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Política

Realismo ingênuo ajuda a explicar brigas nas eleições

Fenômeno da psicologia social mostra por que eleitores que veem os mesmos debates e notícias chegam a conclusões opostas e transformam política em conflito pessoal.

Realismo ingênuo ajuda a explicar brigas nas eleições

Psicologia Social

Entenda como percepções diferentes sobre os mesmos fatos geram conflitos nas disputas eleitorais.

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No segundo turno das Eleições 2026, o realismo ingênuo ajuda a explicar por que eleitores brasileiros, diante dos mesmos debates e notícias, saem com leituras políticas totalmente opostas e tratam quem discorda como se fosse irracional, mal-intencionado ou manipulado.

O que é o realismo ingênuo e como aparece no voto

O realismo ingênuo, formulado em pesquisas lideradas pelo psicólogo americano Lee Ross a partir da década de 1990, descreve a tendência de achar que nossa percepção é objetiva e que qualquer pessoa bem informada e racional chegaria às mesmas conclusões. Quando isso não acontece, o outro passa a ser visto como desinformado ou incapaz de raciocinar corretamente.

Nas eleições, essa lógica se intensifica. Dois eleitores em Pernambuco podem assistir ao mesmo debate do segundo turno e, ainda assim, um enxergar firmeza e competência em um candidato enquanto o outro enxerga autoritarismo e despreparo. Cada um sai convencido de que sua leitura é a única razoável.

Para o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, essa suposta objetividade é atravessada por camadas subjetivas. “Entre nós e a realidade existem nossas fantasias, nossas ilusões, nossas memórias”, afirma. Ou seja, informações não chegam em “campo neutro”: passam por experiências de vida, expectativas, medos e esperanças.

Entenda o contexto

O segundo turno das Eleições 2026 mantém o país em clima de disputa acirrada, com casos frequentes de brigas de família, rompimentos em grupos de mensagens e discussões em redes sociais. Em Pernambuco, onde eleitores voltam às urnas nesta fase decisiva, a mobilização é alta e os ânimos seguem exaltados.

Nesse cenário, o realismo ingênuo funciona como combustível da polarização. Se cada lado se vê como guardião da verdade e enxerga o outro como ignorante, corrupto ou imoral, o espaço para mediação e compromisso diminui. A consequência aparece na política institucional, na cobertura da mídia e na vida cotidiana, com impacto direto sobre a convivência democrática.

Por que discordar parece uma ameaça pessoal

Dunker destaca que convicções políticas não são apenas um conjunto de argumentos lógicos, mas também uma fonte de conforto emocional. Reencontrar ideias conhecidas e reforçar identidades já formadas produz sensação de segurança. Mudar de posição mexe com essa estabilidade.

Na avaliação do psicanalista, o voto é expressão desse vínculo afetivo com a própria visão de mundo. “Um voto é um desejo”, resume. Mais do que concordar com um programa de governo, o eleitor projeta ali o país em que quer viver e o lugar que imagina ocupar nele.

Quando alguém critica esse projeto, a sensação muitas vezes é de ataque à própria identidade. A discordância política deixa de ser debate de propostas e passa a ser percebida como julgamento moral. “Elas são ameaças ao que a gente deseja para o mundo”, diz Dunker, ao comentar a reação contra opiniões contrárias.

Nesse ponto, o adversário deixa de ser apenas quem discorda e vira alguém sem caráter, sem valores ou sem inteligência. A dificuldade de admitir nossas próprias contradições reforça essa postura: se não conseguimos lidar com a possibilidade de mudar de ideia, tendemos a concluir que o outro também não mudará e que a diferença é defeito, não percurso de vida distinto.

Impacto na campanha e na democracia

Na prática, esse mecanismo psicológico ajuda a entender por que o segundo turno, em especial em estados como Pernambuco, se torna terreno fértil para radicalização. Eleitores fortemente identificados com suas posições ganham senso de pertencimento e clareza sobre “quem são”, mas perdem disposição de escutar, negociar e reconhecer pontos válidos no lado oposto.

O efeito se espalha para além das conversas privadas. Partidos reforçam mensagens direcionadas ao núcleo mais fiel, enquanto a comunicação política tende a tratar o eleitor indeciso como minoria suspeita ou mal informada. A mídia e as redes sociais também entram na engrenagem, ora priorizando o conflito, ora sendo alvo de desconfiança sistemática.

O resultado é um ambiente em que o processo democrático continua funcionando formalmente — urnas, campanhas, fiscalização —, mas a capacidade de construir consensos mínimos se fragiliza. Sem reconhecimento de que há múltiplas formas legítimas de interpretar a realidade, a arena política se enche de certezas absolutas e pouca disposição de compromisso.

Desafios e possíveis saídas

Especialistas apontam que reconhecer o realismo ingênuo em si mesmo é um primeiro passo para reduzir a escalada dos conflitos. O problema é que isso exige justamente questionar aquilo que cada um considera mais óbvio.

Para Dunker, ninguém está imune. Em momentos de pressão emocional, angústia ou ressentimento — como uma eleição disputada, na qual se projeta o futuro do país —, aumenta a tendência de buscar explicações simples e narrativas que confirmem crenças anteriores.

Na academia e em iniciativas da sociedade civil, crescem esforços para tornar mais visíveis esses mecanismos psicológicos por trás da polarização, com ações de educação midiática, rodas de conversa e programas de formação política. A expectativa é que essa compreensão ajude a diminuir a personalização das divergências.

No curto prazo, porém, a avaliação de pesquisadores é que o cenário segue marcado por desconfiança mútua e julgamentos morais, sobretudo em locais onde o segundo turno mobiliza fortemente as bases eleitorais, como em Pernambuco. Sem estratégias duradouras de empatia e reconhecimento da pluralidade de perspectivas, o risco é que o realismo ingênuo aprofunde a divisão social e dificulte a governabilidade após a apuração dos votos nesta segunda-feira, 02/11/2026.