Reparo no Guandu corta água na Zona Oeste e expõe crise na Cedae Saúde
Manutenção emergencial no Sistema Guandu reduz pela metade a produção de água e interrompe o abastecimento em 24 bairros da Zona Oeste do Rio, enquanto auditoria aponta indícios de desvios de R$ 400 milhões na Cedae Saúde.

Abastecimento
Manutenção no Sistema Guandu afeta 24 bairros na Zona Oeste e revela problemas financeiros na Cedae Saúde.
Leia também: Ibovespa avança 1,57% com dólar a R$5,02 na reta final eleitoral
A Cedae realiza nesta quinta-feira (22) um reparo emergencial em uma tubulação do Sistema Guandu que deixou 24 bairros da Zona Oeste do Rio sem água e reduziu pela metade a produção na principal estação de tratamento da região, ao mesmo tempo em que o governo do estado divulga uma auditoria que aponta indícios de desvios superiores a R$ 400 milhões na Cedae Saúde, plano que atende cerca de 17 mil funcionários e dependentes.
O que aconteceu com a Cedae que causou o reparo emergencial no Guandu?
O problema está em uma tubulação do Sistema Guandu, responsável pelo envio da água bruta para tratamento e distribuição à Zona Oeste. A Cedae identificou a necessidade de intervenção imediata e paralisou parte da estrutura para fazer o reparo, o que levou a Estação de Tratamento de Água (ETA) a operar com apenas metade da capacidade até o fim do dia.
Com menos água chegando para tratamento, a concessionária Rio+Saneamento, que opera o sistema na região, suspendeu o abastecimento em parte da rede para evitar colapso generalizado e perda de pressão. A orientação é que moradores economizem água e adiem atividades que dependam de grande consumo, como lavagem de carros e áreas externas.
Quando volta o abastecimento de água no Rio de Janeiro após o reparo no Sistema Guandu?
O abastecimento começa a ser retomado após o fim do reparo, previsto para o final desta quinta-feira (22), e a normalização completa pode levar até 72 horas, segundo a concessionária Rio+Saneamento. Em nota, a empresa informou que “a normalização deve ocorrer gradualmente em até 72 horas após a retomada da operação da estação”.
Esse prazo varia de acordo com a localização e a altura dos imóveis. Áreas mais altas e pontas de rede costumam ser as últimas a ter o serviço restabelecido. Imóveis com caixa d’água dimensionada para pelo menos 24 horas sentem menos o impacto, enquanto quem depende diretamente da rede pode enfrentar desabastecimento mais severo ao longo do dia.
Quais bairros do Rio de Janeiro foram afetados pela interrupção do abastecimento de água?
A Rio+Saneamento informou que 24 bairros da Zona Oeste estão com o fornecimento de água interrompido: Bangu, Barra de Guaratiba, Campo dos Afonsos, Campo Grande, Cosmos, Deodoro, Gericinó, Guaratiba, Ilha de Guaratiba, Inhoaíba, Jardim Sulacap, Jabour, Magalhães Bastos, Paciência, Padre Miguel, Pedra de Guaratiba, Realengo, Santa Cruz, Santíssimo, Senador Camará, Senador Vasconcelos, Sepetiba, Vila Kennedy e Vila Militar.
Moradores dessas regiões podem enfrentar torneiras secas ou baixa pressão ao longo de todo o dia de hoje e dos próximos, até que o sistema seja totalmente recarregado. A concessionária pede que a população use a água armazenada apenas para higiene, preparo de alimentos e consumo, evitando desperdício.
Entenda o contexto
O Sistema Guandu é a principal porta de entrada da água que abastece grande parte da Região Metropolitana, inclusive áreas administradas por outras concessionárias, como Águas do Rio e Iguá. Uma intervenção emergencial como a desta quinta atinge diretamente milhões de moradores, impactando residências, escolas, pequenos comércios e serviços essenciais na Zona Oeste.
Em paralelo à crise operacional, a Cedae e o governo estadual lidam com o desgaste provocado pela descoberta de supostos esquemas de desvio de recursos na Cedae Saúde, entidade de assistência médica dos empregados da companhia. A combinação de problema técnico grave com denúncia de má gestão e corrupção aumenta a pressão por transparência e eficiência na empresa de saneamento, que também atende cidades como Macaé e outros municípios fluminenses.
O que o governo do RJ descobriu sobre os desvios na Cedae Saúde?
A auditoria do governo do Rio identificou indícios de desvios que passam de R$ 400 milhões na Cedae Saúde, a caixa de assistência que gerencia o plano de saúde de cerca de 17 mil beneficiários entre funcionários ativos, aposentados, dependentes e pensionistas. O levantamento apontou pagamentos suspeitos por serviços e favorecimento a empresas ligadas à antiga direção.
O trabalho começou depois da exoneração do ex-presidente da Cedae Saúde Eric Frederik Gualberto, em junho, quando a nova diretoria constatou o apagamento de dados da contabilidade e da lista de fornecedores em um período recente. “Os arquivos com nomes de fornecedores e a contabilidade de dezembro de 2023 a abril de 2026 foram apagados”, registra o relatório da auditoria.
Os auditores conseguiram recuperar as informações apagadas e identificaram repasses milionários para empresas vinculadas à antiga gestão. Segundo o documento, “quatro empresas que fazem parte de uma offshore ligada a Eric nas Ilhas Virgens Britânicas receberam R$ 95 milhões durante sua gestão” à frente da Cedae Saúde.
Além dos pagamentos considerados incompatíveis com a prestação de serviços, a investigação mapeou uma política de repasses inflados da Cedae para a caixa de assistência. “O repasse era, em média, R$ 20 milhões por mês para a Cedae Saúde. Atualmente, o valor gira em torno de R$ 6 milhões, uma redução de 70%”, apontou a auditoria.
Com os novos parâmetros, o governo afirma que o plano se tornou financeiramente viável, sem necessidade de aportes tão altos, e que a diferença entre o que era enviado e o que de fato era necessário está no foco da apuração sobre possíveis desvios.
Investigação vai ao Ministério Público
O relatório será encaminhado ao Ministério Público do Rio (MPRJ), que deve aprofundar as investigações e pode propor ações civis e penais contra os responsáveis. Haverá também procedimentos internos para apurar responsabilidades administrativas da antiga gestão.
Em nota, a Secretaria estadual afirmou que “não compactua com quaisquer desvios de conduta e cometimento de crimes praticados por seus servidores” e destacou que atua por meio da Corregedoria e da Ssispen no combate a irregularidades.
A atual diretoria da Cedae Saúde tenta reorganizar contratos e revisar a rede de prestadores para garantir atendimento sem interrupções. O temor entre empregados e aposentados é que o rombo e a redução dos repasses afetem a qualidade do serviço médico, caso não haja reequilíbrio rápido das contas.
Além do dano financeiro potencial, a descoberta de empresas offshore recebendo recursos de um plano de saúde patrocinado por uma companhia estatal reacende o debate sobre a governança da Cedae, a fiscalização de entidades vinculadas e a necessidade de controles mais rígidos em serviços públicos essenciais, como água, esgoto e assistência médica a servidores.
Fontes: matéria original 1 · matéria original 2 · matéria original 3


