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Economia

Rio cristalino no TO e crise em Caxias expõem futuro da água

Rio cristalino no Tocantins sofre com lixo, Caxias do Sul enfrenta risco de desabastecimento em mais de 90 bairros e Anvisa libera remédio infantil contra esquistossomose.

30/09/2026 16:01 8 min de leitura
Rio cristalino no TO e crise em Caxias expõem futuro da água
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Desafios hídricos no Tocantins e Caxias do Sul revelam impactos econômicos e sociais da crise da água no Brasil.

Um rio de águas cristalinas no norte do Tocantins, um rompimento de adutora em Caxias do Sul e a aprovação de um novo remédio infantil contra esquistossomose expõem, em sentidos opostos, como o Brasil lida com a água hoje.

Paraíso escondido perto de Goiatins acumula lixo e pichações

A cerca de 25 km de Goiatins, na estrada para Campos Lindos, um trecho de rio de água transparente virou refúgio de banho para moradores e visitantes. Ali, poços naturais cercados por mata recebem famílias, grupos de amigos e campistas em busca de um mergulho gratuito e longe dos balneários mais disputados.

O acesso é simples, embora informal. Quem sai de Goiatins em direção a Campos Lindos entra em uma estrada de terra à direita, na altura de uma placa que anuncia o restaurante João da Neli. Depois do asfalto, são cerca de 500 metros de chão até o ponto de banho, dentro da área de reserva de uma fazenda de eucalipto, que mantém o acesso livre.

O programador Márcio, 34, costuma passar pela região para visitar parentes. Em 15 de setembro, decidiu parar o carro e gravar um vídeo para mostrar o que chama de tesouro escondido. Enquanto a câmera percorre o leito do rio, ele exclama: “Olha que água cristalina maravilhosa”.

Na gravação, Márcio destaca que o movimento muda conforme o dia. “Se você vier assim no meio da semana, em uma terça-feira como eu vim aqui, não vai ter ninguém, simplesmente não vai ter ninguém”, relata. Nos fins de semana e feriados, o cenário se inverte: barracas, churrasqueiras improvisadas e som alto tomam conta das margens.

A fazenda instalou lixeiras e placas com pedidos de cuidado ambiental. Mesmo assim, embalagens, garrafas e restos de comida aparecem espalhados pela área de uso mais intenso. Em algumas pedras, inscrições feitas à força alteram o relevo natural. Márcio reage diante da câmera: “Não suja quando você vier, porque tem gente que deixa um lixinho aí”.

A cena se soma a um quadro mais amplo. No Tocantins, ações recentes de limpeza já retiram 18 toneladas de resíduos de rios, incluindo sofás, fogões e televisores. No pequeno balneário informal perto de Goiatins, a pressão ainda é localizada, mas o contraste entre a transparência da água e o lixo nas margens sintetiza o risco de degradação acelerada.

Rompimento em adutora ameaça abastecimento em Caxias do Sul

Enquanto um rio quase intocado luta para se manter limpo, Caxias do Sul enfrenta o outro extremo: a ameaça de torneiras secas. Um novo rompimento em uma adutora de água bruta, registrado nesta quarta-feira, compromete o Sistema Faxinal, responsável por abastecer 57% da população do município.

A tubulação cede na região do Jardim das Hortênsias, durante obras de construção de um loteamento. De acordo com o Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto (Samae), escavações na encosta, somadas ao acúmulo de água das chuvas recentes, provocam a queda de um talude e rompem a estrutura que leva água bruta até a estação de tratamento.

Mais de 90 bairros entram na zona de risco de desabastecimento. Em muitos, a pressão já cai de forma perceptível. O Samae orienta a população a economizar, suspender lavagens de calçadas e veículos e priorizar o uso doméstico essencial, como higiene e alimentação. Não há prazo para o fim do conserto nem para a normalização do fornecimento.

Técnicos explicam que o reparo só avança quando o solo se estabiliza. O terreno encharcado, próximo à área de obras privadas, impede intervenções pesadas, sob risco de novos deslizamentos. O quadro pressiona o poder público a rever o monitoramento de empreendimentos em áreas sensíveis e evidencia a vulnerabilidade de grandes cidades que dependem de poucos sistemas de captação.

O impacto imediato recai sobre famílias e pequenos negócios. Padarias, restaurantes e escolas precisam recalcular estoques e rotinas. Hospitais e unidades de saúde recorrem a reservatórios próprios e caminhões-pipa para manter serviços básicos. A orientação geral é de racionamento espontâneo até que a adutora volte a operar com segurança.

Remédio infantil contra esquistossomose muda cenário da doença

No mesmo dia em que um rio turístico no Tocantins revela a face frágil da preservação e Caxias do Sul revê sua dependência hídrica, a água aparece também como via de doença — e de avanço científico. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprova o registro do medicamento Farmanguinhos Arpraziquantel, indicado para tratar esquistossomose em crianças de 3 meses a 6 anos.

A doença, popularmente conhecida em muitos lugares como barriga d’água, é causada pelos parasitas Schistosoma mansoni e Schistosoma haematobium. A infecção ocorre quando a pele entra em contato com água doce contaminada por caramujos infectados, comuns em áreas rurais e ribeirinhas, onde crianças costumam brincar e tomar banho.

Até agora, o padrão de tratamento disponível no país é indicado apenas para crianças maiores de 4 anos. A nova formulação preenche uma lacuna crítica do atendimento pediátrico: bebês e crianças pequenas, mais expostos a ambientes insalubres e com sistema imunológico imaturo, passam a ter opção segura e específica.

O Arpraziquantel age diretamente sobre os vermes alojados nos vasos sanguíneos do paciente. O remédio é absorvido pelos parasitas, provoca espasmos musculares e paralisia e danifica o tegumento, espécie de “pele” que protege o verme do sistema de defesa humano. Com essa barreira rompida, o organismo consegue atacar e destruir os invasores.

A esquistossomose, sem tratamento adequado, causa sintomas agudos como coceira, vermelhidão na pele, febre, tosse e cansaço intenso. Em quadros mais graves, o acúmulo de líquido no abdome, resultado do aumento de fígado e baço, leva à barriga d’água e a perda acentuada de peso. A forma crônica, que surge meses ou anos depois, compromete órgãos vitais e empurra comunidades inteiras para um ciclo de adoecimento e pobreza.

Com a decisão publicada no Diário Oficial da União nesta quarta-feira, abre-se caminho para que o novo remédio entre em protocolos nacionais de saúde e em campanhas de diagnóstico e tratamento em massa. A expectativa é reduzir a prevalência da doença em áreas endêmicas e evitar sequelas que, embora silenciosas, pesam sobre indicadores de desenvolvimento infantil.

Um mesmo fio: água limpa, água que falta, água que adoece

Os três episódios reunidos nesta quarta-feira mostram que o país convive, ao mesmo tempo, com a abundância, a escassez e o risco invisível da água contaminada. No interior do Tocantins, o desafio é organizar o uso de um patrimônio natural antes que ele se deteriore, com regras claras, infraestrutura mínima e educação ambiental efetiva para visitantes.

Em Caxias do Sul, a urgência é fortalecer a segurança das redes de abastecimento, fiscalizar obras que interferem no solo e diversificar fontes de captação, para que o rompimento de uma única adutora não coloque mais da metade da cidade em alerta. A resposta depende de investimento, planejamento urbano e participação da própria população na economia do recurso.

Na saúde pública, a aprovação do Arpraziquantel infantil indica um passo além do discurso de prevenção. O país ganha uma ferramenta concreta para atacar uma verminose historicamente negligenciada, que se apoia justamente na falta de saneamento básico e na exposição permanente à água doce contaminada.

O futuro imediato passa por decisões locais e nacionais: de Goiatins, que precisa decidir que tipo de turismo quer para seu rio cristalino, à reestruturação da rede de Caxias do Sul, até a incorporação rápida do novo remédio nos serviços de saúde. Em todos os casos, a mesma pergunta permanece em aberto: que lugar a água, em suas diferentes formas, vai ocupar nas prioridades de gestão do país.

Quais bairros de Caxias do Sul estão sem água devido ao rompimento da adutora?

Mais de 90 bairros de Caxias do Sul ficam sob risco de desabastecimento com o novo rompimento da adutora ligada ao Sistema Faxinal, que hoje atende 57% da população da cidade. O Samae não divulga uma lista nominal, mas orienta todos os moradores atendidos pelo sistema a economizar água imediatamente.

Qual remédio aprovado pela Anvisa trata a verminose que causa barriga d’água em crianças?

O medicamento aprovado pela Anvisa é o Farmanguinhos Arpraziquantel, indicado para o tratamento da esquistossomose em crianças de 3 meses a 6 anos, doença que pode evoluir para a chamada barriga d’água. O remédio age paralisando e destruindo os vermes Schistosoma mansoni e haematobium dentro do organismo.

Onde fica o rio de águas cristalinas no interior do Tocantins que virou destino de banho?

O rio de águas cristalinas fica a cerca de 25 km de Goiatins, no norte do Tocantins, na estrada que liga o município a Campos Lindos, com acesso por uma entrada à direita sinalizada apenas por placa de restaurante. Depois da rodovia, são aproximadamente 500 metros de estrada de terra dentro de uma reserva de eucalipto.


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