MP investiga Douglas Ruas e PF apreende R$ 505 mil em espécie
Ministério Público do Rio investiga Douglas Ruas por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, enquanto a PF apreende R$ 505 mil em espécie em operações no RS e na Bahia.
Justiça
Operações no RS e Bahia resultam em apreensão de dinheiro e investigação contra Douglas Ruas por crimes financeiros.
O Ministério Público do Rio de Janeiro investiga o presidente da Assembleia Legislativa fluminense e candidato ao governo, Douglas Ruas (PL), por suspeita de peculato, lavagem de dinheiro, delitos em licitações e organização criminosa. Em paralelo, a Polícia Federal apreende R$ 505 mil em espécie em operações contra lavagem de dinheiro no Rio Grande do Sul e na Bahia.
Empresas em expansão e vínculos políticos sob suspeita
A apuração do MP-RJ mira o crescimento considerado desproporcional de duas empresas ligadas a Ruas: a empreiteira Saur Construção, Terraplanagem e Locação e a administradora financeira DM Invest Consultoria e Participações. Promotores cruzam a escalada financeira desses negócios, entre 2023 e 2025, com a ascensão política de Ruas e de seu pai, o prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson.
O caso corre em segredo de Justiça, mas a linha central é clara: investigadores tentam entender se contratos públicos e operações imobiliárias abastecem um esquema de desvio de recursos e lavagem de dinheiro. Testemunhas que dizem atuar no esquema já prestam depoimento, detalhando o funcionamento das empresas e a origem dos recursos.
A auditoria determinada pelo governador interino, desembargador Ricardo Couto, funciona como espinha dorsal do inquérito. O levantamento identificou contratos que somam R$ 702 milhões com consórcios liderados pela FP Vieira Engenharia, firmados quando Ruas comandava a Secretaria de Cidades. Em um desses contratos, a empresa subcontrata a Mineração Santa Edwiges, ligada à família do deputado federal Altineu Côrtes, presidente do PL no Rio.
Contratos milionários, imóveis e fundo do petróleo
O MP-RJ aponta uma rede de relações políticas e empresariais que se entrelaçam em torno de grandes obras e investimentos em imóveis. Uma das frentes de investigação é a compra de um imóvel em São Gonçalo por meio de Saur Construção e Normandia Empreendimentos e Participações. A Saur está em nome de Ruas e de Capitão Nelson e, apenas entre 2023 e 2025, movimenta mais de R$ 12 milhões em imóveis.
Auditoria do governo interino alcança também a gestão do fundo soberano do petróleo, peça central nas contas fluminenses. Couto bloqueia R$ 730 milhões que seriam transferidos a 16 municípios. Desse total, R$ 250 milhões estavam destinados à Secretaria de Cidades, então sob o comando de Ruas, sem detalhamento público da aplicação dos recursos.
O pano de fundo é um orçamento estadual pressionado. Projeções internas apontam déficit de R$ 18 bilhões para 2026. Diante desse quadro, Couto parte para uma faxina administrativa: exonera mais de seis mil servidores comissionados, muitos sem sequer senha de acesso aos sistemas do governo, e mira o crescimento de 47,86% nos cargos de confiança ao longo da gestão anterior.
Ruas reage e aposta em arquivamento
O avanço da investigação atinge em cheio o projeto eleitoral do PL no estado. Ruas é hoje o principal nome do partido para a disputa pelo Palácio Guanabara, depois da queda do ex-governador Cláudio Castro. A suspeita de uso irregular de contratos de obras e de recursos do fundo do petróleo ameaça a narrativa de renovação apresentada pelo deputado.
Em notas e declarações públicas, Ruas tenta desarmar o desgaste. Ele afirma que o caso nasce de ataques políticos motivados por sua candidatura e lembra que um procedimento anterior sobre os mesmos fatos foi arquivado. “Os fatos mencionados foram entregues ao MP depois que eu fui anunciado como pré-candidato a governador, e eu confio no trabalho do MP. As informações chegam, eles vão fazer apuração, mas até o presente momento eu não fui notificado pra prestar quaisquer esclarecimentos”, diz.
O deputado reforça o discurso de que a investigação repete acusações já descartadas. “Recentemente, sobre os mesmos fatos, o MP arquivou um outro procedimento investigatório sem sequer pedir qualquer esclarecimento a mim porque verificou se tratar de fatos inverídicos. E tenho certeza de que esse outro procedimento aberto terá o mesmo desfecho”, afirma. Ele insiste que não responde a ações penais: “Eu nunca respondi a nenhum processo criminal, tenho zero processos, nunca precisei contratar um advogado criminal pra responder por qualquer ato praticado à frente da gestão pública.”
Faxina no governo e impacto eleitoral
Em meio à turbulência, Ricardo Couto tenta se firmar como fiador da rigidez fiscal e do combate à corrupção no Rio. O desembargador, que assume o governo após a inelegibilidade de Castro e a saída da linha sucessória de seus aliados mais próximos, intensifica auditorias em todas as secretarias, estatais e autarquias. Os órgãos são obrigados a listar contratos acima de R$ 1 milhão, projetos em andamento e o quadro de servidores efetivos, comissionados e terceirizados.
A Controladoria-Geral do Estado analisa cada informação. Em caso de indício de ilegalidade, Couto promete reação imediata. O governador interino já declara que pretende entregar o mandato com R$ 5 bilhões em caixa. “Graças às reformas e à eliminação de cargos fantasmas, Couto afirmou que entregará o governo do Rio com R$ 5 bilhões em caixa”, informa sua assessoria.
O esforço de austeridade, porém, convive com um ambiente político envenenado. A investigação sobre Ruas expõe fissuras na base do PL e pode redesenhar a disputa pelo governo em plena corrida eleitoral suplementar. Parte do mercado e de prefeitos que aguardavam recursos do fundo do petróleo teme uma paralisia de obras e investimentos, caso os contratos citados no inquérito sofram bloqueios judiciais.
PF mira lavagem de dinheiro em outros estados
Enquanto o MP-RJ mira o coração da política fluminense, a Polícia Federal ataca suspeitas de lavagem de dinheiro em outras regiões do país. Nesta sexta-feira, agentes apreendem R$ 305 mil em espécie em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, e R$ 200 mil em Irecê, na Bahia. No total, são R$ 505 mil retirados de circulação em um único dia.
As operações acontecem logo após grandes saques em agências bancárias, identificados em cruzamento de dados com a Controladoria-Geral da União. Investigadores trabalham com a hipótese de que o dinheiro alimenta esquemas de crimes financeiros e ilícitos eleitorais. Os alvos têm celulares apreendidos para perícia, etapa considerada crucial para mapear a origem dos recursos e possíveis vínculos com redes mais amplas de lavagem.
As ações da PF reforçam a percepção de que o combate à lavagem de dinheiro deixa de ser um fenômeno localizado e ganha alcance nacional. A ofensiva integra um esforço coordenado de órgãos de controle e Justiça para desarticular estruturas financeiras que sustentam esquemas de corrupção, desvios em contratos públicos e financiamento ilegal de campanhas.
O resultado das perícias e da investigação no Rio definirá o próximo capítulo dessa crise política. Se o MP-RJ formalizar denúncias, Ruas pode enfrentar não apenas um desgaste eleitoral profundo, mas também risco de afastamento e de perda de direitos políticos. Caso o procedimento seja arquivado, ele tentará usar o desfecho como capital político para reforçar o discurso de perseguição e se apresentar como vítima da “velha política”.
Quem é Douglas Ruas e por que ele está sendo investigado por lavagem de dinheiro?
Douglas Ruas, presidente da Assembleia Legislativa do Rio e candidato ao governo pelo PL, é investigado pelo MP-RJ por suposta participação em peculato, lavagem de dinheiro, delitos licitatórios e organização criminosa, a partir do crescimento considerado desproporcional de empresas ligadas a ele e de contratos públicos milionários firmados quando chefiou a Secretaria de Cidades.
Quais foram os valores apreendidos pela Polícia Federal nas operações recentes contra lavagem de dinheiro?
As operações mais recentes resultam na apreensão de R$ 305 mil em espécie em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, e de R$ 200 mil em espécie em Irecê, na Bahia, totalizando R$ 505 mil retirados de circulação em um único dia, após grandes saques bancários considerados suspeitos pelos investigadores federais.


