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Inteligência Artificial

Mark Sutton revela 43 anos de fotos inéditas da F1 em Interlagos

Aos 61 anos, o britânico Mark Sutton conta em Interlagos como viu a fotografia da Fórmula 1 sair do filme revelado à noite para o envio instantâneo por satélite — sempre ao lado da família Senna.

Mark Sutton revela 43 anos de fotos inéditas da F1 em Interlagos

Fórmula 1

Mark Sutton compartilha sua jornada única capturando momentos históricos da F1 em Interlagos ao longo de mais de quatro décadas.

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Em meio ao corre-corre do Grande Prêmio de São Paulo, em Interlagos, o britânico Mark Sutton, 61 anos, faz uma pausa rápida entre uma sessão de fotos e outra para olhar para trás: são 43 anos de carreira, 657 GPs de Fórmula 1 registrados e uma trajetória que começa com filmes revelados à noite e chega hoje às imagens enviadas em segundos via satélite, sempre com a família Senna como personagem central.

Das curvas de Oulton Park ao box de Interlagos

A história de Sutton no automobilismo começa em Oulton Park, na Inglaterra, quando ele ainda estudava fotografia em Manchester e aceitou a missão do irmão, Keith, de cobrir uma corrida de Fórmula 3. No meio do grid estava um jovem brasileiro, Ayrton Senna, duelando com Martin Brundle. Com uma câmera analógica sem avanço automático, Sutton conseguiu apenas duas fotos da disputa — na primeira, os carros lado a lado; na segunda, o de Senna já por cima do de Brundle. O impacto exato se perdeu enquanto ele avançava o filme, mas as imagens correram o mundo e abriram caminho para a carreira.

Quatro décadas depois, Sutton desembarca em São Paulo como um dos veteranos da fotografia da Fórmula 1, trabalhando para a Getty Images e para a própria categoria. Ele segue todos os movimentos dos pilotos, registra bastidores, celebridades nos boxes e torcedores nas arquibancadas. “Tenho 61 anos, mas continuo com uma paixão enorme por esse esporte. Toda vez que chego a um circuito, ainda sinto aquela empolgação”, afirma.

Entenda o contexto

A trajetória de Sutton acompanha a transformação da própria Fórmula 1, que deixou de ser um espetáculo restrito às pistas para virar um produto global, alimentado por séries de streaming, redes sociais e um público mais jovem e diverso. Para dar conta dessa avalanche de demanda por imagens, o trabalho dos fotógrafos foi virando, ele próprio, um laboratório tecnológico: câmeras mais rápidas, conexões de internet mais potentes, softwares de edição mais sofisticados.

Nesse cenário, a experiência acumulada de profissionais como Sutton virou referência para agências de imagem, veículos de comunicação e organizadores de eventos, que dependem de fotos de alta qualidade entregues em ritmo de tempo real.

Como a tecnologia mudou o clique da pista

No começo da carreira, Sutton passava o dia inteiro ao redor do circuito e só descobria, horas depois, no laboratório, se tinha conseguido o registro perfeito. O processo incluía revelar o filme, escolher os melhores negativos e então iniciar o envio para os clientes. Um dos grandes momentos dessa fase é a imagem que ele fez de Mika Häkkinen em 1993: o carro do finlandês surge literalmente voando, suspenso após passar por uma zebra. O próprio Sutton só percebeu o que tinha nas mãos quando o irmão colocou o negativo na mesa de luz e chamou outros fotógrafos para ver — a foto ganharia o apelido de “Flying Finn” e se tornaria uma das favoritas da carreira.

A transição para o digital, no fim dos anos 1990, veio com ressalvas: a qualidade das primeiras câmeras ainda ficava atrás do filme, obrigando uma etapa intermediária em que fotógrafos carregavam dois sistemas completos. As câmeras analógicas garantiam resolução, e as digitais forneciam a agilidade que jornais e sites começavam a exigir. “Passei por tudo, desde fotografar em filme, revelar e digitalizar as imagens, até a chegada da internet”, resume Sutton.

Hoje, a rotina é outra. As câmeras atuais disparam dezenas de quadros por segundo, com sistemas avançados de foco automático capazes de reconhecer e seguir carros em alta velocidade. Sutton trabalha com uma Nikon Z9, modelo que incorpora essa tecnologia e ajuda a reduzir o risco de perder o instante decisivo na freada ou na ultrapassagem. O fotógrafo considera a diferença “monumental” se comparada aos primeiros anos em que dependia de foco manual e avanço de filme.

Starlink à beira da pista

A revolução não ficou restrita às câmeras. O envio das imagens também mudou de forma radical. Sutton viu a transição dos modems e das primeiras redes móveis para a comunicação via satélite. Hoje, em Interlagos e em outros autódromos pelo mundo, a Getty Images monta pontos de conexão Starlink em diferentes trechos da pista. Os fotógrafos plugam seus equipamentos nessas estações e mandam os arquivos diretamente para editores espalhados pelo planeta.

A solução surgiu como resposta a um problema típico da era dos smartphones: com dezenas de milhares de torcedores filmando, fazendo lives e postando no TikTok, no YouTube e em outras redes, as redes móveis do entorno ficam saturadas. “Temos cem mil pessoas tentando compartilhar suas experiências. Elas estão filmando, publicando no YouTube, no TikTok. Não há nada de errado nisso, mas nós também precisamos enviar nossas fotografias”, explica Sutton.

Enquanto a corrida acontece, parte das imagens que ele faz já começa a circular em sites, redes sociais oficiais da categoria e plataformas de notícias. A fotografia de Fórmula 1 deixou de ser produto de fim de semana para virar conteúdo ao vivo, disputando atenção em tempo real com vídeos de celular feitos da arquibancada.

Ayrton, Bruno e um laço com o Brasil

A conexão de Mark Sutton com o Brasil passa diretamente pela família Senna. Keith Sutton, seu irmão, foi fotógrafo oficial de Ayrton e ajudou a construir o arquivo de imagens que moldou a figura do tricampeão para o mundo. Mark acompanhou de perto os primeiros passos do piloto na Europa, registrou testes com equipes de Fórmula 1 e construiu ali uma relação que atravessa gerações.

Nesta semana de GP em São Paulo, enquanto Sutton circula pelo paddock com suas câmeras digitais, as lembranças de Ayrton ressurgem quando o assunto é a palestra dada por Bruno Senna, sobrinho do ídolo, também piloto e personagem constante das lentes do britânico. Nos bastidores, Sutton relembra a transição natural do trabalho do tio para o sobrinho, num fio que mantém viva a memória do brasileiro nas pistas e fora delas.

O vínculo com a família Senna reforça um aspecto que ele considera central na profissão: a capacidade de a fotografia registrar a história e alimentar a memória afetiva dos fãs. Em meio à avalanche de dados e tecnologias, Sutton insiste que o que permanece são as imagens icônicas, aquelas que sintetizam uma geração inteira em um único quadro.

Do pit lane às celebridades

O objeto de trabalho de Sutton também mudou. Se no início o foco quase exclusivo eram as disputas na pista, hoje ele divide o tempo entre carros, pilotos, chefes de equipe, celebridades e torcedores. A Fórmula 1 se transformou em um grande evento de entretenimento, e isso se reflete nas pautas de fotografia.

Ele cita, por exemplo, uma imagem recente feita no GP dos Estados Unidos, em Austin, com Kim Kardashian e Lewis Hamilton juntos, que acabou se tornando uma das fotos mais valiosas comercialmente daquele fim de semana. Retratos de fãs com fantasias, bandeiras e pinturas no rosto também ganharam relevância, assim como o registro de personalidades que circulam pelos boxes.

Sutton atribui parte dessa mudança à popularidade de séries como a produção da Netflix sobre os bastidores da categoria, que trouxe ao autódromo um público mais jovem e uma presença maior de mulheres. Para o fotógrafo, entender esse novo público é tão importante quanto ajustar o ISO ou escolher o ponto exato da freada para clicar.

IA, robôs e o futuro da profissão

Em Interlagos, entre um clique e outro, o veterano acompanha com atenção as discussões sobre inteligência artificial e robótica. Ele se mostra impressionado com a rapidez das mudanças tecnológicas, lembra experiências recentes com carros autônomos e vê ferramentas digitais avançadas chegando também à fotografia. Mas faz uma distinção clara entre editar e fabricar imagens.

Sutton cita a política da Getty Images de não aceitar imagens geradas por IA na cobertura editorial, embora permita ajustes tradicionais, como correção de cor e nitidez. A preocupação é preservar a confiança do público no que está sendo publicado. “Está ficando difícil saber o que é real e o que não é”, alerta.

Ele reconhece que softwares de IA já conseguem remover elementos indesejados de uma foto ou criar composições mais “limpas”, mas insiste que, no jornalismo, o valor está em registrar o que de fato aconteceu, e não em produzir cenas perfeitas em computador. Ao mesmo tempo, sabe que a automação não vai parar por aí e começa a cogitar um cenário em que câmeras robotizadas, controladas à distância ou com algum grau de autonomia, dividam espaço com profissionais humanos nos autódromos.

Entre colegas, a pergunta aparece cada vez com mais frequência: até que ponto robôs e algoritmos podem substituir o olhar treinado e a intuição de quem passou décadas à beira da pista? Sutton devolve com humor: “Vamos ter robôs trabalhando como fotógrafos?”. E emenda, rindo, que talvez esse seja o momento de pensar em aposentadoria.

Por enquanto, porém, ele segue firme no paddock de Interlagos, ajustando lentes, buscando ângulos improváveis e tentando condensar, em um único quadro, a velocidade, o barulho e a emoção que fizeram de sua carreira um retrato fiel da evolução da fotografia esportiva na era da Fórmula 1.