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Gestão

Eleições nos EUA podem travar expansão vital de data centers e IA

Disputas por governos estaduais e prefeituras nos EUA ganham peso extra: vencedores vão definir ritmo de construção de data centers, peça-chave do boom de IA e do crescimento econômico.

Eleições nos EUA podem travar expansão vital de data centers e IA

Tech Desk

Resultados eleitorais nos EUA influenciam diretamente o desenvolvimento de infraestrutura essencial para IA e economia digital.

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As eleições estaduais e locais que os Estados Unidos realizam em pouco mais de uma semana, com votação antecipada já em curso em vários estados, colocam a construção de data centers no centro da disputa e podem pesar mais sobre o futuro da economia americana do que a correlação de forças na Câmara e no Senado.

Governadores, prefeitos e conselhos locais concentram o poder sobre licenças, regras ambientais e conexão à rede elétrica — pontos que determinam se os gigantes de tecnologia conseguem erguer as estruturas que alimentam sistemas de inteligência artificial (IA) e serviços em nuvem. O setor já movimenta centenas de bilhões de dólares por ano e tem previsão de investimentos em IA acima de US$ 1 trilhão em 2027.

Disputa local pode valer mais que Congresso para economia

Para o estrategista Thierry Wizman, do Macquarie, o eixo da discussão econômica mudou de Washington para as capitais estaduais. “For the direction of the U.S. economy, the composition and direction of governance at the state level may matter more than whether the Democrats ‘win’ the House or the Senate”, afirmou em relatório recente.

A avaliação é compartilhada por analistas que veem estados como Texas, Ohio, Illinois, Wisconsin e as Carolinas como peças-chave para o futuro dos data centers. Nessas regiões, onde já há concentração de projetos ou potencial para novos polos, o resultado das urnas pode destravar ou travar autorizações, impor moratórias a novas construções e alongar prazos de conexão à rede de energia.

Enquanto no nível federal qualquer legislação ampla tende a avançar lentamente, o poder local é mais imediato: um conselho municipal contrariado, uma audiência pública lotada ou uma mudança de governo estadual podem alterar de uma vez o mapa de investimentos.

Entenda o contexto

Os data centers são galpões de alta segurança repletos de servidores que processam dados de IA generativa, serviços de streaming, redes sociais, sistemas financeiros e aplicações corporativas. Esse aparato consome grandes quantidades de energia e ocupa áreas cada vez maiores, o que concentra a pressão sobre o uso do solo, a rede elétrica e o meio ambiente em determinados municípios.

Segundo estimativas do JPMorgan, o investimento ligado à IA respondeu por cerca de 20% do crescimento do Produto Interno Bruto americano no último ano. Projeções do ING indicam que, em 2026, a tecnologia pode representar um terço da expansão econômica do país. Esse impulso depende diretamente da capacidade de construir e equipar novos data centers.

Ao mesmo tempo, a escalada de obras provoca incômodo em comunidades afetadas por ruído, impacto visual, disputas por terrenos e receio de sobrecarga da infraestrutura de energia. É esse atrito que está sendo explorado por candidatos a cargos estaduais e municipais, alguns com plataformas abertamente contrárias à expansão desses empreendimentos.

Amazon recua após pressão em Loudoun County

O choque entre interesses locais e gigantes da tecnologia ficou evidente no recuo da Amazon Web Services em Loudoun County, na Virgínia, um dos maiores clusters de data centers do país. A empresa havia comprado, em fevereiro, um terreno por US$ 427 milhões para erguer um novo complexo de servidores, movimento que gerou reação imediata de moradores e líderes locais preocupados com a saturação da região.

Diante da pressão, a Amazon fechou um acordo com autoridades do condado e decidiu cancelar o projeto de data centers na área. A companhia aceitou destinar a maior parte do terreno a empreendimentos residenciais e de uso misto, além de tentar atenuar o desgaste com contrapartidas: doou 25 acres para um centro comunitário de artes e lazer e repassou US$ 5 milhões para um fundo habitacional.

O caso se tornou exemplo para grupos que defendem limites à expansão do setor e acendeu um alerta em conselhos locais de outras cidades que hoje negociam com gigantes de tecnologia, abrindo espaço para que candidatos promessam regras mais duras em suas campanhas.

Texas vira termômetro político da IA

No Texas, um dos principais destinos de novos data centers e investimentos em IA graças à oferta de terreno e energia, o tema saiu da esfera técnica e entrou de vez na pauta eleitoral. O governador republicano Greg Abbott, que até recentemente se apresentava como entusiasta declarado desses projetos, vem adotando discurso mais cauteloso em meio à disputa apertada pela reeleição contra a deputada estadual democrata Gina Hinojosa.

A mudança de tom reflete o cálculo político: parte do eleitorado local começa a questionar subsídios bilionários, renúncias fiscais e o impacto da demanda por energia sobre contas de luz e confiabilidade da rede. Ao mesmo tempo, a campanha democrata tenta captar o voto de comunidades que se sentem excluídas dos benefícios prometidos pelas empresas.

Analistas veem o Texas, junto com estados do Meio-Oeste e das Carolinas, como laboratórios para medir se um discurso crítico a data centers rende votos — e, portanto, deve se espalhar para outras corridas eleitorais.

IA já puxa o PIB, e investimento passa de US$ 1 trilhão

Por trás da disputa regulatória está um movimento de investimento sem precedentes. Os chamados hyperscalers, gigantes da nuvem e de IA, colocam centenas de bilhões de dólares por ano em data centers e infraestrutura associada, com projeções que apontam para um volume total acima de US$ 1 trilhão em 2027.

Esse gasto é um dos principais motores do atual ciclo de crescimento americano. Estimativas do JPMorgan atribuem cerca de um quinto do crescimento do PIB à IA no último ano, e o ING calcula que a tecnologia poderá responder por 33% da expansão em 2026, caso o ritmo de investimento se mantenha.

As eleições chegam justamente quando parte do mercado financeiro teme uma desaceleração do boom da IA, refletida em volatilidade recente nas bolsas. Uma onda de vitórias de candidatos hostis a novos data centers poderia alimentar essa percepção e pressionar ações do setor.

Impacto de eventuais travas será gradual

Apesar da tensão, economistas lembram que mudanças na regulação não se traduzem em freio imediato na economia. Michael Pearce, economista-chefe para os EUA na Oxford Economics, ressalta que o valor gerado por um data center depende mais do equipamento instalado do que da obra em si — e esse investimento costuma ocorrer com um atraso de seis a oito trimestres em relação à construção.

Na avaliação de Pearce, mesmo uma eventual moratória a novos projetos demoraria a aparecer nas estatísticas. “This year’s surge will keep supporting business investment over the next couple of years, whatever happens on the ground”, escreveu. Ele destaca ainda que o ritmo de obras disparou no meio do ano, em parte pela tentativa de antecipar possíveis restrições políticas.

Desenvolvedores também vêm ajustando a estratégia para reduzir resistência local, prometendo cortes de impostos para moradores, contribuição para escolas e obras viárias em troca de licenças. Em muitos condados, a disputa se dá, na prática, entre aceitar o impacto da infraestrutura ou abrir mão de uma nova base de arrecadação.

Eleições podem moldar campanha presidencial de 2028

Se os resultados das urnas sinalizarem que uma postura dura contra data centers rende votos, especialistas veem espaço para uma guinada mais ampla no debate nacional. “If this year’s elections show that an anti-data center stance wins political contests, it could put data center regulation at the heart of the 2028 campaign”, projeta Michael Pearce.

O cenário é acompanhado de perto por Wall Street. Thierry Wizman avalia que uma “onda azul” em governos estaduais e câmaras municipais, trazendo gestores mais críticos a grandes empreendimentos de tecnologia, poderia aprofundar uma correção nas ações ligadas à IA, ao reforçar o risco regulatório para o setor.

Por outro lado, uma desaceleração mais suave na construção pode até alongar o ciclo de investimentos, em vez de encerrá-lo de forma abrupta. O gestor Daniel Skelly, da Morgan Stanley Wealth Management, vê fundamentos ainda sólidos para a IA e aponta fatores que tendem a espalhar os gastos por mais tempo: “Also, ongoing power deficits, a shortage of people to build data centers, and political pushback against them may elongate the cycle and lower the odds of a blow-off top”, afirmou.

Nesse desenho, o equilíbrio político em assembleias estaduais, prefeituras e conselhos de planejamento urbano deixa de ser detalhe de campanha local para se tornar, na prática, um dos principais riscos — ou oportunidades — para o crescimento da maior economia do mundo nos próximos anos.