Trabalho nos EUA cai a 52,8% da renda em 2026 com IA avançando
Parcela da renda destinada a salários cai a 52,8%, mínima desde 1947, enquanto lucros corporativos batem recorde e economia dos EUA caminha para um modelo que favorece o capital e amplia a desigualdade.

Economia
A participação dos salários na renda dos EUA atinge o menor nível desde 1947, impulsionada pelo avanço da inteligência artificial e aumento dos lucros corporativos.
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A participação do trabalho na renda nacional dos Estados Unidos caiu para 52,8% no segundo trimestre de 2026, o menor nível desde o início da série oficial, ao mesmo tempo em que os lucros corporativos batem recordes e o desemprego volta a subir, num cenário em que automação e inteligência artificial ganham espaço e reforçam a concentração de renda.
Salários ficam com fatia menor do PIB
O chamado labor share, que mede quanto do Produto Interno Bruto vai para salários e benefícios, recua de 53,6% no trimestre anterior para 52,8%, bem abaixo da média da década, de 55,6%. Na prática, uma parte menor da riqueza gerada pela economia está indo para o bolso dos trabalhadores, enquanto aumenta a fatia destinada a lucros e retorno sobre o capital.
Esse movimento ocorre em contraste com o desempenho das grandes corporações. As empresas que compõem o índice Fortune 500 registraram lucros de US$ 2,1 trilhões em 2025, um recorde, apoiadas por um crescimento do PIB de 3,4% no terceiro trimestre do ano passado.
Para o economista Raymond Robertson, da Texas A&M, a virada de chave é clara. “The falling share of income is having to do with the shift towards capital”, afirma. Segundo ele, a queda da fatia do trabalho “has got to be either falling earnings or falling numbers of people” — salários menores, menos gente empregada, ou uma combinação dos dois.
Mercado de trabalho perde fôlego
Os dados mais recentes sugerem que o enfraquecimento atinge tanto salários quanto vagas. A taxa de desemprego subiu para 4,2% em setembro, e a criação de postos de trabalho desacelerou fortemente: foram 584 mil empregos gerados em 2025, contra 2 milhões no ano anterior. Em setembro, a economia americana abriu apenas 29 mil vagas, cerca de um terço do que analistas projetavam.
O quadro alimenta o temor de um período de “crescimento sem emprego”, em que o PIB avança, mas a base de trabalhadores encolhe ou fica estagnada. É o desenho de uma economia em formato de K: no topo, empresas e acionistas acumulam ganhos; na base, trabalhadores enfrentam desemprego maior, pressão sobre salários e menos mobilidade social.
Mesmo com o desaquecimento do emprego, a produtividade — a produção média por trabalhador — ainda sobe. No segundo trimestre, o indicador cresceu 1,4%, embora em ritmo mais lento que no mesmo período do ano anterior. Esse aumento de eficiência, combinado com mercado de trabalho menos aquecido, ajuda a explicar margens mais gordas para as companhias.
Automação e IA mudam a divisão do bolo
Robertson vê na automação e na inteligência artificial um dos motores centrais da mudança. “All these things, bit by bit, are replacing people, and they’re concentrating income and their share of capital”, diz o economista. Máquinas e algoritmos assumem tarefas antes feitas por humanos, reduzindo a demanda por trabalho em diversos setores.
Um relatório de Joseph Briggs e Sarah Dong, analistas do Goldman Sachs, estima que “AI automation could displace 25% of all work hours”. Pelas contas deles, um aumento de 15% na produtividade puxado por IA ao longo do ciclo de adoção poderia eliminar de 6% a 7% dos empregos e, no pico, acrescentar até 1 milhão de pessoas às estatísticas de desemprego.
Por enquanto, essa ruptura ainda não aparece em massa nos dados oficiais. Parte das demissões ligadas a reorganizações pós-pandemia ou a correções de excesso de contratações têm sido apresentadas como cortes “por causa da IA”, o que embaralha a leitura. Economistas de um grande banco americano apontam que “the recent productivity surge has been an open question”, ainda sem consenso se se deve principalmente à automação ou a fatores cíclicos.
Estudos corporativos indicam que a adoção da IA está mais avançada no chão das empresas do que nas demonstrações de resultado. Levantamento da consultoria McKinsey mostra que cerca de 80% dos trabalhadores dizem que ferramentas de IA os tornam mais rápidos em tarefas específicas, mas só 37% das companhias relatam impacto relevante nos lucros operacionais, limitados pelos altos custos de implantação e infraestrutura.
A projeção, porém, é de que o ganho de eficiência acabe reforçando o lado do capital. Um informe acadêmico recente calcula que a automação deve elevar o PIB dos EUA em 1,5% até 2035, além de fortalecer margens corporativas. Robertson avalia que, se o desemprego continuar subindo, “margins and profits” tendem a crescer ainda mais, já que salários pressionados reduzem custos.
Entenda o contexto
A queda da participação do trabalho ocorre num país que, ao longo de décadas, viu o mercado interno e a classe média se consolidarem justamente pelo avanço contínuo da renda do trabalho. A reversão atual desloca esse eixo, com riscos para o consumo das famílias, a arrecadação de impostos e a estabilidade social.
Os setores mais expostos são justamente os que conseguem automatizar tarefas rotineiras com mais facilidade: manufatura avançada, logística, finanças, atendimento e serviços digitais. Nessas áreas, algoritmos substituem funções administrativas, de análise de dados e de relacionamento com o cliente, enquanto robôs assumem etapas da produção.
Ao mesmo tempo, surgem novas funções em desenvolvimento de sistemas, supervisão de modelos de IA, cibersegurança e manutenção de equipamentos inteligentes. O saldo líquido, porém, ainda é incerto, e o ritmo de criação desses novos postos não tem compensado, por ora, a destruição de empregos menos qualificados.
Restrição a imigrantes também pesa no emprego
Além da automação, parte da desaceleração do mercado de trabalho é atribuída a mudanças na política migratória. Mark Regets, pesquisador da National Foundation for American Policy (NFAP), aponta que o endurecimento das regras na gestão de Donald Trump não produziu o efeito prometido de ampliar a força de trabalho nativa. “President Donald Trump’s immigration crackdown has not done what Trump administration officials said it would in increasing the number of U.S.-born workers”, afirma.
De acordo com a NFAP, o país perdeu de 1,1 milhão a 1,4 milhão de trabalhadores nascidos no exterior desde o início de 2025, por deportações e pela decisão de muitos imigrantes de não se arriscar a viver em um ambiente hostil. Para Regets, essa fuga de mão de obra estrangeira acabou também reduzindo oportunidades para trabalhadores americanos.
Os dados oficiais mostram queda tanto na participação de imigrantes quanto de nativos no mercado de trabalho. A taxa de participação dos estrangeiros recuou de 66,3% para 66% entre setembro de 2025 e setembro de 2026, enquanto a dos nativos caiu de 61,6% para 60,9% no mesmo intervalo. Menos imigrantes não significam, portanto, mais espaço garantido para cidadãos nascidos nos EUA.
“A company unable to find the workers it needs for some roles could shut down operations rather than continuing”, alerta Regets. Na visão dele, a diversidade de competências trazida por imigrantes aumenta a produtividade, incentiva investimentos e amplia o próprio número de vagas disponíveis para todos.
Empresas e governo correm atrás da requalificação
Diante da mudança estrutural, trabalhadores mais jovens começam a se reposicionar. Cursos técnicos e escolas profissionalizantes veem aumento da procura por carreiras em ofícios que não podem ser facilmente substituídos por algoritmos ou terceirizados para outros países, como carpintaria, soldagem, manutenção elétrica e serviços de campo. Dados do sistema de community colleges indicam alta de 16% nas matrículas em cursos vocacionais em 2024.
Do lado das empresas, programas de requalificação viram prioridade. Uma pesquisa com recrutadores feita em junho aponta que 72% dos gestores de contratação planejam treinar funcionários para novas funções em vez de apenas substituí-los. A ideia é adaptar a força de trabalho à convivência com sistemas de IA, em que o humano opera em parceria com as máquinas.
O Departamento do Trabalho atualizou diretrizes para estimular estados a modernizarem seus programas de desenvolvimento de mão de obra, mas Robertson considera o esforço tímido. “Democrats and Republicans have not significantly invested in training [or] the retraining or active labor market programs that you need to match workers to jobs”, critica.
Ele defende que profissões “technology-assisted”, em que a tecnologia é ferramenta e não substituto direto, devem ganhar espaço, desde que haja investimento pesado em qualificação. Sem esse empurrão, a tendência é de que a automação amplie a distância entre trabalhadores com alta formação e o restante da força de trabalho.
Para Regets, a capacidade da economia americana de sustentar o crescimento depende de reverter o quadro atual de força de trabalho encolhendo. “We need job growth to have a growing economy, and I think we need job growth to pay our debts”, diz. “I don’t know how you have job growth with a shrinking labor force.”


