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Cibersegurança

IA planeja viagens, mas falhas bloqueiam embarques em voos-chave

Chatbots aceleram roteiro, reservas e checagem de vistos, mas erros recentes e riscos de segurança digital deixam usuários em alerta e autoridades sob pressão.

IA planeja viagens, mas falhas bloqueiam embarques em voos-chave

Tecnologia

Chatbots facilitam planejamento de viagens, mas falhas recentes causam atrasos e preocupações com segurança digital.

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Ferramentas de inteligência artificial como ChatGPT e Gemini já montam roteiros completos, sugerem hotéis, dão dicas de vistos e até compram passagens em segundos, mas erros graves em viagens recentes para Chile e Reino Unido, além de novas formas de ataque hacker, expõem o lado arriscado de usar essas tecnologias como “agentes de viagens” principais.

IA planeja férias, mas confiança segue baixa

Estudo da Kaspersky mostra que apenas 28% dos usuários confiam na IA para planejar suas férias, com 96% deles satisfeitos com a assistência. Na prática, a tecnologia agrada pela praticidade, mas ainda não convence quando o assunto é risco de perder dinheiro ou até o voo.

Os chatbots funcionam como assistentes gerais: recebem perguntas sobre destinos, prazos de visto, seguros, passeios e horários de atrações e devolvem, em poucos segundos, respostas em formato de roteiro. Em alguns casos, agentes digitais integrados começam a executar ações, como comparar tarifas aéreas, preencher cadastros e finalizar compras em sites de companhias e agências.

O problema é que essas ferramentas não “sabem” nada por conta própria. Elas se baseiam em textos e dados já existentes e, mesmo quando têm acesso à internet, podem exibir informações imprecisas, desatualizadas ou simplesmente falsas. O resultado vai de um passeio perdido a situações de constrangimento na porta do avião.

Casos na Austrália, Chile, Filipinas e Reino Unido expõem falhas

Os riscos deixam de ser teóricos quando desembocam em check-in negado. Em um dos episódios mais recentes, um australiano que viajava para dar palestra no Chile foi barrado no balcão da companhia aérea por não ter o visto exigido. Antes de comprar a passagem, ele tinha conferido os requisitos com um chatbot e recebeu a informação de que a autorização não seria necessária. “Mark Pollard foi impedido de embarcar para o Chile por confiar em informação incorreta da IA sobre visto”, resume o caso reportado.

Em outra situação, um jornalista que usou IA para montar um roteiro cultural foi orientado a visitar museus que já haviam sido destruídos por incêndios, o que mostra como dados desatualizados podem transformar a viagem planejada em frustração na chegada.

Nem mesmo profissionais treinados escapam das armadilhas. “Funcionários do aeroporto de Manila tentaram impedir embarque baseado em dados errados do Google AI Overviews”, aponta outro episódio. A equipe, nas Filipinas, tentou barrar uma passageira britânica que embarcaria para o Reino Unido usando apenas o passaporte americano. A checagem feita com recurso de IA indicava que o documento seria insuficiente, o que não é verdade. O problema só foi resolvido após consulta à embaixada.

Para especialistas em segurança digital, esses exemplos expõem um ponto cego da tecnologia: respostas ditas com convicção, mas sem garantia de correção. Em um cenário de fronteiras e vistos, erros de detalhe fazem diferença entre embarcar e ficar em terra.

Entenda o contexto

O crescimento da IA no turismo acontece ao mesmo tempo em que companhias aéreas, hotéis, plataformas de reservas e órgãos de imigração digitalizam processos e regras. Isso cria um ecossistema perfeito para automatizar consultas e tarefas, mas também amplia o impacto de qualquer informação errada.

De um lado, empresas de tecnologia correm para lançar agentes digitais capazes de comparar preços em dezenas de sites, buscar disponibilidade em hotéis, avisar sobre mudanças de portão de embarque e até mandar e-mails de aviso para colegas de trabalho do viajante. De outro, aeroportos, companhias e autoridades precisam lidar com passageiros que chegam munidos de “comprovantes” exibidos na tela do celular, baseados em respostas de IA que nem sempre condizem com normas oficiais.

O resultado é um atrito crescente entre a expectativa de automação total, vendida no marketing, e a realidade de sistemas que ainda precisam ser checados contra fontes oficiais — como consulados, sites de governo e contratos das empresas de transporte.

Riscos de segurança: dados de viagem na mira

Além de errar, a IA também pode expor. Os principais chatbots do mercado armazenam consultas e conversas dos usuários. Em um contexto de viagem, isso inclui datas de ida e volta, itinerários, valores de diárias, número de pessoas no grupo, preferências e até empresas envolvidas.

Em caso de falha técnica ou vazamento, esses dados podem se tornar material valioso para golpistas, que passam a saber quando a casa do viajante estará vazia, qual cartão ele tende a usar, em que hotel está hospedado ou onde pretende alugar carro. Por isso, especialistas recomendam tratar a conversa com IA como qualquer outro formulário online: nunca inserir dados que o usuário não gostaria de ver vazados.

Orientações de segurança também atingem a conexão usada para checar roteiros e reservas durante a viagem. Redes Wi-Fi públicas de aeroportos, cafés e hotéis são apontadas como ponto fraco. A recomendação é privilegiar o uso de internet móvel, incluindo eSIMs, por oferecer conexão mais difícil de ser interceptada e reduzir a chance de roubo de credenciais de e-mail, banco ou programas de milhagem.

Agentes digitais e o perigo dos ataques de prompt injection

A nova onda do setor são os agentes digitais de IA, que vão além da conversa: eles recebem uma missão e passam a executar uma sequência de ações sozinhos. Podem, por exemplo, reservar um passeio, ajustar horários no calendário, preencher formulários em sites de companhias aéreas e enviar mensagens para contatos profissionais.

Para funcionar, esses agentes costumam abrir uma máquina virtual ou capturar a tela do computador e interagir com serviços de terceiros. Isso significa, na prática, dar à IA acesso direto a sites que armazenam dados sensíveis, como plataformas de reservas, bancos e e-mails corporativos.

É aí que entra um dos ataques mais preocupantes do momento. “Agentes digitais de IA são vulneráveis a ataques de prompt injection, difíceis de detectar”, alertam análises de segurança. O golpe consiste em esconder comandos maliciosos em páginas adulteradas ou de phishing, de forma que o agente, ao acessá-las, obedeça ordens que não partiram do usuário — como enviar dados sigilosos para terceiros ou aprovar operações indevidas.

Esses comandos podem estar em metadados ou elementos visuais da página, praticamente invisíveis a olho nu. Para o usuário, tudo parece funcionar normalmente, enquanto a IA, em segundo plano, executa ações que não foram autorizadas conscientemente.

Como usar IA para viajar com menos risco

Diante dos riscos, especialistas em segurança digital e turismo convergem em uma orientação central: tratar a IA como ferramenta auxiliar, não como substituta do próprio juízo nem das fontes oficiais.

A recomendação é usar chatbots para tarefas de apoio — como gerar ideias de roteiros, comparar opções de bairros para se hospedar ou ter um resumo das regras de bagagem —, mas fazer a confirmação final diretamente em sites de governos, companhias aéreas, consulados e hotéis. Para vistos, a indicação é nunca tomar a resposta da IA como única referência.

Também pesa a sugestão de que compras e reservas sejam revisadas manualmente pelo usuário antes da confirmação, em vez de delegar o processo por completo a agentes automatizados. Soluções de segurança instaladas nos dispositivos, capazes de bloquear malwares e tentativas de invasão, são citadas como camada extra contra ataques sofisticados, incluindo o prompt injection.

No outro lado da mesa, empresas que desenvolvem agentes digitais correm para reforçar barreiras técnicas, enquanto aeroportos e autoridades de fronteira começam a lidar com um novo tipo de passageiro: aquele que chega certo de estar com tudo em dia porque a IA garantiu — e descobre, no balcão, que quem manda ainda são as regras humanas.