Rio cristalino vira refúgio e reacende alerta sobre água
Rio de águas cristalinas em Goiatins vira destino gratuito de banho enquanto Anvisa aprova novo remédio infantil contra esquistossomose, doença ligada à água doce contaminada.
Meio Ambiente
Água cristalina atrai banhistas e destaca riscos de doenças transmitidas pela água doce contaminada.
Um rio de águas cristalinas a 25 km de Goiatins, no norte do Tocantins, ganha fama como balneário gratuito ao mesmo tempo em que o país amplia o combate a doenças ligadas à água doce, com a aprovação de um novo remédio infantil contra a esquistossomose.
Rio escondido, acesso livre e pressão do turismo
O ponto de banho fica em uma área de reserva de uma fazenda de eucalipto, na estrada que liga Goiatins a Campos Lindos. A entrada é livre. A referência para quem sai da cidade é uma placa de restaurante às margens da rodovia. Depois do asfalto, são cerca de 500 metros de estrada de terra até os poços de água transparente.
O programador Márcio, 34, costuma visitar a região para ver parentes. No meio de setembro, decidiu parar o carro, descer até o leito do rio e registrar o cenário em vídeo. Ele caminha sobre as pedras, aponta para as piscinas naturais e se espanta com a cor da água. “Olha que água cristalina maravilhosa”, diz, enquanto a câmera acompanha o fluxo calmo do rio cercado de mata.
Márcio relata que o local muda de perfil ao longo da semana. Em dias úteis, principalmente no meio da semana, quase não encontra ninguém nos poços. “Se você vier assim no meio da semana, em uma terça-feira como eu vim aqui, não vai ter ninguém, simplesmente não vai ter ninguém”, afirma. Fins de semana e feriados, conta ele, costumam ser de rio cheio, com famílias, crianças e grupos de amigos.
Lixo nas pedras e disputa entre lazer e preservação
A fazenda responsável pela área tenta conter o impacto do aumento de visitantes. Instalou lixeiras em pontos de acesso e espalhou placas pedindo cuidado com o ambiente. As medidas, porém, não impedem o acúmulo de resíduos, nem o hábito de riscar nomes e frases nas rochas que formam os poços.
Márcio nota que, ao longo dos anos, as inscrições abrem sulcos nas pedras e alteram o desenho das piscinas naturais. O problema se soma ao lixo deixado na margem por parte dos banhistas. Em seu apelo, ele direciona o recado a quem pretende conhecer o rio: “Não suja quando você vier, porque tem gente que deixa um lixinho aí”.
O contraste entre a água transparente e a sujeira é ainda mais evidente em um estado que registra, em outros trechos de rios, o acúmulo de resíduos volumosos. Em operações recentes, equipes ambientais retiram 18 toneladas de entulho de cursos d’água no Tocantins, incluindo sofás, fogões e televisores. O cenário reforça o alerta de que a popularização de balneários sem controle pode acelerar a degradação.
Água para lazer, água para doença
A experiência de banho em um rio aparentemente intocado convive com outra realidade brasileira: a de comunidades expostas à água doce contaminada. Em áreas rurais e periferias, córregos e açudes usados para lazer e atividades diárias são também porta de entrada para doenças como a esquistossomose, transmitida por parasitas que se desenvolvem em caramujos de água doce.
A doença, conhecida popularmente como “barriga d’água” por causar acúmulo de líquido no abdômen, segue como problema de saúde pública. Crianças são especialmente vulneráveis, seja pelo hábito de brincar em rios e açudes, seja pela falta de saneamento. O contato com água contaminada pode provocar coceira, febre, tosse, emagrecimento e, com o tempo, danos ao fígado e a outros órgãos.
Os parasitas do gênero Schistosoma vivem nos vasos sanguíneos do hospedeiro humano, se reproduzem e liberam ovos que, ao chegar à água doce, iniciam novo ciclo. Sem coleta de esgoto, esses ovos retornam aos rios e encontram caramujos, que passam a lançar milhares de larvas na água, prontas para penetrar a pele em poucos minutos de exposição.
Novo remédio amplia proteção a crianças pequenas
Em meio a esse quadro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprova hoje o registro do Farmanguinhos Arpraziquantel para tratar esquistossomose em crianças de 3 meses a 6 anos. A decisão, publicada no Diário Oficial da União, amplia o alcance do tratamento pediátrico em uma faixa etária que até agora depende de alternativas limitadas.
Tradicionalmente, o medicamento padrão usado contra a doença é indicado apenas para crianças a partir dos 4 anos. A nova formulação chega para preencher essa lacuna. O Arpraziquantel atua dentro dos vasos sanguíneos onde se escondem os vermes. Ao ser absorvido pelos parasitas, provoca espasmos musculares e paralisia, fazendo com que se soltem das paredes dos vasos.
O remédio também danifica o tegumento, a camada que protege os vermes do sistema imunológico humano. Sem essa barreira, o organismo passa a reconhecer os parasitas como invasores e os destrói. Com o tempo, o corpo elimina os vermes mortos, reduzindo a carga parasitária e os sintomas da doença.
Especialistas veem na decisão um passo relevante para a saúde infantil em regiões endêmicas. A possibilidade de tratar bebês a partir de 3 meses e crianças pequenas aumenta a chance de cortar o ciclo do parasita mais cedo, antes que as formas crônicas de esquistossomose provoquem danos permanentes.
Saúde, turismo e o desafio da água limpa
A combinação entre o novo destino de banho em Goiatins e o avanço no tratamento da esquistossomose expõe uma mesma questão: o futuro da água doce no país. De um lado, rios cristalinos atraem visitantes e movimentam a economia local, ainda que de forma indireta, com mais gente circulando, consumindo em restaurantes e buscando lazer acessível. De outro, a falta de saneamento e a contaminação transformam ambientes parecidos em foco de doença.
Moradores, proprietários rurais e autoridades locais começam a discutir formas de proteger áreas como o rio de Goiatins. A agenda inclui desde a definição de regras mínimas de uso até campanhas constantes de educação ambiental. A experiência de outras regiões sugere que, sem gestão e fiscalização, pontos de banho gratuitos tendem a sofrer rápida degradação, com perda de qualidade da água e da paisagem.
Na saúde, governos e serviços públicos planejam incorporar o Arpraziquantel a protocolos de atendimento, sobretudo em programas que atuam em comunidades rurais e ribeirinhas. A expectativa é ampliar campanhas de diagnóstico e tratamento em massa, reduzindo a incidência e a gravidade da esquistossomose em médio e longo prazo.
Os dois movimentos apontam na mesma direção: garantir que a água doce sirva para lazer, sustento e convívio comunitário, sem se transformar em vetor de doença. O desafio, a partir de agora, é coordenar políticas ambientais, de saneamento e de saúde para que rios cristalinos como o de Goiatins continuem sendo refúgios – e não riscos – para as próximas gerações.
O que é a ‘barriga d’água’ e como o novo remédio aprovado pela Anvisa ajuda no tratamento?
“Barriga d’água” é o inchaço do abdômen causado pela forma grave da esquistossomose, que provoca acúmulo de líquido e aumento do fígado e do baço; o Farmanguinhos Arpraziquantel, recém-aprovado para crianças de 3 meses a 6 anos, mata os vermes dentro dos vasos sanguíneos, reduz a carga parasitária e alivia a progressão da doença.
Por que o rio de águas cristalinas no interior do Tocantins está se tornando um destino de banho?
O rio a 25 km de Goiatins, com poços de água cristalina, acesso gratuito e apenas 500 metros de estrada de terra a partir da rodovia, virou destino de banho porque oferece contato direto com a natureza, áreas para montar barracas e tranquilidade em dias de semana, atraindo moradores e viajantes em busca de lazer barato.


