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Inteligência Artificial

Perfis com mulheres de IA simulam apoio a Flávio e vendem conteúdo adulto

Investigação identifica 37 perfis no Instagram e TikTok com mulheres virtuais usadas para simular apoio a Flávio Bolsonaro e atrair público para conteúdo adulto.

Perfis com mulheres de IA simulam apoio a Flávio e vendem conteúdo adulto

Inteligência Artificial

Perfis falsos com mulheres virtuais promovem apoio político e direcionam seguidores a conteúdo adulto nas redes sociais.

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Trinta e sete perfis no Instagram e no TikTok usam imagens de mulheres criadas por inteligência artificial para simular apoio político a Flávio Bolsonaro, somar cerca de 7 milhões de seguidores e direcionar parte desse público para venda de conteúdo adulto em plataformas como OnlyFans e canais no Telegram.

Mulheres virtuais em atos e cenas do cotidiano

As personagens artificiais aparecem em academias, manifestações e fotos diante do espelho, quase sempre com a camisa do candidato ou em situações que sugerem apoio explícito. Em muitos casos, são inseridas digitalmente em imagens de atos públicos, misturadas à multidão, sem qualquer aviso de que se trata de montagem feita por inteligência artificial.

Um dos exemplos mais chamativos é o de uma mulher virtual colocada em cenas de um ato político no Farol da Barra, em Salvador. O vídeo viralizou, impulsionou o engajamento e fez o perfil ultrapassar 500 mil seguidores. Em outras publicações, a mesma personagem passa a anunciar vídeos de teor sexual e a convidar seguidores para páginas pagas e grupos fechados.

No conjunto dos 37 perfis, a investigação contabilizou mais de 504 mil interações entre curtidas, comentários e compartilhamentos. A estética das postagens segue um padrão: mulheres jovens, hipersexualizadas, enquadradas como eleitoras engajadas, que depois convidam o público masculino a migrar para ambientes de conteúdo adulto.

Exploração da imagem feminina e misoginia

Para especialistas em gênero e tecnologia, a estratégia vai além da manipulação política e reforça uma lógica de exploração comercial da imagem feminina. A presidente e coordenadora da área de Gênero e Tecnologia do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), Raquel Saraiva, classifica a prática como parte de um ciclo de violência simbólica contra mulheres.

“Essas práticas integram uma cadeia comercial associada à exploração da imagem feminina e à misoginia”, afirma Saraiva. Segundo ela, o fato de as mulheres retratadas não existirem fora da tela não reduz o problema. Ao contrário, amplia a percepção de que o corpo feminino pode ser totalmente controlado, programado e descartado conforme o interesse de quem lucra com ele.

As personagens são desenhadas sob medida para agradar ao público-alvo: aparência, roupas e gestos são calibrados para atrair homens, misturando sensualidade com identificação política. Na prática, a figura da “eleitora ideal” surge como uma fantasia: bonita, obediente ao roteiro, sem divergências e disponível para virar vitrine de propaganda ou isca para vendas de conteúdo sexualizado.

Risco eleitoral e falta de transparência

A ausência de sinalização clara de que se trata de conteúdos gerados por inteligência artificial cria um problema direto para o ambiente eleitoral. Parte das montagens reaproveita cenas reais, substituindo pessoas por personagens virtuais, o que pode levar usuários a acreditar que estão vendo registros autênticos de manifestações e apoiadoras.

Ao apresentar essa massa de “eleitoras” fabricadas como se fossem pessoas comuns, os perfis inflacionam artificialmente a percepção de apoio a Flávio Bolsonaro. Isso distorce o debate público, dificulta a distinção entre engajamento genuíno e encenação automatizada e alimenta um cenário de desinformação, em que números de seguidores e curtidas passam a ser usados como prova de força política.

Além do impacto direto sobre a percepção do eleitor, a prática expõe brechas nas regras de campanha e na fiscalização sobre o uso de tecnologias emergentes na política. A combinação entre propaganda disfarçada, conteúdo adulto e perfis inautênticos criados por IA coloca em xeque instrumentos tradicionais de controle de abuso e uso indevido de imagem nas redes.

Plataformas reagem, mas mantêm contas no ar

Procuradas, as plataformas responsáveis pelas redes afirmaram ter removido publicações que violavam suas políticas, mas não confirmaram a exclusão dos perfis específicos identificados na investigação. O TikTok informou ter apagado conteúdos apontados como irregulares, enquanto a Meta, dona do Instagram, afirmou que remove publicações que descumprem suas regras, sem detalhar providências em relação às contas.

Na prática, o cenário indica que parte dos perfis segue no ar, o que evidencia a dificuldade das empresas em rastrear e coibir conteúdos gerados por inteligência artificial quando eles transitam entre entretenimento, propaganda política e monetização com conteúdo adulto. Sem mecanismos de identificação e rotulagem mais robustos, usuários continuam expostos à ilusão de que interagem com pessoas reais.

Entenda o contexto

O uso de imagens falsas e perfis inautênticos não é novidade em disputas políticas, mas o avanço recente das ferramentas de inteligência artificial tornou esse tipo de operação muito mais barato, rápido e convincente. Em poucos minutos, é possível criar centenas de variações de uma mesma personagem, com roupas de diferentes campanhas, inserida em cenários variados e falando a linguagem do público-alvo.

No universo ligado ao bolsonarismo, a adoção de eleitoras virtuais reforça um histórico de discursos conservadores e ataques a direitos das mulheres, agora transpostos para um ambiente em que a mulher nem precisa existir de fato para ser instrumentalizada. O corpo feminino, ainda que digital, vira mercadoria para atrair cliques, gerar renda e inflar artificialmente a imagem de apoio popular em torno do candidato.

Especialistas defendem que a exposição do caso aumente a pressão sobre plataformas e autoridades eleitorais para criar regras específicas sobre transparência no uso de IA, identificação de conteúdo sintético e limites para a combinação entre propaganda política e exploração sexualizada de imagens, mesmo quando produzidas por algoritmos.

Fonte: matéria original