Lula vence virada histórica e assusta mercados
Lula vira sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno, garante um quarto mandato e enfrenta reação dura dos mercados, com tombo do real, da bolsa e pressão por ajuste fiscal.
Mercado
Após uma virada surpreendente, Lula assegura seu quarto mandato e provoca instabilidade nos mercados financeiros.
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Luiz Inácio Lula da Silva venceu Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, em 25 de outubro, com uma virada de quase quatro pontos percentuais e se prepara para iniciar um quarto mandato em janeiro, sob forte desconfiança dos mercados, que reagiram com queda acentuada do real e do Ibovespa.
Real despenca e Bolsa cai 14% após resultado
No dia seguinte à confirmação da vitória, o real se desvalorizou 8% frente ao dólar, na maior queda em um único pregão em décadas, e o Ibovespa recuou 14%, após acionar mecanismos de proteção contra oscilações bruscas. A fuga de investidores expôs, de imediato, o prêmio de risco que o mercado passou a cobrar do Brasil diante do temor de que o novo governo mantenha ou amplie a gastança pública.
Os agentes financeiros deixaram claro que preferiam a continuidade com Flávio Bolsonaro, visto como menos propenso a ampliar despesas sociais e subsídios sem compensação. O diagnóstico predominante é que o país já chega a este novo mandato com uma combinação explosiva: déficit orçamentário superior a 9% do PIB, dívida pública projetada em 97% do PIB em 2026, contra 84% em 2022, e taxa de juros real em 9%, uma das mais altas do mundo.
Com juros tão elevados, o custo do crédito para empresas e famílias sobe, investimentos são adiados e o consumo perde fôlego, num país que, apesar de petróleo, vastas áreas agrícolas e grandes reservas minerais, cresce há anos abaixo de economias comparáveis.
Entenda o contexto
No primeiro turno, realizado três semanas antes, Lula saiu em desvantagem em relação a Flávio Bolsonaro e chegou a ser dado como praticamente derrotado por analistas políticos. A reação veio com uma reorganização da campanha e mudança de estratégia, que ampliaram sua base de apoios e consolidaram a virada nas urnas no segundo turno.
A vitória abre um capítulo inédito: Lula será o primeiro presidente democraticamente eleito do país a tomar posse para um quarto mandato em janeiro. Aos 81 anos, completados em 27 de outubro, ele volta ao Planalto em ambiente econômico bem mais hostil do que em seus ciclos anteriores, com pouca margem para erros na área fiscal.
Pressão por ajuste fiscal e ministro da Fazenda forte
Economistas e investidores avaliam que a prioridade absoluta do governo será sinalizar uma guinada na condução das contas públicas. “Se Lula quiser melhorar a vida dos brasileiros mais pobres, evitar uma crise e proteger seu legado, seus últimos quatro anos de mandato terão de ser muito diferentes dos quatro anteriores”, resume a avaliação de analistas ouvidos pela reportagem.
Na prática, o mercado cobra quatro movimentos rápidos: a escolha de um ministro da Fazenda com credibilidade técnica e política; o anúncio de um plano fiscal crível; a aprovação de um teto para os gastos públicos capaz de estabilizar a trajetória da dívida; e a revisão profunda de renúncias tributárias que drenam recursos do Tesouro.
Durante a campanha, Lula minimizou a necessidade de disciplina fiscal e prometeu ampliar subsídios e programas sociais. Pelas contas de especialistas, os novos benefícios anunciados devem custar cerca de 2% do PIB até o fim de 2027. Sem medidas compensatórias, essa despesa extra tende a agravar o déficit e a alimentar a alta dos juros.
“Lula precisa eliminar as inúmeras isenções fiscais que proliferaram e que beneficiam empresas ineficientes com lobistas influentes”, apontam analistas de finanças públicas. Só a limpeza desse rol de incentivos poderia abrir espaço para manter políticas sociais sem pressionar ainda mais a dívida.
Aposentadorias e gasto obrigatório no foco do corte
Outro ponto sensível é a despesa com aposentadorias, especialmente de servidores públicos e militares. Esse gasto vem crescendo acima da inflação e ocupa parcela cada vez maior do Orçamento, comprimindo o espaço para investimentos e para políticas sociais novas.
Especialistas defendem que qualquer novo arcabouço fiscal precisa atacar esse núcleo duro de despesas obrigatórias, sob pena de o ajuste recair apenas sobre investimentos e serviços públicos, com impacto direto na qualidade de vida da população.
Nomeações no BC e no STF aumentam tensão
Além da área fiscal, o mercado monitora as nomeações estratégicas que Lula fará no comando da política econômica e das instituições. No próximo mandato, o presidente poderá indicar dois nomes para o Conselho de Administração do Banco Central e preencher cargos na Superintendência das Finanças Públicas.
De maior peso político e institucional, porém, são as quatro cadeiras que ficarão vagas no Supremo Tribunal Federal. O tribunal é apontado por analistas como altamente politizado e alvo de denúncias de corrupção. As escolhas de Lula podem redefinir o equilíbrio interno da Corte e influenciar, por anos, decisões sobre temas econômicos, fiscais e regulatórios.
Investidores temem que indicações alinhadas a uma visão complacente com aumento de gastos, revisão de marcos regulatórios e interferência em contratos acabem corroendo ainda mais a confiança no ambiente de negócios brasileiro.
Risco de crise fiscal e recessão profunda
No pano de fundo da euforia eleitoral, o diagnóstico no mercado é de que o governo reeleito caminha numa linha tênue. “Se o presidente reeleito do Brasil acreditar que sua vitória eleitoral é uma desculpa para intensificar as políticas que derrubaram Flávio, ele causará uma crise fiscal e uma profunda recessão. Sua vitória dourada se transformará em cinzas”, alertam analistas.
O cenário de risco inclui nova disparada do dólar, inflação pressionada, necessidade de juros ainda mais altos e retração de crédito, com impacto direto em emprego e renda. Nesse quadro, a vitória eleitoral poderia se converter em desgaste político acelerado e perda de base no Congresso.
Na outra ponta, se conseguir construir um pacto mínimo em torno da responsabilidade fiscal, aprovar um teto de gastos crível, revisar isenções e organizar as contas da Previdência, Lula pode reverter o humor dos mercados, reduzir o custo do dinheiro e destravar investimentos. A disputa entre essas duas trajetórias começa agora, nos sinais que o presidente eleito dará nas próximas semanas, a começar pela escolha do comando da Fazenda.


