Mercados
S&P 5007.624▼ 0,52%Nasdaq25.955▼ 0,21%Dow Jones52.215▼ 1,23%Ibovespa205.083▲ 0,47%FTSE 10010.690▼ 0,32%DAX25.182▼ 0,75%Nikkei62.693▼ 0,34%DólarR$ 4,97– 0,00%EuroR$ 5,58▼ 1,51%BitcoinR$ 394.690▼ 1,95%Powered by WIREDESK OSS&P 5007.624▼ 0,52%Nasdaq25.955▼ 0,21%Dow Jones52.215▼ 1,23%Ibovespa205.083▲ 0,47%FTSE 10010.690▼ 0,32%DAX25.182▼ 0,75%Nikkei62.693▼ 0,34%DólarR$ 4,97– 0,00%EuroR$ 5,58▼ 1,51%BitcoinR$ 394.690▼ 1,95%Powered by WIREDESK OS
Powered by WIREDESK OS
Inteligência Artificial

Flávio Bolsonaro propõe trocar servidores por IA até 2030

Coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro propõe substituir servidores por inteligência artificial e reforma administrativa digital. Sindicatos veem ameaça a direitos e a serviços em bancos públicos.

Flávio Bolsonaro propõe trocar servidores por IA até 2030

Inteligência Artificial

Proposta prevê substituição de servidores públicos por IA e reforma digital até 2030, gerando debate sobre impactos sociais.

Leia também: IA projeta empate em jogo decisivo entre Inter e Botafogo

Daniella Marques, coordenadora do núcleo econômico da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) e ex-presidente da Caixa, defende substituir gradualmente servidores públicos por inteligência artificial, começando por áreas administrativas e operacionais de órgãos federais e bancos públicos como Banco do Brasil e Caixa. A ideia é não repor aposentadorias por concurso, o que, na prática, pode encolher o quadro e mudar o atendimento à população.

Proposta é evitar concursos e automatizar funções

Em entrevista recente a um podcast de negócios, Daniella resumiu a lógica que pretende aplicar ao serviço público: “E aí, substitui, faz outro concurso pra gente pagar? Ou dá pra ir substituindo por inteligência artificial no tempo?”. A economista fala em uma “reforma administrativa digital”, que usaria automação para reduzir estruturas, cargos e despesas.

Em eventos com empresários, ela tem citado cerca de 12 milhões de servidores públicos no país, com R$ 450 bilhões por ano em gastos com pessoal e outros R$ 150 bilhões em custos operacionais, tecnológicos e terceirizações. Os valores são apresentados como justificativa para um redesenho do Estado que priorize serviços digitais e corte de funções consideradas burocráticas.

Na prática, a proposta significaria congelar concursos, não repor aposentadorias e deslocar tarefas hoje feitas por pessoas para sistemas de IA e outras tecnologias. Setores como atendimento, processamento de dados, análise de crédito e rotinas administrativas em bancos públicos aparecem entre os primeiros alvos possíveis dessa automação.

Entenda o contexto

A agenda defendida por Daniella se articula com a reforma administrativa abraçada pela campanha de Flávio Bolsonaro. O programa do candidato fala em dar continuidade à reestruturação do serviço público, sem detalhar ponto a ponto as mudanças. O eixo central é reduzir o peso da folha, flexibilizar regras de contratação e aumentar instrumentos de avaliação e desligamento.

Textos em discussão no Congresso ajudam a desenhar esse cenário. A antiga PEC 32 previa restringir estabilidade para novos servidores e ampliar contratações temporárias. Já a PEC 38, apresentada neste ano pelo deputado Zé Trovão (PL-SC), propõe mudanças em avaliação de desempenho, progressão na carreira, remuneração variável e demissão por insuficiência de desempenho, abrindo espaço para enxugamento mais rápido de quadros.

Embora a campanha de Flávio não tenha incorporado integralmente essas propostas, elas indicam o tipo de reforma desejada por parte dos aliados políticos do candidato e formam, junto com a automação, um pacote de redução do Estado.

Sindicatos veem risco de cortes em massa e piora do atendimento

As declarações de Daniella acendem alerta entre trabalhadores de bancos públicos, que já convivem com metas agressivas e uso crescente de tecnologia em suas rotinas. O temor é que a automação seja usada prioritariamente para cortes de pessoal, e não para aliviar tarefas repetitivas e melhorar o atendimento.

Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, critica a forma como a coordenadora econômica da campanha descreve o Estado. “Ao classificar a estrutura estatal como ‘nababesca’, Daniella reforçou uma visão economicista que trata trabalhadores e serviços públicos prioritariamente como despesas a serem cortadas, sem considerar adequadamente os benefícios que proporcionam à sociedade. O debate deveria ser em torno de como os avanços tecnológicos poderiam melhorar o atendimento à população e as condições de trabalho, e não em demitir visando corte de gastos”, afirma.

Para Neiva, o discurso de excesso de servidores não se sustenta quando o Brasil é comparado a países ricos. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que a participação dos trabalhadores do governo no emprego total chega a 30,1% na Noruega, 28,2% na Suécia, 27,3% na Dinamarca e 25,2% na Finlândia. A média dos países da OCDE é de 18,4%. No Brasil, essa proporção é de cerca de 12,5%.

“Servidores são responsáveis por atividades fundamentais em hospitais, escolas, segurança, fiscalização, assistência social e atendimento à população”, lembra a dirigente. Ela alerta que a “redução indiscriminada” de quadros resulta em filas maiores, demora na concessão de benefícios, dificuldade de acesso a serviços essenciais e sobrecarga dos profissionais que continuam.

Bancos públicos no centro da disputa

A pressão é ainda maior sobre Banco do Brasil, Caixa e demais instituições financeiras públicas, já altamente digitalizadas e com agências fechando nos últimos anos. Esses bancos operam programas de habitação popular, crédito agrícola, financiamento estudantil, repasse de benefícios sociais e linhas de desenvolvimento regional.

“Além disso, BB, Caixa e demais bancos públicos cumprem funções estratégicas no financiamento habitacional, crédito agrícola, desenvolvimento regional e execução de políticas sociais. O enfraquecimento dessas instituições pode comprometer serviços essenciais para milhões de brasileiros”, alerta Neiva.

O sindicato avalia que uma política de redução de pessoal, somada ao avanço da automação, pode significar menos agências, equipes enxutas e mais atendimento exclusivamente digital. Idosos, pessoas de baixa renda e cidadãos com pouca familiaridade com aplicativos bancários seriam os mais prejudicados.

Hoje, empregados de BB e Caixa são contratados pela CLT, sem a mesma estabilidade dos servidores estatutários. Ainda assim, reestruturações internas, terceirizações e mudanças em políticas de pessoal afetam diretamente seus direitos e o nível de serviço ofertado à população.

IA, eficiência e direitos em disputa

Especialistas em serviço público e dirigentes sindicais não se opõem ao uso de tecnologia, mas cobram outro desenho de política. Neiva defende que a modernização dos bancos públicos seja usada para reduzir tarefas repetitivas, ampliar a qualidade do atendimento e valorizar os empregados, com qualificação profissional e negociação coletiva.

“Os avanços tecnológicos devem contribuir para melhores condições de trabalho e serviços públicos de qualidade, e não servir como justificativa para precarização, redução de direitos e enfraquecimento das instituições financeiras públicas visando sua privatização”, afirma.

Segundo a dirigente, a combinação entre reforma administrativa, automação orientada à redução de custos e propostas de privatização cria um cenário de incerteza para o futuro dos bancos públicos e de quem depende deles no dia a dia.

Sindicatos prometem intensificar mobilizações e pressionar o Congresso durante a tramitação de propostas como a PEC 38, buscando barrar mudanças que facilitem demissões e cortes em massa atrelados à adoção de inteligência artificial e a outros sistemas automatizados no setor público.