Google perde US$ 500 bi após IA cortar receita de anúncios
Resumos de IA no buscador reduzem anúncios, derrubam em 12,64% as ações da Alphabet e apagam mais de US$ 500 bilhões em valor de mercado. Amazon e Microsoft também sentem o peso da corrida pela IA.

Inteligência Artificial
Resumos gerados por IA no Google impactam receita publicitária e derrubam valor de mercado da Alphabet em bilhões.
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A Alphabet, controladora do Google, derruba nesta semana mais de US$ 500 bilhões (R$ 2,7 trilhões) em valor de mercado depois de admitir que os resumos de inteligência artificial no buscador estão reduzindo a receita de publicidade — motor histórico do grupo. As ações desabam 12,64%, na maior queda diária desde a abertura de capital, e arrastam o humor de todo o setor de tecnologia nas bolsas dos Estados Unidos e do Brasil.
Por que as ações da Alphabet, dona da Google, tiveram a maior queda da história?
As ações da Alphabet desabam porque o próprio “modo IA” do Google está canibalizando a venda de anúncios, assustando investidores que viam a publicidade em busca como uma máquina quase infalível de geração de caixa.
Ao divulgar o balanço trimestral, a empresa mostrou que a receita total ainda cresce forte — alta de 25% no período, para US$ 127,6 bilhões — mas a área de publicidade ficou abaixo das expectativas. O principal motivo, segundo o diretor comercial Philipp Schindler, é a adoção da busca em “modo IA”, que passa a responder perguntas de forma direta e conversacional, com menos espaço para anúncios ao lado dos links tradicionais.
Schindler reconheceu que o “modo IA” está reduzindo a receita obtida com anúncios, mas tentou acalmar o mercado ao dizer que se sente “muito bem com a nossa trajetória”. O discurso, porém, não evitou a reação: em um único pregão, o valor de mercado da Alphabet encolhe de US$ 3,97 trilhões para US$ 3,46 trilhões, uma perda superior à metade de tudo que vale a B3 hoje.
Para Kim Scott, ex-diretora de publicidade do Google, a queda é o preço de uma aposta estratégica. Ela afirma que a empresa “prefere prejudicar a si mesma a permitir que outros a prejudiquem” e avalia: “Acho que eles estão fazendo uma aposta de longo prazo na IA”. Na prática, o Google decide sacrificar parte do caixa agora para não perder relevância num cenário em que usuários migram para chatbots concorrentes.
Como a queda das ações da Alphabet impacta o mercado de tecnologia?
A derrocada da Alphabet funciona como um choque de realidade na corrida da inteligência artificial, derrubando outras gigantes e reacendendo dúvidas sobre como monetizar a nova tecnologia sem destruir negócios já consolidados.
No pregão em que o Google despenca, a Amazon também é punida: as ações caem 6% após a empresa apresentar crescimento de 11% nas vendas, para US$ 201 bilhões, mas exibir um fluxo de caixa negativo de US$ 42 bilhões — seis vezes pior que no trimestre anterior. O rombo é explicado pelos gastos acelerados com infraestrutura de IA e fabricação de chips próprios.
Andy Jassy, CEO da Amazon, admite que a conta é pesada, mas insiste que se trata de um investimento para criar negócios gigantes. Ele diz ver a chance de construir dois mercados que podem chegar a US$ 1 trilhão cada, citando a plataforma de IA Bedrock e a estratégia de chips: “Uma das lições que aprendemos ao longo de mais de 20 anos é que não existe uma única ferramenta que domine o mundo”. Sobre o ritmo dos gastos, reconhece que “seria mais conveniente se os gastos fossem distribuídos ao longo dos próximos 25 anos. Mas não é assim que funciona” e garante: “Podemos financiar este plano, e acredito que ele mudará para sempre o tamanho, a receita e o fluxo de caixa livre da Amazon”.
A Microsoft, por sua vez, adota um tom mais cauteloso. O mercado reage com leve queda, inferior a 1% nas ações, mesmo após a empresa reportar avanço de 19% na receita, para US$ 92,3 bilhões, e salto de 30% no negócio de computação em nuvem. A companhia reduz em cerca de US$ 5 bilhões os investimentos dedicados à IA e anuncia demissões de milhares de funcionários para conter custos, embora siga como uma das principais financiadoras da OpenAI, dona do ChatGPT.
Analistas veem nos resultados da Microsoft um recado: a demanda corporativa por IA permanece forte, mas o setor ainda tenta entender onde, afinal, ficará o valor capturado por essa tecnologia. Enquanto o Google já sente no bolso o conflito entre IA conversacional e publicidade tradicional, Amazon e Microsoft ajustam a mira entre crescer, investir pesado e preservar rentabilidade.
Entenda o contexto
O movimento da Alphabet escancara o dilema central da era da IA generativa: produtos que respondem tudo em uma única tela tendem a reduzir cliques em links patrocinados e orgânicos, minando o modelo que sustentou a web nas últimas décadas. Cada resposta gerada pelo “modo IA” é, ao mesmo tempo, uma inovação para o usuário e uma página com menos espaço para anúncios.
Ao apostar nesse formato, o Google tenta impedir que usuários migrem em massa para assistentes rivais, mas aceita, ao menos por enquanto, uma publicidade menos visível e mais difícil de mensurar. Isso acende o alerta em agências, anunciantes e plataformas que dependem do tráfego vindo do buscador.
No mercado financeiro, o recado é claro: a corrida pela inteligência artificial entrou na fase em que a conta chega. Alphabet, Amazon e Microsoft seguem apostando bilhões na tecnologia, mas os investidores passam a cobrar não só promessas — querem ver modelos de negócio capazes de transformar essa revolução tecnológica em lucro sustentável.

