre as medidas citadas estão a redução de pelo menos dez dos 39 ministérios atuais, a criação de um fundo para gerir imóveis da União e o reforço na cobrança de dívidas ativas.
O senador mencionou ainda a exploração de petróleo na Margem Equatorial, faixa marítima entre o Amapá e o Rio Grande do Norte, como possível fonte adicional de receitas, falando em potencial de “mais de R$ 100 bilhões” em royalties a médio prazo, caso os projetos avancem.
Fim da escala 6×1 e agenda trabalhista
Flávio foi cobrado sobre a guinada em relação à escala 6×1, regime de trabalho que prevê seis dias trabalhados para um de descanso e que foi extinto em votação no Congresso nesta semana. Depois de chamar o projeto de “eleitoreiro” e “oportunista”, o senador votou a favor da mudança e agora afirma que não pretende tentar reverter a decisão.
“Todos os direitos trabalhistas estão garantidos. Cada um pode ter sua opinião individual, mas da minha parte, isso aqui está respeitado. Foi uma decisão do Congresso Nacional”, disse. Ele voltou a defender mais liberdade de negociação entre empresas e trabalhadores e mencionou o exemplo de mães solo que, segundo ele, teriam dificuldade de conseguir emprego com jornadas engessadas.
STF, reeleição e próximos passos da campanha
A entrevista também tratou, de forma mais breve, de propostas de reformas no Supremo Tribunal Federal. Flávio não detalhou quais mudanças pretende defender, mas manteve o tom crítico ao tribunal, ecoando queixas frequentes de aliados.
Renata Lo Prete questionou ainda a proposta de emenda à Constituição apresentada pelo senador no início do ano para acabar com a reeleição presidencial. Flávio reafirmou que abriria mão de disputar um segundo mandato mesmo que a PEC não seja aprovada. “Eu só preciso de um mandato porque eu não quero começar o mandato já pensando na reeleição. Eu quero fazer o que precisa ser feito no Brasil”, afirmou.
Com pouco mais de uma semana até o segundo turno, a sabatina na TV Globo se torna peça central na estratégia de comunicação do candidato do PL. As promessas de endurecimento contra o narcotráfico, o discurso pró-armas, as explicações sobre o caso Master e o esforço em dosar a presença da família no discurso tendem a pautar os próximos dias de campanha e a reação do eleitorado indeciso.
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