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Lançamentos de IA

Kentucky isenta humanista do uso obrigatório de IA no trabalho

Administrador humanista da Universidade de Kentucky consegue isenção religiosa para não usar inteligência artificial no trabalho, num caso inédito que amplia a proteção a não teístas.

Kentucky isenta humanista do uso obrigatório de IA no trabalho

Tecnologia

Decisão inédita protege direitos religiosos de profissionais contra o uso compulsório de inteligência artificial no ambiente laboral.

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A Universidade de Kentucky concedeu nesta semana uma isenção religiosa para que o administrador David Durman, humanista não teísta, não seja obrigado a usar ferramentas de inteligência artificial (IA) em suas atividades, decisão que reconhece formalmente suas convicções éticas sobre o impacto da tecnologia.

Humanista critica impacto da IA na moralidade e na criatividade

Durman atua em uma função administrativa de apoio a pesquisadores que buscam recursos e, hoje, não é obrigado a usar IA no trabalho. Mesmo assim, decidiu garantir por escrito o direito de se manter afastado dessas ferramentas diante da tendência de adoção crescente na universidade.

Ele baseou o pedido em seu humanismo secular, que define como “uma coleção de crenças sobre a experiência humana e como os humanos interagem com o mundo”, centrada no bem-estar e no florescimento humano individual e coletivo. Para Durman, depender de IA contradiz esse conjunto de valores.

“The way we become moral actors for ourselves and for others is through the active application of our minds, and the diminishing of that [through AI use] is going to necessarily have a negative impact on our ability to do so”, afirmou. Segundo ele, a sobrecarga de tarefas na máquina reduz a prática do pensamento crítico e da responsabilidade moral.

Em declaração recente, Durman também apontou efeitos econômicos, ambientais e culturais da tecnologia: “AI is interfering with people’s ability to earn a living, the environmental costs spell disaster for humanity and our planet, and its supplanting and theft of human creativity threaten elements of our culture like art and literature that make society flourish”.

Durman é o primeiro humanista a obter uma acomodação religiosa específica para se abster do uso de IA no ambiente profissional, em um momento em que essas ferramentas começam a ser recomendadas em larga escala em escritórios, setores administrativos e na própria academia.

Entenda o contexto

Preocupado com a possibilidade de que recomendações internas evoluíssem para uma exigência formal de uso de IA, Durman buscou apoio jurídico da American Humanist Association (AHA), organização que promove o humanismo secular. A entidade o orientou a pleitear proteção com base em sua liberdade de consciência, como já ocorre com trabalhadores ligados a religiões tradicionais.

A advogada da AHA Alexandria Huiskens afirma que o caso mostra que a proteção legal não se limita a pessoas religiosas no sentido clássico. “Concern about AI and human dignity can run through several different faiths and traditions, whether that’s Catholic teachings, or Universalism, or Humanism, and we want Humanists or nontheists to know that they fall into these categories — that they are also protected by the law at work”, disse.

Durman se inspira em outra profissional que trilhou caminho parecido: a engenheira de software Erin Maus, ligada à tradição Unitarian Universalist, que também conseguiu isenção para não usar IA no trabalho, algo raro em uma área em que essas ferramentas se tornam padrão.

Como a universidade avaliou o pedido

A Universidade de Kentucky afirma que pedidos de acomodação religiosa são analisados caso a caso, levando em conta as atividades do cargo e como a mudança impacta o funcionamento do setor. O porta-voz Jay Blanton explicou, em nota, que “in this case, the university determined that an accommodation could be provided while allowing the employee to continue performing the essential functions of their position”.

Na prática, a instituição entendeu que Durman pode seguir apoiando pesquisadores em inscrições de editais e formulação de propostas sem recorrer a sistemas de IA, o que reduz o risco de conflito entre convicções pessoais e diretrizes internas de produtividade.

Blanton acrescentou que, à medida que tecnologias e responsabilidades mudarem, as acomodações poderão ser reavaliadas para verificar se permanecem “razoáveis e viáveis”, sinalizando que a decisão não cria um salvo-conduto automático para qualquer cenário futuro.

Liberdade de consciência na era da IA

Especialistas em direitos trabalhistas e liberdade religiosa veem no caso um precedente simbólico: ao reconhecer um humanista não teísta como titular de uma “isenção religiosa”, a universidade amplia o leque de crenças e sistemas éticos que podem embasar pedidos de exceção frente à obrigatoriedade de tecnologias.

Na prática, a decisão abre espaço para que outras pessoas, religiosas ou não, busquem acomodações semelhantes quando entenderem que o uso intensivo de IA fere convicções morais, filosóficas ou espirituais — especialmente em ambientes onde a tecnologia começa a ser tratada como condição para manter a produtividade.

Setores como tecnologia da informação, educação superior e administração pública, que avançam rapidamente na adoção de IA em fluxos de trabalho, podem sentir o impacto de uma onda de pedidos parecidos, o que tende a pressionar instituições e empresas a criar políticas claras para conciliar eficiência e respeito à diversidade de crenças.

Durman diz que não pretende fazer campanha contra a IA, mas encorajar quem compartilha de preocupações éticas a buscar soluções formais. “For me, this was about me and my convictions. I’m obviously not trying to tell people how to think or feel … But I do hope that it encourages people who have similar concerns to pursue not necessarily religious exemption, but pursue their concerns to the best of their ability where they feel is the most appropriate”, afirmou.

A American Humanist Association, por sua vez, reforça que o humanismo não é necessariamente antirreligioso, mas oferece um arcabouço moral e científico para pessoas céticas em relação a divindades que, ainda assim, querem ver suas convicções reconhecidas nas mesmas bases legais garantidas a crenças teístas. O caso de Kentucky coloca esse debate no centro das discussões sobre ética, trabalho e tecnologia.