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Explosão de data centers pressiona futuro da energia no Brasil

Consumo dos grandes data centers deve multiplicar por dez em dez anos, exigir reforço de rede e acelerar expansão de solar e eólica, apontam EPE e ONS.

Explosão de data centers pressiona futuro da energia no Brasil

Energia

Crescimento acelerado dos data centers demanda atualização da infraestrutura energética e impulsiona fontes renováveis no país.

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O avanço acelerado dos data centers no Brasil deve multiplicar por dez o consumo de energia dessas estruturas em dez anos, obrigando o setor elétrico a rever o planejamento de geração e transmissão e a adotar novas soluções de flexibilidade para garantir estabilidade do sistema.

Data centers podem responder por 3% do consumo de energia

Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projetam que o consumo dos grandes data centers salte de aproximadamente 3 TWh em 2026 para 30 TWh em 2036. Na prática, isso significa acrescentar cerca de 3% ao consumo nacional de eletricidade e elevar a demanda em torno de 10% no período, um impacto relevante para o sistema.

O tema mobiliza investidores e especialistas do Brasil, Portugal e Espanha em encontros realizados nesta semana e entrou na agenda política: em discurso após a vitória eleitoral de domingo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu criar condições para que o país se torne um grande destino de investimentos em data centers, associando o setor à segurança nacional e ao crescimento econômico.

O Brasil parte de uma posição considerada privilegiada. O Plano de Desenvolvimento Estratégico (PDE 2036), elaborado pela EPE, projeta que 88,8% da geração elétrica do país será renovável em 2036, com cerca de 65 GW adicionais de capacidade em usinas solares e eólicas, incluindo geração distribuída em telhados e pequenos empreendimentos.

Planejamento terá de olhar lugar, horário e confiabilidade

Para o presidente da EPE, Thiago Prado, o desafio não é apenas produzir mais energia, mas casar o crescimento dos data centers com a infraestrutura existente e futura. Ele alerta que a discussão não pode se limitar ao volume total de consumo previsto.

Segundo Prado, localização, potência demandada, cronograma de implantação, perfil horário de uso e exigências de confiabilidade são tão importantes quanto o número de TWh consumidos. Um data center de grande porte conectado em um ponto da rede com capacidade disponível causa um impacto completamente diferente de outro que exija reforços significativos em linhas e subestações.

“Por isso, será necessário coordenar o crescimento dessas cargas com geração, transmissão e novas soluções de flexibilidade, como, por exemplo, resposta à demanda, autoprodução e armazenamento de forma isolada ou combinada”, afirma o executivo.

Ele destaca ainda que a própria forma de planejar e operar o sistema elétrico está mudando. Se antes os estudos de confiabilidade consideravam principalmente a perda da maior usina ou da maior máquina em operação, agora será preciso avaliar também o desligamento repentino de grandes cargas, como um complexo de data centers, e seus efeitos sobre o equilíbrio da rede.

“O desafio não é apenas produzir energia suficiente para os data centers; é garantir energia, potência, rede e confiabilidade no lugar e no momento em que essas novas cargas surgirem e passarem a operar continuamente na rede”, resume Prado.

Entenda o contexto

A expansão dos data centers acontece em meio a um movimento global de eletrificação crescente, que a Agência Internacional de Energia chama de “Era da Eletricidade”: o consumo de eletricidade avança mais rápido que o consumo total de energia, impulsionado por digitalização, computação em nuvem, inteligência artificial, veículos elétricos e substituição de combustíveis fósseis.

No Brasil, esse movimento já aparece de forma concreta na fila de novos empreendimentos interessados em se conectar à rede de transmissão. Os data centers se somam a outros grandes consumidores eletrointensivos, como projetos industriais e de mineração, concentrando cargas de centenas de megawatts em poucos pontos do sistema.

A combinação de apetite por investimentos, matriz majoritariamente renovável e avanço tecnológico cria um cenário de oportunidade. Ao mesmo tempo, pressiona operadores e planejadores a antecipar gargalos de rede, definir regras claras de acesso e incentivar soluções como armazenamento de energia em baterias, geração própria pelos próprios data centers e programas que remunerem a flexibilidade de consumo.

ONS fala em ‘Era da Eletricidade’ e pede conexão planejada

Na avaliação de Sumara Ticom, assessora executiva da Diretoria de Planejamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a chegada dos grandes data centers é uma das faces dessa “Era da Eletricidade” e reforça a necessidade de planejamento mais fino da operação em tempo real.

Do ponto de vista do operador, o principal risco está no descompasso entre a velocidade de construção dos data centers e o ritmo mais lento de obras de transmissão. Um centro de dados pode ficar pronto em dois ou três anos; já linhas de alta tensão e reforços de rede costumam exigir prazos bem maiores de licenciamento, construção e entrada em operação.

Sem coordenação, o consumo pode crescer mais rápido que a infraestrutura capaz de atendê-lo, gerando gargalos de conexão em regiões onde a rede já está próxima do limite. A concentração de empreendimentos em poucos pontos aumenta esse risco e exige estudos detalhados de fluxo de energia e de estabilidade.

Para enfrentar esse cenário, o ONS defende quatro frentes de ação: expansão da rede em regiões com maior interesse de instalação de data centers; planejamento conjunto da conexão, aproximando cronogramas de carga e rede; definição de requisitos técnicos para garantir que essas cargas se comportem bem diante de distúrbios; e desenvolvimento de modalidades de conexão flexível, que permitam antecipar o acesso sem repassar riscos aos demais consumidores.

Brasil mira referência global em data centers sustentáveis

A combinação entre forte entrada de data centers, matriz elétrica predominantemente limpa e novos instrumentos de planejamento, como o PDE 2036, coloca o Brasil na rota para se tornar referência global em infraestrutura digital de baixo carbono.

Ao mesmo tempo, o crescimento dessas cargas tende a acelerar a instalação de usinas solares e eólicas e a fomentar inovação em armazenamento, resposta da demanda e autoprodução, temas que já aparecem como prioridade tanto para a EPE quanto para o ONS.

Nos bastidores, investidores acompanham de perto os próximos passos regulatórios e os leilões de transmissão que devem incorporar reforços voltados a regiões com maior potencial para data centers. A cooperação com especialistas de Portugal e Espanha, presentes nos debates desta semana, deve contribuir com experiências de integração de grandes centros de processamento de dados em sistemas elétricos também fortemente renováveis.

Nos próximos anos, o desempenho do Brasil em conciliar expansão digital, segurança energética e sustentabilidade será decisivo para atrair novos projetos e consolidar o país como polo de serviços de dados na América Latina.