Mercados
S&P 5007.689▲ 1,58%Nasdaq25.737▲ 1,44%Dow Jones53.356– 0,00%Ibovespa168.744▲ 0,70%FTSE 10010.902▲ 0,67%DAX26.686▲ 0,94%Nikkei61.078▼ 1,79%DólarR$ 5,43▼ 0,54%EuroR$ 6,09▼ 0,67%BitcoinR$ 431.620▼ 1,70%Powered by WIREDESK OSS&P 5007.689▲ 1,58%Nasdaq25.737▲ 1,44%Dow Jones53.356– 0,00%Ibovespa168.744▲ 0,70%FTSE 10010.902▲ 0,67%DAX26.686▲ 0,94%Nikkei61.078▼ 1,79%DólarR$ 5,43▼ 0,54%EuroR$ 6,09▼ 0,67%BitcoinR$ 431.620▼ 1,70%Powered by WIREDESK OS
Powered by WIREDESK OS
Lançamentos de IA

IA decifra linguagem dos golfinhos nas Bahamas e testa resposta

Projeto liderado por Denise Herzing usa inteligência artificial e um computador subaquático para identificar padrões na comunicação de golfinhos e testar diálogos com humanos.

IA decifra linguagem dos golfinhos nas Bahamas e testa resposta

Inteligência Artificial

Projeto inovador usa tecnologia para entender e interagir com a comunicação dos golfinhos nas Bahamas.

Leia também: IA muda previsão do tempo e alerta de desastres no mundo

Pesquisadores liderados pela bióloga Denise Herzing estão usando inteligência artificial para tentar decifrar a linguagem de golfinhos-pintados nas Bahamas e já começam a testar uma comunicação bidirecional com os animais por meio de um computador subaquático que emite sons específicos.

Como a tecnologia tenta “traduzir” os golfinhos

Herzing, fundadora e diretora do Wild Dolphin Project, passou quatro décadas coletando horas incontáveis de vídeo e áudio de grupos de golfinhos em mar aberto. Agora, essa base de dados alimenta modelos de IA desenvolvidos em parceria com cientistas do Georgia Tech e da equipe do Google DeepMind, que buscam padrões nos assobios e estalos emitidos pelos mamíferos marinhos.

“Com IA, podemos encontrar padrões”, resume Denise Herzing, que vê na tecnologia a peça que faltava para organizar o material acumulado em campo. O objetivo imediato é estruturar a “gramática” e o repertório de sinais, mesmo sem uma tradução completa do que está sendo dito entre os animais.

Os algoritmos são treinados para relacionar sons a comportamentos observados em vídeo, como brincadeiras, interações sociais, aproximação de objetos e movimentos de grupo. Ao cruzar essas informações, a equipe tenta mapear quais vocalizações aparecem sempre associadas a situações específicas, um passo essencial para atribuir significados funcionais aos sons.

Testes de conversa de mão dupla debaixo d’água

Com base nos padrões preliminares identificados, os cientistas começaram a experimentar uma comunicação de mão dupla. Para isso, criaram um computador subaquático vestível, capaz de reproduzir sons semelhantes aos usados pelos golfinhos para se referir a determinados objetos e ambientes.

Nos testes, o equipamento emite sequências sonoras associadas a itens como um lenço e a habitats como bancos de sargaço, enquanto dois pesquisadores modelam o comportamento: um aciona o som ligado ao lenço e o outro interage com o objeto, diante dos golfinhos, para reforçar a associação.

Os animais são observados de perto para ver se passam a usar aqueles mesmos sons em situações equivalentes ou se alteram seu comportamento em resposta aos novos “sinais humanos”. O objetivo é avaliar se os golfinhos reconhecem as emissões como parte de seu repertório e se são capazes de responder de forma consistente.

Entenda o contexto

Golfinhos são conhecidos por ter cérebros altamente desenvolvidos, vida social complexa e um sistema de comunicação rico em frequências e combinações sonoras que os humanos não distinguem a ouvido nu. Tradicionalmente, biólogos marinhos dependiam de décadas de observação para sugerir hipóteses sobre a função desses sons.

A chegada da IA muda essa lógica ao permitir que máquinas vasculhem grandes volumes de dados em busca de padrões sutis, quase impossíveis de detectar manualmente. Essa abordagem atrai especialistas em biologia marinha, ciência de dados e conservação ambiental, criando uma frente multidisciplinar para entender como outra espécie inteligente percebe e organiza o mundo.

Imitar não é o mesmo que entender

Apesar do entusiasmo, a equipe trata os resultados com cautela. Um dos principais desafios é diferenciar imitação de compreensão real. Golfinhos são excelentes imitadores e podem simplesmente repetir sons sem associá-los a um significado concreto.

“Mesmo que tenhamos esses assobios e estejamos rotulando brinquedos, há uma grande diferença entre imitar e entender a função”, alerta Herzing. No ambiente selvagem, onde não há controle total sobre estímulos e interferências, essa distinção fica ainda mais difícil.

Por isso, os pesquisadores avaliam ampliar os testes em santuários ou ambientes semifechados, onde seja possível controlar melhor as condições, repetir situações e medir com precisão a resposta dos animais aos sons gerados pelos computadores.

O que falta para uma conversa real com golfinhos?

Para Denise Herzing, o grande obstáculo agora não é apenas tecnológico, mas cultural: falta entender o que cada padrão significa para os próprios golfinhos. “Podemos ter os dados e a estrutura, mas o que isso significa na cultura dos golfinhos?”, questiona a pesquisadora.

Embora o grupo tenha avançado na identificação de sinais recorrentes e na compreensão das hierarquias sociais dos animais, uma conversa fluente ainda está distante. A equipe estima que serão necessários muitos ciclos de coleta de dados, ajustes de modelos e novos experimentos para se aproximar de uma troca mais rica de informações.

Mesmo assim, os cientistas veem na IA uma forma de acelerar um trabalho que, feito apenas com observação humana, poderia levar muitas gerações sem respostas claras.

Impacto para a ciência e para a conservação

A pesquisa abre caminho para uma nova era de comunicação entre espécies, com impacto direto em áreas como biologia marinha, tecnologia de IA, educação científica e políticas de conservação dos oceanos. Ao entender melhor os sinais e a organização social dos golfinhos, pesquisadores esperam propor estratégias de proteção mais alinhadas ao modo de vida desses animais.

Os próprios golfinhos tendem a se beneficiar indiretamente, à medida que um conhecimento mais profundo de sua “cultura” reforça argumentos contra a degradação de seus habitats, o ruído submarino excessivo e a pesca predatória. Projetos futuros, porém, devem exigir investimentos altos em infraestrutura tecnológica e em áreas de estudo controladas.

A longo prazo, se a comunicação bidirecional se mostrar viável, o trabalho de Herzing e parceiros pode influenciar debates globais sobre direitos animais e sobre a forma como humanos se relacionam com outras espécies inteligentes do planeta.

O que os golfinhos diriam aos humanos?

Para além da curiosidade científica, a pesquisa provoca um incômodo ambiental. Herzing conta que costuma perguntar às pessoas o que imaginam que os golfinhos nos diriam, caso pudéssemos entendê-los. A resposta é quase sempre a mesma. “Quando pergunto às pessoas o que acham que os golfinhos diriam a nós, a resposta mais comum é: ‘Por que vocês estão estragando nosso oceano?’”, relata.

Para a pesquisadora, essa projeção humana revela tanto o desejo de diálogo com outras espécies quanto a consciência crescente de que a saúde dos oceanos está diretamente ligada à sobrevivência dos próprios humanos. Enquanto a tecnologia tenta aproximar as vozes debaixo d’água das nossas, a mensagem implícita já parece clara: a ciência que busca ouvir os golfinhos também expõe o impacto das ações humanas sobre o mar.