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Escritório ligado a Musk cria entidade para difundir regras eleitorais duras nos EUA

Associação nacional sem fins lucrativos, montada por escritório ligado a Elon Musk, mira levar modelo rígido da Flórida para eleições locais e estaduais, alinhada a narrativas de fraude de Trump.

Escritório ligado a Musk cria entidade para difundir regras eleitorais duras nos EUA

Eleições

Nova entidade busca implementar regras eleitorais rigorosas inspiradas na Flórida em diversos estados americanos.

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Um escritório de advocacia ligado a Elon Musk estruturou uma nova associação nacional sem fins lucrativos para influenciar regras de voto em níveis estaduais e locais nos Estados Unidos, usando a Flórida como modelo e adotando o discurso de “integridade eleitoral” alinhado às falsas alegações de fraude de Donald Trump.

Associação nasce no Texas, mira estados-chave e copia modelo da Flórida

A Association of State and Local Election Officials foi registrada em 17 de junho, no Texas, pelo advogado Michael Garcar, então integrante do escritório Lex Politica, fundado por Chris Gober. Em 20 de julho, a entidade recebeu o status de isenção fiscal das autoridades federais de receita. Embora registrada no Texas, a associação usa como endereço oficial uma caixa postal em uma loja da UPS na Pennsylvania Avenue, em Washington, ligada ao próprio Lex Politica.

O conselho diretor reúne o secretário de estado da Flórida, Cord Byrd, atuais e ex-autoridades eleitorais da Geórgia, a deputada estadual Ann Bollin, de Michigan, e a presidente da Election Integrity Network, grupo associado à órbita política de Trump e conhecido por contestar resultados eleitorais. A meta declarada é levar para todo o país políticas que seus integrantes chamam de “integridade eleitoral”, copiando as regras rígidas da Flórida, estado governado pelo republicano Ron DeSantis.

Na prática, a associação pretende influenciar órgãos eleitorais municipais e estaduais em estados decisivos como Flórida, Geórgia e Michigan, em um momento em que os Estados Unidos se aproximam das eleições legislativas de meio de mandato.

Ligação com Musk e ambição política de Gober

O Lex Politica, responsável por criar e representar legalmente a associação, ganhou projeção ao atuar para o America PAC, estrutura político-financeira associada a Elon Musk. O escritório foi fundado por Chris Gober, que hoje é candidato a uma cadeira na Câmara dos Representantes do Texas.

Não há confirmação de participação direta de Musk na Association of State and Local Election Officials, mas a conexão se dá pelo papel central de Gober e do Lex Politica tanto no America PAC quanto na nova entidade. Garcar, responsável formal pelo registro, deixou depois o Lex Politica para integrar outro escritório montado por ex-sócios da banca.

Musk se consolidou como o maior financiador individual de candidatos republicanos neste ciclo eleitoral, com mais de US$ 445 milhões em doações em 2026. Desde julho, foram US$ 276 milhões destinados a impulsionar campanhas do partido, em especial em disputas para o Senado consideradas estratégicas para manter ou ampliar a maioria republicana e evitar investigações parlamentares sobre o bilionário e suas empresas.

Objetivo: treinar oficiais eleitorais sob bandeira da “integridade”

A Association of State and Local Election Officials foi concebida para atuar por meio de capítulos estaduais, com foco em “apoiar, educar e treinar” funcionários responsáveis pela administração de eleições em condados e estados. A ideia, segundo seus articuladores, é oferecer uma espécie de rede paralela de formação, vista por críticos como alternativa ideológica às estruturas tradicionais de treinamento.

Em coletiva em setembro, na Flórida, Cord Byrd e o governador Ron DeSantis anunciaram publicamente a parceria com a nova entidade e explicitaram a intenção de usar a legislação eleitoral do estado como “blueprint” — um modelo a ser copiado em outras partes do país. Sob a gestão de ambos, a Flórida aprovou regras duras, como exigência mais rígida de prova de cidadania nas urnas e restrições ao uso de carteiras estudantis como documento para votar.

Byrd defende que a associação ocupe espaços hoje dominados, segundo ele, por grupos com outra visão sobre acesso ao voto. “A Association of State and Local Election Officials terá capítulos estaduais para apoiar, educar e treinar oficiais eleitorais locais e estaduais sobre integridade eleitoral, porque isso é algo que o outro lado tem feito muito bem”, afirmou o secretário de estado da Flórida.

Ele também critica entidades que hoje treinam gestores de eleição. “Eles são os que estão certificando e treinando pessoas que administram nossas eleições, e não o fazem de maneira que acreditamos estar de acordo com a lei e a confiança do eleitor”, disse Byrd, ao justificar a criação da nova estrutura.

Entenda o contexto

A associação surge em um ambiente político marcado pela tentativa de institucionalizar, em leis e regulamentos, narrativas de fraude eleitoral impulsionadas por Trump desde a derrota na eleição presidencial anterior. Essas alegações foram rejeitadas por cortes e autoridades eleitorais, mas ganharam força na base republicana e alimentam iniciativas pelo país para restringir regras de voto sob o rótulo de “integridade”.

Nos últimos anos, figuras próximas a Trump e grupos como a Election Integrity Network passaram a perseguir mudanças como exigência ampliada de documentos, redução de voto antecipado e por correio, e limitação de locais e horários de votação — medidas que, segundo especialistas em direitos civis, afetam de forma desproporcional eleitores negros, latinos, jovens e de baixa renda, historicamente mais inclinados a apoiar candidatos democratas.

Musk tem se aproximado desse discurso. Além de financiar candidatos e operações de mobilização de voto, multiplicou publicações em redes sociais com teorias conspiratórias sobre eleições, imigração e demografia, ecoando teses como a do “grande substituto”, considerada racista por especialistas. O America PAC associado ao bilionário também difundiu informações equivocadas sobre votos pelo correio.

Quem ganha e quem perde com a nova entidade

Ao reunir autoridades eleitorais em exercício e ex-integrantes de juntas eleitorais estaduais em um conselho nacional alinhado à negação de resultados, a Association of State and Local Election Officials tende a reforçar a pressão política sobre burocracias locais responsáveis por organizar eleições. A influência pode ir de orientações técnicas para o dia da votação a recomendações sobre contestações de resultados e pedidos de investigação.

Republicanos próximos a Trump e a Musk veem na iniciativa uma oportunidade de consolidar, no terreno das regras e procedimentos, vantagens que hoje vêm sendo buscadas no campo legislativo. Para eles, tratar a “integridade” como prioridade ajudaria a mobilizar a base, contestar decisões de autoridades consideradas “brandas” e elevar a desconfiança sobre sistemas de votação em áreas urbanas e democratas.

Já organizações de direitos civis, defensores do acesso amplo ao voto e especialistas em desinformação alertam que a associação pode funcionar como uma engrenagem nacional para legitimar teorias de fraude, orientar pedidos de recontagem e investigações sem base factual e, em última instância, tornar mais difícil votar em condados e estados já marcados por histórico de exclusão eleitoral.

A médio prazo, a expansão de capítulos estaduais e programas próprios de treinamento de oficiais eleitorais pode acirrar a disputa pelo controle das regras de votação nos EUA, com impacto direto sobre a confiança pública no processo democrático e sobre a forma como eleições apertadas serão administradas e contestadas.