36 bispos criticam Flávio Bolsonaro e pedem voto pela democracia
Documento de 36 bispos católicos aponta a candidatura de Flávio Bolsonaro como ameaça à democracia e à soberania nacional e convoca fiéis a votar em defesa dos pobres e da doutrina social da Igreja.

Religião
Bispos católicos manifestam preocupação com a candidatura de Flávio Bolsonaro, defendendo a democracia e os valores sociais da Igreja.
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Um grupo de 36 bispos católicos de diferentes regiões do Brasil divulgou, nesta quinta-feira 22, uma carta pública em que critica a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República e convoca os fiéis a votar no segundo turno, neste domingo 25, em defesa da democracia, dos pobres e dos valores humanitários. No texto, eles afirmam que uma das duas candidaturas em disputa ameaça a democracia, a soberania nacional e o bem comum.
Bispos dizem que não podem ser neutros
Intitulado “Carta de bispos católicos ao povo de Deus diante do segundo turno das eleições presidenciais de 2026”, o documento não cita nomes, mas associa a candidatura criticada a posições atribuídas a Flávio Bolsonaro em áreas como direitos trabalhistas, política externa, programas sociais, segurança e meio ambiente.
“Não podemos nos manter neutros, a fim de que nossa consciência ou a história não nos condenem no futuro”, dizem os bispos. Eles sustentam que a outra candidatura em disputa tem histórico de responsabilidade com os mais pobres e respeito à Constituição e afirmam que o voto deve ser guiado pela doutrina social da Igreja.
A carta é assinada, entre outros, por dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho (RO), dom Vicente de Paula Ferreira, bispo de Livramento de Nossa Senhora (BA), e dom Zanoni Demettino Castro, arcebispo de Feira de Santana (BA). Os signatários declaram estar em comunhão com a mensagem divulgada pelo Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que também orientou os católicos a considerar os princípios da Igreja na escolha dos candidatos.
Críticas a direitos trabalhistas, tortura e armas
Os bispos dedicam parte do texto a criticar posições de Flávio Bolsonaro em relação aos direitos trabalhistas. Eles condenam a oposição do candidato ao fim da escala 6×1 e à remuneração por hora trabalhada, defendendo que tais posturas ignoram “a dignidade dos trabalhadores e o direito a uma remuneração suficiente”.
Outro eixo central da carta é a denúncia de apoio à tortura. O documento afirma que o senador é favorável à prática e lembra homenagens feitas por integrantes de sua família ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador durante a Ditadura Militar. Os bispos ressaltam que Flávio é filho de um ex-presidente condenado e preso por atentar contra a ordem democrática e dizem que ele próprio fez declarações que ameaçam a ordem constitucional.
Na área da segurança pública, os religiosos atacam a defesa da ampliação do acesso a armas, ligada ao candidato e ao seu partido, e associam essa agenda ao aumento da violência, em oposição ao que entendem ser a promoção da cultura da paz, defendida pela Igreja.
Entenda o contexto
A carta chega a três dias do segundo turno da eleição presidencial e reforça a presença da Igreja Católica no debate político às vésperas da votação. Os bispos afirmam que, diante do cenário atual, não há espaço para neutralidade. “Uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI [doutrina social da Igreja], a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”, sustenta o texto.
Segundo o documento, gostar ou não do atual governo “não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja”. Os autores recorrem a referências ao papa Leão XIII e a encíclicas da Igreja para justificar a intervenção no debate eleitoral como coerente com o Evangelho e com a defesa dos direitos humanos.
Democracia, soberania e meio ambiente em foco
Os bispos também criticam a visão de política externa atribuída a Flávio Bolsonaro. A carta acusa o candidato de defender a submissão do Brasil aos Estados Unidos, apoiar intervenção estrangeira nas eleições brasileiras e prometer entregar reservas de terras raras para exploração americana, além de participar de articulações para impor tarifas a produtos brasileiros. Para os religiosos, essa postura fere a soberania nacional e a busca pelo bem comum.
No campo social e ambiental, o texto afirma que o partido do candidato historicamente se opõe a políticas de combate à pobreza, resiste a programas sociais amplos, nega a crise climática e enfraquece a proteção ambiental. Essas agendas, avaliam os bispos, contrariam a doutrina social da Igreja, que aponta a opção preferencial pelos pobres e o cuidado com a criação como pilares da ação cristã.
Convocação ao voto no dia 25
Ao final do documento, os 36 bispos fazem um chamado direto ao eleitorado católico para que compareça às urnas neste domingo. “Conclamamos a todos os católicos para que não deixem de exercer seu direito e votem no dia 25 de outubro, em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos de nossa Igreja”, afirmam.
A carta deve provocar reações na campanha de Flávio Bolsonaro e entre seus aliados, que tendem a acusar interferência religiosa no processo político. De outro lado, movimentos sociais, lideranças religiosas e setores ligados à defesa de direitos trabalhistas, da soberania nacional e do meio ambiente já começam a usar o documento como instrumento de mobilização na reta final da disputa.
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