Ox64 de US$ 8 roda Linux em RISC-V, mas exige muita paciência
Computador Ox64, com processador RISC-V de três núcleos e preço de US$ 8, começa a ser testado por entusiastas. Placa roda Linux, mas exige gambiarras e ainda não tem rede nem SD.

Hardware
O computador Ox64 traz Linux para RISC-V por um preço acessível, porém ainda requer ajustes e limitações técnicas.
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Um computador RISC-V de três núcleos que roda Linux por apenas US$ 8 está empolgando a comunidade de hardware livre, mas os primeiros testes com o Ox64 mostram que colocar a placa para funcionar exige paciência, conhecimento avançado e uma boa dose de improviso.
Linux de US$ 8, três núcleos e muitos obstáculos
O Ox64 é uma placa compacta baseada em um chip RISC-V com três núcleos diferentes e capacidade de rodar Linux completo, com gerenciamento de memória. Entusiastas que começaram a testar o hardware nesta semana descrevem o feito com entusiasmo: “Yes, you read that right… for $8 you can run linux on a RISC-V computer” e “It looks like a microcontroller, but behaves like a UNIX machine”.
Na prática, porém, o estágio atual é claramente experimental. Recursos considerados básicos em outras placas, como ethernet, Wi‑Fi e cartão SD, ainda não funcionam, o que limita o uso do Ox64 a experimentos locais, sem rede e com armazenamento muito restrito. O foco, por enquanto, é simplesmente fazer o boot dos firmwares iniciais e abrir caminho para o carregamento de um Linux funcional.
Programar sem USB complica a vida
Um dos principais entraves é a forma de programar a placa. Diferentemente de microcontroladores populares, o Ox64 não aceita gravação direta por USB. “You cannot program it using USB, like you would an Arduino, ESP32, Stamp-C3 or rPi Pico”, relata um dos desenvolvedores que documentou o processo. A única via é a interface serial UART, usando os pinos de transmissão e recepção (TX/RX).
Isso força o uso de um dispositivo intermediário entre o PC e o Ox64. A primeira tentativa com um conversor USB‑serial barato baseado no chip CH340G fracassou: “I got one off Amazon, but it would not work… every time the handshake would fail in Dev Cube”, conta o usuário, citando a ferramenta oficial de gravação Dev Cube, que nem chegava a completar o aperto de mão com a placa.
RP2040 entra em cena como ponte serial
A solução encontrada veio de outra linha de microcontroladores. “Luckily, some people found out that you can program it with an RP2040 device, like the rPi Pico”, explica o entusiasta, que acabou recorrendo a uma placa KB2040 (baseada no mesmo chip) como ponte entre o PC e o Ox64.
No arranjo, o RP2040 roda o firmware picoprobe e atua como bridge UART‑USB. A ligação é direta nos pinos: o GPIO‑4 do RP2040 é conectado ao GPIO‑15 do Ox64, e o GPIO‑5 vai ao GPIO‑14 da placa RISC‑V, além da união dos terras. Com essa topologia, o computador hospedeiro enxerga o RP2040 como uma porta serial, que por sua vez conversa com o Ox64 pelos fios TX/RX.
O Ox64 é alimentado pela própria porta MicroUSB, enquanto o RP2040 se conecta ao PC por USB‑C. A comunicação na hora do flashing chega a baudrate=2000000, uma velocidade bem acima do que muitos usuários estão acostumados em projetos com Arduino e similares.
Entenda o contexto
A chegada do Ox64 reforça uma tendência: a queda drástica de preço para quem quer experimentar arquiteturas alternativas como RISC‑V rodando Linux. O valor de US$ 8 coloca a placa na mesma faixa de microcontroladores simples, mas com um salto de capacidade ao se aproximar de um “mini PC” capaz de executar um sistema operacional completo.
Essa combinação — custo baixíssimo, arquitetura aberta e promessa de Linux — atrai desenvolvedores, mas também expõe o abismo entre o marketing e o uso real nos primeiros dias. Sem conectividade, sem SD e com processo de gravação cheio de etapas manuais, o Ox64 ainda é um brinquedo para hackers de hardware, não uma solução plug‑and‑play para quem só quer ligar e usar.
Ferramentas de flashing dão dor de cabeça
Do lado do software, os testes em PCs rodando Linux também registram uma sequência de obstáculos. Em um ambiente com Ubuntu 22.04, a ferramenta oficial BLDevCube (ou Dev Cube) chega a travar logo na abertura quando a sessão gráfica usa Wayland. A saída encontrada por parte da comunidade foi migrar de volta para Xorg ou forçar o uso do backend X11.
Um dos relatos aponta um comando que contorna o problema: “Maybe one thing that could help future readers is that I too ran into the same issue with trying to BLDevCube on Ubuntu 22.04 with Wayland but I seem to have got it to run using: “GDK_BACKEND=x11 ./BLDevCube-ubuntu””. A gambiarra funciona, mas despeja uma grande quantidade de mensagens de aviso no terminal.
Mesmo quando abre, porém, a Dev Cube ainda não consegue gravar o Ox64 pelo caminho com RP2040. “DevCube is still not able to flash the Ox64, but we can use bflb-mcu-tool instead”, resume outro desenvolvedor, que acabou adotando a ferramenta alternativa bflb-mcu-tool, escrita em Python 3.10.
Nem isso, porém, resolve de primeira. “We need to modify the tool before it will work for us”, explica o autor do guia, que precisou editar o arquivo de interface UART do pacote Python para remover o uso dos sinais DTR e RTS, responsáveis por controles extras de linha serial e que atrapalhavam o diálogo com o Ox64.
Ox64 finalmente responde
Com a cadeia completa — Ubuntu 22.04, bflb-mcu-tool ajustada, RP2040 como ponte e Ox64 ligado por MicroUSB — os primeiros flashes bem‑sucedidos começam a aparecer. Em um dos testes, o firmware inicial low_load_bl808_m0.bin, pertencente ao pacote de suporte Linux do chip BL808 usado na placa, foi gravado com um comando chamando o bflb-mcu-tool com baudrate=2000000.
Em seguida, o terminal no PC passou a registrar as primeiras mensagens de vida do Ox64, encaminhadas pela ponte RP2040: “dynamic memory init success,heap size = 156 Kbyte E907 start… mtimer clk:1000000 psram clk init ok!”.
Elas indicam que o núcleo principal conseguiu iniciar a memória dinâmica, com heap de 156 Kbyte, configurar o temporizador e colocar a memória PSRAM em operação. A partir daí, o passo seguinte é mais ambicioso: completar o processo de boot, incluindo a gravação de firmwares em outros núcleos (como o D0) e, por fim, carregar um Linux completo na placa.
Debate técnico e impacto para outras placas
Os relatos também acabaram abrindo espaço para um debate paralelo sobre como outros microcontroladores lidam com USB. Um comentário corrigiu a afirmação de que chips como o ESP32‑C3 não seriam programados diretamente via USB. “Sorry to correct you Mr. Flemming, but you are wrong. Please download the ESP32-C3 TRM and look at chapter 29 USB_SERIAL_JTAG”, escreveu um leitor, lembrando que esse modelo tem suporte nativo a USB com interface serial em ROM.
Na prática, isso permite ligar o cabo USB direto aos pinos do chip e gravar o firmware sem precisar de um conversor externo, algo valorizado por quem monta placas mínimas: “I hope other vendors copy this idea from Espressif, it makes our life easier!”. A comparação reforça o quanto escolhas de projeto como USB nativo ou não podem facilitar — ou complicar — o caminho de quem está começando com novos hardwares RISC‑V.
Por enquanto, o Ox64 se firma como um laboratório barato para quem quer explorar Linux em RISC‑V e não se intimida com fios, firmwares intermediários e ajustes em ferramentas de linha de comando. À medida que a comunidade resolver pendências como rede, SD e suporte a USB mais amigável, a placa pode deixar o nicho hardcore e se aproximar de um público mais amplo interessado em computação de baixo custo e arquiteturas abertas.

