Trump voa 70h em 20 dias e revela quem domina sua campanha
Em cerca de 70 horas a bordo do Air Force One e 15 comícios em 20 dias, Trump cruza os EUA cercado por ministros, assessores e celebridades que moldam seus discursos e prioridades.

Campanha Eleitoral
Trump percorre os EUA em comícios intensos, mostrando a equipe que influencia sua estratégia política.
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Donald Trump já soma cerca de 70 horas de voo no Air Force One neste mês, numa maratona de 15 comícios em 20 dias pelos Estados Unidos para tentar garantir ao Partido Republicano o controle do Congresso nas eleições de meio de mandato em 3 de novembro. Dentro do avião presidencial, a lista de passageiros revela quem tem acesso direto ao presidente — e influencia seus discursos, suas prioridades e suas decisões políticas.
Quem manda no ouvido de Trump dentro do Air Force One
No centro desse núcleo está a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, presença quase constante nos deslocamentos. Recuperada recentemente de um tratamento contra câncer de mama e co-gerente da campanha de Trump em 2024, ela é tratada pelo presidente como “a mulher mais poderosa do mundo”. Ao deixar Greenville, na Carolina do Norte, depois do 15º comício em 20 dias, Wiles avaliou a sequência de eventos com otimismo. “Ótimo. Todos foram ótimos, honestamente”, disse a jornalistas, caminhando pelo corredor do avião.
Ao lado de Wiles viajam figuras que traduzem as prioridades do governo em ano eleitoral. O secretário do Comércio, Howard Lutnick, bilionário e amigo de longa data de Trump, é o ministro mais frequente a bordo. Nos palanques, ele reforça a narrativa de recuperação econômica, anunciando investimentos em fábricas e novos projetos industriais nas cidades visitadas.
Também estão na rota o secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano, Scott Turner; o secretário do Tesouro, Scott Bessent; e a secretária da Agricultura, Brooke Rollins, além do enviado especial Steve Witkoff, encarregado de tentar destravar uma saída para a guerra no Irã, vista pela campanha como um peso político para os republicanos.
No campo da comunicação e da estratégia, o subchefe de gabinete Stephen Miller, arquiteto das políticas mais duras de imigração de Trump, ajuda a calibrar o tom dos discursos. Ross Worthington, diretor de redação, acompanha o presidente em vários trechos para ajustar, em tempo real, a fala de campanha — que hoje inclui, por exemplo, a promessa de cheques de US$ 5.000 para os eleitores se os republicanos mantiverem as maiorias na Câmara e no Senado.
Entenda o contexto
A maratona aérea acontece na reta final da disputa que vai renovar toda a Câmara e parte do Senado. Trump decidiu apostar sua popularidade em comícios sucessivos, voando da Costa Leste à Costa Oeste e de volta, para aquecer bases locais, testar mensagens e dar visibilidade a candidatos alinhados ao seu projeto político.
O ritmo intenso de viagens transforma o Air Force One num gabinete voador: é ali que se escrevem e reescrevem discursos, se definem ataques à oposição, se respondem crises de última hora e se costuram alianças. A composição da entourage, portanto, virou um termômetro de quem realmente influencia o presidente longe dos holofotes de Washington.
Influência formal e poder paralelo na campanha
Além dos ministros, chama atenção a presença constante de nomes com peso informal dentro do governo. Bill Pulte, diretor da Federal Housing Finance Agency e amigo pessoal de Trump, já acompanhou ao menos cinco trechos da “maratona de meio de mandato”, sinal de que sua influência está muito acima do que o cargo sugere. Ele ganhou projeção ao liderar campanhas de pressão sobre dirigentes do Federal Reserve e a defender ideias controversas, como a extensão do prazo padrão de financiamento imobiliário de 30 para 50 anos, proposta que acabou abandonada, mas deixou marcas no debate interno.
Na área de regulação de mídia, o presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC), Brendan Carr, embarcou com Trump em longas viagens pela Costa Oeste. Carr tem usado sua posição para confrontar emissoras e criticar a cobertura jornalística sobre o presidente, uma cruzada que aparece cada vez mais nos discursos de campanha.
Entre os auxiliares mais próximos estão a assistente executiva Natalie Harp, presença quase obrigatória em todos os deslocamentos; Walt Nauta, diretor das Operações do Gabinete Oval; e sua adjunta, Chamberlain Harris, que também integra a Comissão de Belas Artes e participa de decisões sobre reformas e projetos de construção ligados à Casa Branca.
Na articulação política, o diretor Matt Brasseaux, com experiência no Comitê Nacional Republicano, coordena estratégias para distritos competitivos. Velhos conhecidos de Trump, como Johnny DeStefano, ex-assessor sênior, e James Blair, ex-subchefe de gabinete, voltaram a orbitar o presidente no avião, reforçando um círculo de confiança que mistura cargos atuais e laços pessoais acumulados ao longo dos anos.
Time de comunicação e rostos conhecidos
A bordo, a comunicação é tratada como operação de guerra. A conselheira Margo Martin registra bastidores e publica vídeos do presidente nas redes sociais. O diretor de comunicação da Casa Branca, Steven Cheung, comanda a mensagem oficial, alinhando falas, entrevistas e imagens que serão distribuídas ao longo do dia.
Katie Zacharia, que ocupou o posto de secretária de imprensa da Casa Branca por apenas cinco dias, passou dois deles em uma viagem intensa ao lado de Trump, em rota por Alasca, Nevada, Arizona e Montana — um retrato de como a máquina de campanha não dá trégua nem mesmo a novatos no cargo.
Em paralelo ao núcleo político, Trump leva consigo um elenco de celebridades de apelo popular. Lendas do boxe como Mike Tyson, Floyd Mayweather Jr. e Evander Holyfield foram convidados para diferentes trechos da ofensiva pelos estados, em viagens separadas. A presença de campeões serve tanto para aquecer o público nos comícios quanto para reforçar a imagem de força e resiliência que o presidente tenta associar à sua marca.
O avião também já recebeu outras estrelas do esporte e da cultura pop, em participações pontuais nos eventos, numa estratégia assumida pela Casa Branca: encerrar a blitz eleitoral com um rosto famoso ao lado de Trump em cada parada.
O que a entourage revela sobre o governo Trump
Para especialistas, o mapa de quem entra e sai do Air Force One ajuda a entender onde está o poder real no governo. “Pode dizer quais são suas prioridades. Quem ele cerca de si são as pessoas que ele vai ouvir. Eles são os que vão estar sussurrando em seu ouvido e falando suavemente nos aposentos privados do presidente dos Estados Unidos”, afirma David Cohen, professor de ciência política.
Na prática, isso significa que áreas como comunicação política, habitação, comércio, agricultura e regulação de mídia ganham peso especial neste momento, já que seus representantes viajam com o presidente e participam da elaboração de discursos e propostas. Ao mesmo tempo, a presença de figuras com influência informal, como Bill Pulte e antigos assessores sem função oficial na Casa Branca, aponta para um poder paralelo que escapa às estruturas tradicionais do gabinete.
A concentração de conselheiros leais e alinhados ideologicamente tende a reduzir espaço para divergências internas e vozes mais críticas, reforçando uma bolha de confiança em torno de Trump justamente no período em que decisões estratégicas para o país e para o futuro do Partido Republicano estão sendo tomadas.
Com pouco mais de uma semana até a votação, a expectativa é que a maratona aérea continue, com novos trechos, novos comícios e o mesmo círculo íntimo ocupando as poltronas mais próximas ao presidente no Air Force One — e, por consequência, ao centro das escolhas que vão balizar o rumo do governo após as eleições.


