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Tecnologia

Time Lords eliminam leap second bug e lançam UTC Contínuo em 2027

Conferência Geral de Pesos e Medidas decide encerrar os segundos intercalados e adotar o UTC Contínuo, para evitar riscos a bilhões de dispositivos e a infraestrutura digital global.

Time Lords eliminam leap second bug e lançam UTC Contínuo em 2027

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Conferência Geral de Pesos e Medidas elimina segundos intercalados para proteger sistemas digitais globais.

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A Conferência Geral de Pesos e Medidas (GCPM), conhecida no meio técnico como os “Time Lords”, decidiu na sua 28ª reunião, realizada na última semana, acabar com os segundos intercalados (leap seconds) no tempo oficial e adotar um novo padrão, o chamado UTC Contínuo, para reduzir riscos a bilhões de dispositivos conectados e a infraestruturas críticas.

Com a mudança, o Tempo Universal Coordenado (UTC), usado em relógios, servidores e redes, poderá se desviar em até 3.600 segundos – o equivalente a uma hora – do Tempo Universal (UT1), que acompanha a rotação real da Terra, sem a necessidade de inserir segundos extras. A resolução entra em vigor no próximo ano e encerra, na prática, a era dos ajustes pontuais de um segundo no relógio mundial.

O que são leap seconds e por que eles estão sendo eliminados?

Leap seconds são segundos extras adicionados ocasionalmente ao UTC para compensar as variações na rotação da Terra, e eles estão sendo eliminados porque se tornaram difíceis e perigosos de implementar em um mundo com bilhões de dispositivos conectados.

Na prática, quando a rotação do planeta desacelera e o tempo astronômico (UT1) começa a ficar “atrasado” em relação ao UTC, a GCPM autoriza a inclusão de um segundo a mais em um dia específico. Esse segundo aparece, por exemplo, como 23h59m60s nos relógios de referência. Em teoria, o mecanismo mantém o horário civil em sintonia com a posição da Terra em relação ao Sol.

No mundo analógico, o ajuste era administrável. Agora, porém, cada segundo intercalado precisa ser entendido e aplicado de forma idêntica por data centers, satélites, sistemas de energia, redes de telecomunicações e por uma massa de dispositivos da internet das coisas (IoT), muitos deles sem atualizações de software confiáveis.

Na resolução, a GCPM alerta que “o uso de diferentes métodos de mitigação para a introdução dos segundos intercalados por provedores globais leva à inconsistência na sincronização do tempo, que não está em conformidade com a unidade SI”. Na prática, cada empresa tem sua própria gambiarra para lidar com o segundo extra, o que quebra a ideia de um tempo universal único.

Além disso, os Time Lords destacam que “o crescente impacto das tecnologias IoT, sistemas multi-sensores dispersos, redes inteligentes e serviços virtuais cria risco de mau funcionamento com a inserção de qualquer segundo intercalado, especialmente um negativo”. Diante desse cenário, a decisão foi abandonar os leap seconds e simplificar a contagem oficial do tempo.

Por que os leap seconds podem se tornar o novo bug do tipo Y2K?

Os leap seconds são vistos como um potencial novo bug do tipo Y2K porque corrigir seus efeitos, especialmente em caso de um segundo intercalado negativo, exigiria um esforço global de atualização de sistemas com custo estimado similar ao do bug do milênio.

Na resolução aprovada na 28ª reunião, a GCPM afirma que “a preparação criaria, para as indústrias que dependem da sincronização do tempo, a necessidade de investimento financeiro, cujo montante é estimado como similar às preparações para o bug do milênio”. As estimativas históricas para o Y2K variam de US$ 300 bilhões a US$ 600 bilhões, gastos em revisar e corrigir sistemas que não estavam prontos para virar a data no fim do século passado.

O ponto crítico agora é a possibilidade de um leap second negativo – ou seja, retirar um segundo do relógio caso a rotação da Terra acelere. Esse tipo de ajuste nunca foi implementado. Segundo os Time Lords, “um segundo intercalado negativo não foi aplicado anteriormente e é considerado como de alto risco de causar anomalias e interrupções em infraestruturas críticas amplamente despreparadas”.

Boa parte das arquiteturas atuais assume que o tempo só anda para frente ou, no máximo, repete um segundo. Ver o relógio “pular para trás” mesmo que por um segundo pode disparar comportamentos inesperados em bancos de dados, sistemas financeiros, redes de energia, telecomunicações e, sobretudo, em bilhões de dispositivos IoT pouco padronizados e dificilmente atualizáveis.

Há ainda um risco direto para a segurança digital. Certificados usados em conexões seguras na internet trazem campos com validade temporal, incluindo um instante “notbefore”, antes do qual o certificado não é considerado confiável. Se parte da infraestrutura tratar um leap second de forma diferente ou falhar em aplicá-lo, é possível que sistemas interpretem certificados válidos como inválidos, quebrando cadeias de confiança e até derrubando redes de provedores.

Ao permitir um desvio maior entre UT1 e UTC e abandonar os segundos extras, a GCPM tenta evitar um cenário em que o mundo teria de repetir um esforço de correção caro, urgente e de difícil coordenação, como o que marcou a virada do milênio.

Como a eliminação dos leap seconds afetará os sistemas de tempo mundial?

A eliminação dos leap seconds levará à adoção do UTC Contínuo, em que o UTC poderá ficar até 3.600 segundos (uma hora) afastado do tempo astronômico UT1, o que simplifica drasticamente o trabalho de sincronizar relógios digitais e redes globais.

Do ponto de vista de quem administra grandes sistemas, o ganho é imediato: o relógio passa a avançar de forma contínua, sem saltos de um segundo para frente (ou para trás, no caso de um salto negativo). Isso reduz a complexidade em sistemas distribuídos, bancos de dados sensíveis à ordem temporal e serviços que dependem de carimbos de tempo precisos, como mercados financeiros, redes de pagamento, sistemas de navegação, controle de tráfego aéreo e plataformas de computação em nuvem.

A GCPM argumenta que, se for necessário ajustar o horário civil em escalas maiores – como essa diferença de até uma hora entre UT1 e UTC –, a humanidade já tem experiência em lidar com mudanças pontuais, como os acertos de horário de verão feitos por vários países ao longo das últimas décadas. A expectativa é que correções eventuais nesse patamar sejam muito mais gerenciáveis do que seguidos ajustes de um segundo aplicados de forma irregular.

Os setores mais beneficiados são tecnologia, telecomunicações, infraestrutura crítica e serviços digitais em geral, que poderão operar com um modelo temporal mais simples, com menor risco de falhas em cascata. Fabricantes de dispositivos e provedores de serviços terão um horizonte mais previsível para planejar ajustes futuros, em vez de se preparar para eventos raros, pouco testados e de alto risco, como o leap second negativo.

Por outro lado, áreas que dependem da correspondência fina entre o horário civil e a posição da Terra, como astronomia e determinadas aplicações científicas e militares, vão precisar de camadas adicionais de correção. Na prática, esses setores tenderão a usar diretamente UT1 ou outros tempos de referência de alta precisão, aplicando internamente os modelos necessários para compensar a diferença em relação ao UTC Contínuo.

A decisão também abre uma fase de transição: sistemas existentes que assumem a continuidade do modelo antigo, com leap seconds, terão de ser revisados. A partir do próximo ano, organismos de padronização e agências nacionais de metrologia devem publicar orientações técnicas para orientar a migração, enquanto empresas avaliam quais equipamentos podem ser atualizados e quais precisarão ser substituídos.

Entenda o contexto

O conflito entre a precisão astronômica e as limitações do software não é novo. UT1, baseado na rotação real da Terra, não é perfeitamente regular: o planeta sofre pequenas variações de velocidade devido a fatores geofísicos complexos. Já o UTC é construído a partir de relógios atômicos extremamente estáveis, que definem o segundo oficial do Sistema Internacional (SI).

Para manter os dois mundos alinhados, a comunidade científica passou a lançar mão dos leap seconds. Com o avanço da computação em rede e a massificação da internet, especialmente com a explosão de dispositivos IoT distribuídos globalmente, ficou evidente que manter esse equilíbrio com ajustes de um segundo cobra um preço cada vez maior em engenharia, segurança e dinheiro.

Ao apostar no UTC Contínuo e aceitar um desvio de até uma hora entre UT1 e UTC, os Time Lords fazem uma escolha clara: preservar a robustez e a confiabilidade da infraestrutura digital global, ainda que às custas de um afastamento gradual entre o relógio civil e o ritmo exato da Terra. A discussão sobre até onde essa diferença poderá crescer no futuro, e se será preciso novos ajustes de modelo, tende a continuar entre cientistas, engenheiros e reguladores nos próximos anos.

Fonte: matéria original