Ibovespa cai 0,51% após tombo de 14% e dólar fecha a R$5,35 hoje
Ibovespa volta a cair após sessão com circuit breaker e perda de R$ 734 bilhões. Dólar recua a R$ 5,35, juros futuros cedem e mercado segue em ajuste após reeleição de Lula.

Mercado Financeiro
Ibovespa sofre nova queda após forte volatilidade e dólar registra leve recuo, refletindo ajuste pós-eleição presidencial.
Leia também: Anthropic pede IPO bilionário nos EUA em meio a pressão legal
O Ibovespa fechou em queda de 0,51% nesta terça-feira (27), aos 175.710,05 pontos, um dia depois do tombo de quase 14% que acionou o circuit breaker da B3 pela primeira vez desde março de 2020 e apagou R$ 734 bilhões em valor de mercado, o equivalente a 75,5% da valorização acumulada neste ano até a sexta-feira anterior.
Como o Ibovespa fechou após a forte queda no dia da eleição?
Após a derrocada histórica da véspera, associada à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ajuste brusco de prêmios de risco, o Ibovespa ensaiou recuperação pela manhã, mas perdeu força ao longo do dia e terminou em nova baixa, refletindo um mercado ainda cauteloso com o cenário fiscal e político.
O dólar comercial caminhou na direção oposta da véspera e recuou 0,97%, fechando a R$ 5,35, enquanto os juros futuros (DIs) também caíram ao longo de toda a curva, revertendo parte do estresse de ontem. Mesmo assim, a percepção entre analistas é de que o movimento atual é mais de realocação de carteiras do que de retomada consistente do apetite por risco.
“Com a definição eleitoral, houve um reposicionamento dos investidores e realização de parte dos ganhos acumulados ao longo do mês, aumentando a pressão vendedora sobre a bolsa”, afirma Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank. Segundo ele, esse processo tende a continuar no curto prazo, embora com menor intensidade.
Por que o Ibovespa recuou quase 14% com a reeleição de Lula?
A queda de quase 14% na segunda-feira foi, na prática, uma reprecificação rápida do risco Brasil após a confirmação da reeleição de Lula, com investidores revisando expectativas para a política fiscal e monetária a partir de 2027 e antecipando possíveis mudanças no rumo da economia.
No centro das preocupações estão a manutenção do arcabouço fiscal, eventuais medidas de controle de gastos e o desenho da nova equipe econômica. O mercado teme flexibilizações nas regras fiscais e a dificuldade do governo em construir maioria estável no Congresso para aprovar ajustes de contas.
Além disso, o avanço do PL na correlação de forças no Legislativo e a necessidade de Lula reforçar sua base parlamentar adicionam incerteza ao cenário de reformas. Em paralelo, a perspectiva de juros elevados por mais tempo, caso o risco fiscal aumente, pesa sobre ações ligadas ao consumo, crédito e investimentos de longo prazo.
Bolsa de valores hoje: quem mais caiu e quem segurou as perdas
A sessão desta terça-feira foi novamente dominada por papéis de grande peso no índice. As ações da Vale recuaram 2,14%, negociadas a R$ 63,00, acompanhando a queda do minério de ferro no exterior, que testou mínimas em dois anos em meio a dúvidas sobre a demanda da China e cortes de recomendações para o papel.
Na Petrobras, a combinação de petróleo mais barato e ambiente doméstico incerto manteve pressão vendedora. As ações ordinárias caíram 1,91% e as preferenciais, 2,02%, em linha com o recuo dos contratos futuros de petróleo: o WTI para dezembro cedeu 1,83%, a US$ 99,90 o barril, e o Brent para janeiro caiu 1,20%, a US$ 109,41.
Entre as siderúrgicas, Gerdau teve queda de 2,75%, apesar de resultado considerado positivo por analistas. No setor de papel e celulose, Suzano destoou do pessimismo e avançou 0,27%, depois de forte alta na véspera, ajudando a limitar um pouco as perdas do índice.
Os grandes bancos também ficaram no vermelho, pressionados por relatórios que destacam incertezas fiscais e os efeitos de juros altos sobre crédito corporativo, inadimplência e rentabilidade. Banco do Brasil caiu 0,52%, Bradesco recuou 1,38%, Itaú Unibanco perdeu 1,22% e Santander encerrou o pregão com baixa de 1,63%.
Como a reeleição de Lula impactou o dólar e o Ibovespa hoje?
Com o choque inicial já precificado na segunda-feira, o movimento desta terça foi de correção parcial. O Ibovespa manteve o sinal negativo, mas com intensidade muito menor, enquanto o dólar recuou a R$ 5,35 em um ajuste técnico após a disparada da véspera.
Analistas destacam que parte dos investidores aproveitou os preços deprimidos para recomprar ativos, ao mesmo tempo em que posições defensivas montadas no auge do pânico foram parcialmente desfeitas. A queda dos juros futuros reforçou a percepção de que a alta recente pode ter sido exagerada diante da ausência, por enquanto, de medidas concretas alterando o arcabouço fiscal.
Para Ian Cao, CIO da Gama Investimentos, a turbulência não deve ser pretexto para decisões precipitadas. “Quem decide ir para o exterior nesta semana, movido pelo susto, está fazendo um trade, e não um investimento. Em algum momento, a conta chega”, afirma, ao defender que a diversificação internacional seja feita de forma gradual, e não como reação a um dia de pânico.
Entenda o contexto
A reeleição de Lula reacendeu dúvidas sobre o compromisso do governo com o controle de gastos, em um momento em que a dívida pública já é elevada e a inflação segue pressionada. No front político, o presidente se movimenta para ampliar a base de apoio no Congresso e conter o avanço do PL, articulando nomes como Hugo Motta e Davi Alcolumbre para postos-chave.
No Ministério da Fazenda, seguem especulações sobre mudanças à frente da equipe econômica. Entre os nomes ventilados está o de Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, que afirmou não ter intenção de deixar o cargo. A leitura do mercado é de que a definição de quem comandará a política fiscal será determinante para o comportamento de juros, câmbio e bolsa nos próximos meses.
Enquanto isso, o Banco Central divulgou o Relatório de Estabilidade Financeira do primeiro semestre, apontando Índice de Basileia de 16,99% em junho para o Sistema Financeiro Nacional, bem acima do mínimo regulatório de 8%. O documento reforça que os bancos seguem capitalizados, o que ajuda a conter o risco de efeitos sistêmicos mesmo em cenários de maior volatilidade.
Na economia real, os custos da construção voltaram a acelerar. O Índice Nacional de Custo da Construção – Mercado (INCC-M), da Fundação Getulio Vargas, subiu 0,35% em outubro, depois de alta de 0,25% em setembro, acumulando avanço de 6,75% em 12 meses. Materiais e equipamentos puxaram a alta, enquanto mão de obra perdeu fôlego.
No exterior, os principais índices de ações nos Estados Unidos fecharam em alta, impulsionados por papéis de tecnologia e de empresas ligadas à inteligência artificial, além da queda do petróleo. As bolsas internacionais, porém, tiveram pouco peso na formação de preços locais, com o mercado brasileiro concentrado nas incertezas domésticas e nas próximas sinalizações do governo para o rumo da política fiscal e das reformas.


