Policial demitida após marido do ICE usar login Flock 983 vezes
Ex-policial de Savannah entregou usuário e senha do sistema de leitores de placas Flock ao marido, agente do ICE, que fez 983 buscas ligadas a investigações federais em seis estados.

Segurança Digital
Ex-policial de Savannah forneceu acesso ao sistema Flock, resultando em centenas de buscas federais em múltiplos estados.
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A ex-policial Amber Harpe foi demitida do Departamento de Polícia de Savannah depois de admitir que entregou seu login do sistema de leitores automáticos de placas Flock ao marido, o agente federal Tyler Harpe, do Immigration and Customs Enforcement (ICE). Com as credenciais da esposa, ele fez 983 buscas entre janeiro e julho de 2026, envolvendo 97 placas de veículos em seis estados, em apoio a investigações federais de imigração, sem autorização formal da polícia local.
Uso do Flock para investigações do ICE
Segundo os documentos administrativos do caso, Tyler Harpe não tinha acesso próprio ao Flock por meio do governo federal e pediu o usuário e a senha da esposa para localizar alvos do ICE com mandados de prisão ativos. Ele admitiu nas entrevistas internas que utilizou a conta de Amber por cerca de quatro meses e reconheceu que usar as credenciais de outro policial poderia violar normas de segurança.
As auditorias do sistema identificaram 983 entradas de busca associadas ao login de Amber, vinculadas a 97 placas registradas na Geórgia, Nova Jersey, Maryland, Flórida, Carolina do Sul e Carolina do Norte. A Carolina do Sul concentrou a maior parte da atividade: 48 placas desse estado responderam por 788 consultas. Documentos da investigação apontam que a maioria dos veículos pertencia a pessoas de origem hispânica.
Em entrevista administrativa, Amber Harpe disse que raramente usava o Flock no dia a dia e que, quando acessava a plataforma, era principalmente para auxiliar em casos de pessoas desaparecidas ligadas à unidade de saúde mental em que trabalhava. Ela afirmou que não reconhecia muitos dos nomes ligados às consultas identificadas na auditoria e atribuiu ao marido a maior parte das buscas — especialmente as de veículos de Maryland, da Carolina do Sul e parte das placas da Geórgia.
Tyler Harpe declarou aos investigadores que todas as buscas foram motivadas por operações oficiais do ICE. Ele disse que as pessoas consultadas já tinham “pacotes de alvo” montados pela agência e mandados ativos, e que o Flock era usado para tentar localizar esses indivíduos em campo. O agente insistiu que não havia uso para fins pessoais. “Usei a conta para localizar alvos do ICE com mandados de prisão ativos e não para uso pessoal”, afirmou.
Departamento rejeita vínculo com imigração
A cúpula da polícia de Savannah concluiu que Amber Harpe quebrou regras internas ao permitir que um terceiro acessasse um sistema sensível em seu nome, distorcendo os mecanismos de auditoria que servem para monitorar quem vê e usa dados policiais.
O relatório final da investigação registra textualmente que “Amber Harpe forneceu suas credenciais do Flock ao marido, violando política do departamento”. Embora o inquérito interno tenha reconhecido que as buscas tinham relação com trabalho de polícia, a forma de acesso foi considerada inaceitável.
Em parecer escrito, a Maj. Michelle Halford ressaltou que o Departamento de Polícia de Savannah não atua na aplicação de leis federais de imigração e criticou o uso do Flock para apoiar operações do ICE sem acordo formal entre as agências. Para ela, o padrão demográfico dos alvos e o cargo de Tyler Harpe intensificam as preocupações.
“Confiança pública é inegociável”, escreveu Halford. Ela afirmou que ferramentas como o Flock existem “para manter a comunidade segura, não para uso pessoal ou não autorizado” e avaliou que o arranjo expôs o departamento a riscos legais e de reputação, além de fragilizar a separação entre a atuação da polícia local e a fiscalização migratória federal.
De suspensão a demissão: disputa interna
Dentro do departamento, houve divergência sobre qual punição aplicar. O então major interino Max Nowinsky sustentou que houve falha grave de julgamento da policial ao entregar o login, mas inicialmente recomendou apenas uma suspensão de oito horas. Ele destacou que a apuração não encontrou evidência de uso pessoal ou de vantagem financeira e citou a legislação estadual que permite o compartilhamento de dados de leitores de placas entre órgãos de segurança, inclusive federais, para fins legítimos.
Nowinsky também lembrou que Amber tinha histórico funcional sem registros disciplinares e atuava em uma unidade considerada sensível, voltada à saúde mental. Relatos internos descrevem a ex-policial como bem avaliada pelos colegas.
Halford discordou da pena branda e defendeu a demissão, argumentando que a violação foi intencional, se repetiu por meses e envolveu volume expressivo de consultas em nome de um agente sem acesso autorizado. O subchefe Robert Gavin acompanhou a recomendação pela exoneração.
Gavin enfatizou que, embora órgãos possam compartilhar legalmente dados de leitores de placas, isso não autoriza um servidor a entregar o próprio login. Para ele, permitir que outra pessoa opere o sistema sob a identidade de Amber comprometeu a integridade das trilhas de auditoria e a segurança da informação. As buscas, registradas como se tivessem sido feitas por ela, tornaram impossível rastrear diretamente a atuação do agente federal dentro do sistema.
Apelo da ex-policial e impacto para a comunidade
Amber Harpe reconheceu formalmente o erro de ter compartilhado as credenciais, mas classificou a demissão como punição desproporcional. Em recurso interno, argumentou que o marido é policial federal certificado, que todas as consultas tiveram propósito de investigação e que não houve intenção de causar dano ao departamento ou de violar a confiança do público.
Ela sustentou que o resultado teria sido o mesmo se tivesse feito cada busca a pedido do marido e depois repassado as informações, e pediu que fossem levados em conta seu histórico sem ocorrências, os anos de serviço e a conclusão de que as buscas eram ligadas a alvos com antecedentes criminais. Defendia, no máximo, uma advertência escrita ou a suspensão de um dia inicialmente sugerida.
O subchefe Gavin negou o apelo e a chefia da polícia confirmou a demissão. O caso integra uma série de exonerações ligadas ao uso indevido do Flock em Savannah, o que pressiona o departamento a rever controles de acesso, procedimentos de auditoria e treinamentos sobre segurança da informação.
Especialistas em direitos civis ouvidos em bastidores apontam que, para além da questão disciplinar, o episódio acende um alerta sobre como tecnologias de vigilância em massa, como leitores automáticos de placas, podem ser desviadas para reforçar ações de imigração sem transparência nem supervisão pública. O fato de a maioria dos proprietários dos veículos buscados ser hispânica alimenta temor de monitoramento seletivo e pode aprofundar a desconfiança de comunidades imigrantes em relação à polícia local.
Na prática, o departamento é empurrado a reforçar barreiras entre o uso de sistemas de vigilância para segurança da cidade e sua eventual exploração por outras esferas de governo. A tendência, segundo integrantes da administração municipal, é endurecer políticas de credenciais, rastreamento de acesso e divulgação de relatórios públicos de uso do Flock, na tentativa de conter novos abusos e reconstruir a confiança dos moradores.
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