Startup usa IA para reduzir diagnóstico de doenças raras em meses
Raras Health lança plataforma com inteligência artificial que organiza a jornada de quem tem doenças raras, combina serviços gratuitos e pagos e prepara expansão aos EUA ainda em 2026.

Inteligência Artificial
Plataforma inovadora agiliza o diagnóstico e oferece suporte completo para pacientes com doenças raras.
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A Raras Health, healthtech brasileira fundada pelo empresário Dimas Timmers e pelo pneumologista Alexandre Kawassaki, está usando inteligência artificial para encurtar uma jornada que costuma levar anos: o diagnóstico e o cuidado de pacientes com doenças raras. Com mais de 200 mil acessos mensais e atendimento a centenas de pessoas por dia, a plataforma combina serviços gratuitos e planos pagos e se prepara para expandir a operação para os Estados Unidos ainda neste ano.
Plataforma digital e assistente no WhatsApp
No centro da proposta está uma plataforma online apoiada por um assistente virtual acessível pelo WhatsApp. O sistema organiza informações clínicas, esclarece dúvidas, orienta possíveis próximos passos na investigação médica e emite uma carteirinha digital para pacientes, a Carteirinha Raras, que concentra dados de saúde e facilita o histórico em consultas.
No plano gratuito, qualquer usuário pode acessar informações sobre doenças raras, tirar dúvidas, emitir a carteirinha e ter acesso a alguns benefícios. Nos planos pagos, a oferta se amplia: por R$ 50 mensais, o paciente tem acesso a consulta especializada; por R$ 500 mensais, entra em uma jornada mais completa, com recursos de genômica e acompanhamento estruturado.
Além do atendimento direto ao paciente, a Raras Health oferece soluções a farmacêuticas, planos de saúde e governos, ajudando a localizar pessoas ainda sem diagnóstico, priorizar triagens e organizar tratamentos de alto custo.
Como a inteligência artificial entra no diagnóstico
A tecnologia de IA da Raras Health funciona como ferramenta de apoio à equipe médica, e não como substituta do profissional de saúde. A plataforma analisa prontuários, cruza sintomas, organiza o histórico e sugere hipóteses diagnósticas para que médicos cheguem mais rápido a possíveis doenças raras.
“O nosso objetivo é usar a inteligência artificial para tornar essa jornada mais eficiente, sem substituir o médico, mas ajudando a conectar as pessoas às informações e aos profissionais que podem contribuir para cada caso”, afirma o cofundador Alexandre Kawassaki, especialista em doenças raras.
A empresa afirma manter um comitê científico com dezenas de médicos e quer estruturar linhas de cuidado por doença, reunindo em um mesmo fluxo consultas, exames, fisioterapia, nutrição e outros serviços necessários ao acompanhamento de condições complexas como fibrose cística e fibrose pulmonar.
Entenda o contexto
Doenças raras costumam demorar anos para ser identificadas, mesmo quando já existe conhecimento científico e tratamento disponível. Faltam especialistas, o sistema de saúde tem dificuldade em conectar sintomas dispersos, e exames de alta complexidade seguem caros e pouco acessíveis.
A história pessoal de Dimas Timmers resume esse cenário: ele passou por cerca de 50 médicos e levou mais de 20 anos até descobrir que tinha distonia mioclônica. Kawassaki, que trabalha com esse tipo de condição há anos, viu casos em que o diagnóstico correto chegou tarde demais. Em sua própria família, a experiência profissional permitiu identificar um problema ocular raro em sua filha em 48 horas, contraste que inspirou parte do modelo da startup.
A Raras Health nasceu justamente dessa combinação de vivência pessoal com prática clínica. Antes de escalar a operação, a empresa estruturou uma base de dados sobre mais de 10 mil doenças raras e mapeou especialistas e centros de referência para onde os pacientes podem ser direcionados a partir da triagem digital.
Planos para genômica e expansão internacional
Uma das apostas da Raras Health está na genômica, área que estuda o conjunto do material genético e é central no diagnóstico de muitas doenças raras. A empresa desenvolve um laboratório genético nos Estados Unidos e projeta reduzir de forma significativa o custo do sequenciamento de genoma completo.
“Hoje, o sequenciamento de um genoma custa quase R$ 10 mil para o consumidor. Com a nossa tecnologia e a escala do mercado americano, conseguimos reduzir esse valor para cerca de 10% do preço atual, tornando a análise muito mais acessível”, diz Dimas Timmers.
Segundo os fundadores, essa redução pode democratizar exames até então restritos a uma minoria de pacientes e aliviar a pressão sobre sistemas de saúde públicos e privados, que lidam com terapias de altíssimo custo para doenças raras. A empresa também mantém conversas para chegar a outros mercados, como Portugal, o que exigirá adaptar protocolos e construir relação com médicos e instituições locais.
Modelo de negócio e impacto no setor
Com mais de 200 mil acessos mensais e centenas de pacientes atendidos diariamente, a Raras Health projeta faturamento de R$ 20 milhões em 2027 e mira alcançar R$ 100 milhões até 2030. Para sustentar o plano, aposta na combinação de assinaturas de pacientes, contratos com farmacêuticas, parcerias com planos de saúde e projetos com governos voltados à triagem e organização de filas.
Os médicos também são vistos como canal de crescimento. A plataforma permite que profissionais criem suas próprias linhas de cuidado para determinadas doenças, usando a infraestrutura tecnológica da Raras Health para organizar consultas, exames e serviços como fisioterapia e nutrição. Nesses casos, o paciente paga pela jornada de cuidado, e o médico ganha uma nova fonte de receita.
Na outra ponta, laboratórios tradicionais de diagnóstico e serviços de genética podem sentir a pressão competitiva se o modelo de IA e genômica mais barata da Raras Health ganhar escala, o que tende a acelerar investimentos em tecnologia e em novos formatos de atendimento.
Enquanto avança na expansão internacional e na oferta de serviços complementares, como fisioterapia e nutrição integradas às linhas de cuidado, a empresa também entra em um debate regulatório crescente: o uso de inteligência artificial em saúde, especialmente em diagnósticos complexos, que deve exigir regras mais claras e parcerias com o poder público nos próximos anos.
