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Economia

Banco Master tenta R$ 2 bi da Previ e preocupa fundos de pensão

Mensagens de operador ligado a grupo político de Alexandre Padilha detalham tentativa de operação de R$ 2 bilhões da Previ com o Banco Master. Caso reacende debate sobre privatização do Banco do Brasil e risco aos fundos de pensão.

Banco Master tenta R$ 2 bi da Previ e preocupa fundos de pensão

Mercado Financeiro

Operação bilionária envolvendo Previ e Banco Master reacende debates sobre privatização e segurança dos fundos de pensão.

Mensagens de um operador ligado ao lobista Júlio Cezar detalham uma tentativa de operação financeira de R$ 2 bilhões da Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, com o Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, articulada com dirigentes da Previ, funcionários do Banco do Brasil e integrantes do grupo político do ministro Alexandre Padilha no Palácio do Planalto. A operação acabou barrada após resistências internas e denúncias na imprensa, mas expôs a disputa por recursos de fundos de pensão estatais e reacendeu o debate sobre a privatização do Banco do Brasil e a segurança da aposentadoria de milhões de trabalhadores.

O que houve com o Banco Master no Brasil?

O Banco Master tentou, por meio de articulações políticas e de bastidores, acessar R$ 2 bilhões da Previ em letras financeiras, como uma porta de entrada para um circuito bilionário de recursos de fundos de pensão de estatais. A manobra não se concretizou e hoje está no centro de questionamentos sobre risco aos fundos e influência política em investimentos.

O caso veio à tona a partir de mensagens de Hamilton Buselin, operador ligado a Júlio Cezar, interlocutor do grupo político de Alexandre Padilha nos fundos de pensão. Em um dos áudios encaminhados a um parceiro de Daniel Vorcaro, Buselin afirma que a Previ tinha R$ 2 bilhões liberados para aplicações no Master e que o desenho da operação estava pronto.

“A informação que eu tive é de que o Master está tentando fazer uma operação muito grande (de captação nos fundos), mas estão tendo algum problema… Para aquisição de letras, não há limite e a disponibilidade hoje da Previ é de 2 bilhões de reais”, diz o operador em uma das mensagens.

O roteiro incluía uma espécie de encenação para dar aparência de normalidade à negociação: o Master “provocaria” o fundo manifestando interesse em captar, e então dirigentes da Previ fariam uma visita oficial ao banco para discutir operações, segundo os diálogos. “Para que isso seja feito, seja liberado, a gente tem todo o roteiro. Inclusive as pessoas no Banco do Brasil já estão instruídas a esperar e receber o que a gente encaminhar. A coisa já está totalmente montada”, afirma Buselin em outro trecho.

O objetivo declarado do grupo era colocar o Master “dentro do circuito” dos fundos de pensão de forma direta, sem depender de intermediários. Um interlocutor do grupo de Júlio Cezar reforça, em mensagem, a suposta permeabilidade do fundo: “Ele está bastante dentro da Previ e eles estão com apetite pra comprar letras financeiras e os limites lá são bem altos”.

As articulações incluíram reuniões de Vorcaro e de Júlio Cezar no Palácio do Planalto, com apoio político atribuído a Padilha e a seu braço-direito, Olavo Noleto. De acordo com uma proposta de delação premiada de Vorcaro – rejeitada pela Procuradoria-Geral da República por falta de provas –, o plano poderia render R$ 10 bilhões em captações ao Master, com R$ 1 bilhão em supostas propinas destinadas a integrantes do grupo político. Essas acusações, porém, não foram confirmadas na Justiça.

Após reportagens em 2024 sobre pressões para que gestores de fundos públicos aplicassem em letras financeiras do Master, a resistência interna em Previ, Petros e Postalis aumentou, e a operação foi congelada. Vorcaro, Padilha, Noleto e outros citados negam qualquer irregularidade ou recebimento de propina.

Quais bancos estão envolvidos com o Banco Master?

Formalmente, Banco do Brasil e Previ afirmam que não mantêm qualquer relação comercial ou exposição a papéis do Banco Master, apesar de terem sido citados nas articulações descritas por operadores e pelo próprio Daniel Vorcaro em sua proposta de delação.

Em nota oficial, o Banco do Brasil afirma que “não há e nunca houve qualquer concessão de empréstimos ou compra ou distribuição de papéis relacionados ao Master pelo Banco do Brasil e Previ”, e diz repudiar “veementemente” as declarações atribuídas a terceiros que mencionam empregados ou estruturas do banco preparados para facilitar negociações com o Master. A instituição ressalta que todas as suas operações seguem “rigorosos critérios de governança, compliance e legislação vigente”.

A Previ também divulgou comunicado, no qual afirma que “nunca realizou análise de investimento no Banco Master e jamais aprovou, reservou ou autorizou recursos para aplicações na instituição”. Segundo o fundo de pensão, o Master “sequer foi considerado como possível parceiro de investimento”, e todos os investimentos realizados podem ser conferidos na área de Transparência de seu site.

Apesar das negativas, registros de entrada no Planalto e mensagens obtidas em investigações confirmam que representantes do Master foram recebidos por autoridades políticas para discutir aproximação com fundos de pensão de estatais, incluindo Banco do Brasil, Caixa, Petrobras e Correios. As tratativas, contudo, não resultaram em contratos efetivos com Previ ou BB, de acordo com as duas instituições.

Entenda o contexto

A ofensiva do Banco Master sobre fundos de pensão ocorre em um momento de forte disputa por recursos de aposentadoria de servidores de estatais, que administram carteiras de dezenas de bilhões de reais. A Previ, ligada ao Banco do Brasil, é o maior fundo de pensão do país e, por isso, alvo preferencial de bancos e gestoras privadas interessadas em vender títulos e produtos financeiros de maior risco e retorno.

Nesse ambiente, a atuação de operadores políticos abre flanco para suspeitas de uso de influência em Brasília para direcionar investimentos sensíveis, com impacto direto sobre a aposentadoria de milhões de trabalhadores. A proposta de delação de Vorcaro, embora rejeitada, descreve um desenho em que a entrada do Master na “lista exaustiva” da Previdência – uma espécie de credencial oficial para captar recursos de fundos – serviria como trampolim para uma captação total estimada em R$ 10 bilhões.

Do lado dos fundos, dirigentes sustentam que as regras de governança e colegiados técnicos impedem decisões casuísticas e que, no caso do Master, as tentativas de aproximar o banco privado esbarraram em resistências de gestores e conselheiros.

Privatização do BB e temor nos fundos de pensão

Enquanto o caso Master expõe pressões de mercado e de bastidores sobre a Previ, o debate político-eleitoral traz outra fonte de incerteza para os participantes de fundos de pensão de estatais: a possibilidade de privatização do Banco do Brasil.

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro defende um amplo programa de venda de estatais, que prevê a análise de mais de 20 empresas públicas, incluindo bancos. O discurso de campanha é reduzir o papel do Estado na economia e usar recursos de privatizações para abater dívida pública e financiar investimentos privados.

Sindicatos e entidades de trabalhadores veem risco direto para bancos públicos, fundos de pensão e planos de saúde de funcionários. Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, afirma que a experiência de privatizações anteriores mostra um saldo negativo para empregados e para a população.

Ela lembra o caso do Banespa, privatizado na virada do século, que resultou em mais de 8 mil demissões, congelamento salarial e perda de benefícios. “Nossa posição é de defesa intransigente dos bancos públicos, dos empregos, dos direitos e do atendimento à população. O patrimônio público deve servir ao povo brasileiro, e não ser colocado à venda. Banco público forte é fundamental para um Brasil mais justo, soberano e desenvolvido”, diz Neiva.

Na avaliação de sindicatos, a privatização do Banco do Brasil colocaria sob risco a própria razão de ser de fundos como Previ e Cassi, criados para garantir aposentadoria complementar e assistência à saúde dos funcionários de uma instituição pública. Um eventual controlador privado poderia rever aportes, alterar planos e pressionar por rentabilidade de curto prazo, aumentando a exposição a operações como a que foi desenhada para o Banco Master.

Além disso, o papel de Banco do Brasil e Caixa como instrumentos de políticas públicas – crédito agrícola subsidiado, financiamento imobiliário, apoio a pequenos negócios e programas sociais – poderia ser reduzido, com impacto direto sobre regiões mais pobres e segmentos que hoje dependem do crédito público.

No campo jurídico, especialistas apontam que as articulações envolvendo fundos de pensão e operadores políticos podem motivar investigações adicionais em órgãos de controle, especialmente se surgirem novas provas que sustentem as acusações rejeitadas na proposta de delação de Vorcaro. A disputa em torno do futuro dos bancos públicos e do controle de seus fundos de pensão, porém, já está colocada no centro da agenda política e econômica do país.

Fontes: matéria original 1 · matéria original 2 · matéria original 3