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Política

Flávio Bolsonaro foge para os EUA após derrota e muda estratégia

Após reunião de quase cinco horas com advogados e aliados no Rio, senador Flávio Bolsonaro decidiu deixar o Brasil rumo aos EUA para evitar possível prisão e atuar à distância contra o governo Lula.

Flávio Bolsonaro foge para os EUA após derrota e muda estratégia

Política

Senador opta por exílio nos EUA para escapar de prisão e continuar oposição ao governo Lula.

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Um dia depois de perder a disputa presidencial para Lula (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) decidiu fugir para os Estados Unidos, contrariando o acordo feito com seus advogados de entregar o passaporte à Polícia Federal e marcando uma guinada na estratégia política do grupo bolsonarista.

Reunião selou recuo do discurso golpista

A virada começou na segunda-feira (26), em uma reunião de quase cinco horas no escritório do advogado Otto Medeiros, no Rio de Janeiro. Flávio chegou ao encontro inconformado com a derrota e repetindo que não reconhecia o resultado das urnas. Havia poucas horas ele fora intimado pela Polícia Federal, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, para o cancelamento dos passaportes brasileiros e para entregar o passaporte italiano até o fim da manhã seguinte, no âmbito de um inquérito que o investiga por suspeita de lavagem de dinheiro.

Sem conseguir falar com as advogadas da campanha, Tracy Reinaldet (criminal) e Maria Claudia Bucchianeri (eleitoral), o senador recorreu a Medeiros, que convocou aliados políticos para discutir o rumo da direita após a derrota. Participaram o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a economista Daniella Marques e o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP), entre outros.

No encontro, o grupo foi unânime em pressionar Flávio a abandonar o discurso de fraude e a rejeitar qualquer estratégia golpista. O argumento central foi a comparação com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre 27 anos de prisão em regime domiciliar por tentativa de golpe de Estado. Repetir o caminho do pai, alertaram, significaria se expor ao mesmo desfecho.

Os advogados defenderam que a oposição a Lula deveria ser feita por vias institucionais, com a preparação de uma ação eleitoral formal contra o petista por suposto uso da máquina pública. Também ficou combinado que Flávio teria papel de destaque num evento no Congresso, com senadores de direita, para definir os rumos da oposição e a disputa pela presidência do Senado.

Vídeo, promessa de entregar passaporte e recuo público

A reunião no escritório de Otto Medeiros se estendeu das 11h até por volta das 16h. Entre discussões jurídicas e políticas, os aliados convenceram o senador a gravar um vídeo para as redes sociais, no qual ele deixaria de lado a tese de fraude eleitoral e se comprometeria a cumprir a ordem de entregar o passaporte. Flávio gravou a mensagem três ou quatro vezes até chegar ao tom considerado adequado pelo grupo.

No vídeo, publicado pouco antes das 17h, o parlamentar negou que pretendesse deixar o país e afirmou que entregaria o documento, numa tentativa de acalmar o ambiente político e demonstrar respeito às instituições. A avaliação entre aliados era de que, se baixasse a temperatura, haveria espaço para atuar na oposição sem ampliar seu risco jurídico.

Horas depois, porém, o cenário começou a rachar. Ainda na tarde de segunda, Flávio recebeu em casa o advogado e amigo Frederick Wassef, conhecido por posições mais radicais do que o bloco moderado que havia acabado de se reunir no escritório de Medeiros. Wassef permaneceu na residência por cerca de 40 minutos, e deixou o local no início da noite.

Silêncio na manhã seguinte e ruptura com o combinado

Na manhã de terça-feira (27), o advogado responsável por organizar a entrega do passaporte italiano mandou mensagem a Flávio às 7h50 para acertar o horário em que buscaria o documento em sua casa. O aplicativo registrou apenas um tique, sem confirmação de leitura, e não houve resposta. Outras mensagens e ligações ao longo do dia também ficaram sem retorno.

Pouco antes das 8h, um amigo do senador, o marqueteiro Marcello Lopes, escreveu para Fernanda Bolsonaro, mulher de Flávio. Naquele momento, um portal argentino já noticiava que o candidato derrotado havia deixado o Brasil pela fronteira com o país vizinho, rumo ao território do aliado Javier Milei. Fernanda respondeu dizendo que o marido estava deitado ao seu lado e que entraria em contato quando ele se levantasse.

Na prática, a ausência de resposta e o sumiço do senador confirmaram a ruptura com a estratégia construída na véspera. Flávio não entregou o passaporte italiano como havia prometido e, em vez de se apresentar à PF, cruzou a fronteira e embarcou para os Estados Unidos.

Fuga para os EUA e recado ao pai

A versão do próprio senador sobre a decisão de sair do país foi apresentada em uma live transmitida em suas redes sociais na sexta-feira (30), já em solo americano. Flávio contou que Jair Bolsonaro presenciou a intimação da PF na porta de casa e reagiu emocionado.

“Ele me olhou com os olhos cheios de lágrimas, falou: ‘já sabe aonde é que eles querem chegar com isso, né?’. Eu falei: ‘pai, já sei aonde eles querem chegar, eu sei o que eu tenho que fazer'”, relatou o senador, ao justificar sua escolha de deixar o Brasil para, segundo ele, evitar ser preso.

Da casa onde está hospedado nos EUA, o parlamentar afirmou que, ao contrário do pai, pretende manter atuação permanente contra o governo petista. “Ele ficou no Brasil e onde ele está, né? […] Como é que ele consegue orientar se ele não tem voz, se ele está censurado, injustiçado?”, disse. Na mesma transmissão, Flávio falou em “perseguição” e voltou a sugerir, sem apresentar provas, que houve irregularidades na eleição.

Cisão na direita e disputa por liderança

A fuga para os Estados Unidos foi mal recebida por parte expressiva da direita, especialmente entre aliados que apostavam numa oposição organizada a partir do Congresso. Publicamente, alguns dirigentes demonstram compreensão com o temor de prisão do senador, mas em privado reconhecem que a decisão atropelou o plano traçado na reunião de segunda-feira.

A divulgação, por Flávio, de uma carta de teor golpista logo após chegar aos EUA ampliou o desconforto. Líderes do campo mais moderado passaram a enxergar o governador Tarcísio de Freitas como alternativa mais viável para liderar a oposição nacional e ocupar o espaço de candidato presidencial em 2030, em um movimento que isola o senador mesmo entre bolsonaristas históricos.

Para advogados próximos, a estratégia ideal seria a de reduzir o tom, seguir com uma defesa técnica e tentar o arquivamento dos inquéritos criminais. Com a decisão de se colocar em situação de exílio informal, Flávio reforça o discurso de que o Brasil não vive uma democracia e de que não teria a quem recorrer dentro das instituições, o que, na avaliação desses mesmos juristas, tende a dificultar qualquer saída negociada.

Impacto político e possíveis próximos passos

A escolha de Flávio Bolsonaro de abandonar o discurso de contestação violenta do resultado eleitoral, na reunião de segunda, e substituí-lo por uma ação eleitoral contra Lula representou inicialmente um gesto de acomodação institucional da direita. Com a fuga, porém, essa inflexão ficou pela metade: o senador se afastou do golpismo explícito naquele momento, mas decidiu atuar à distância alimentando narrativas de perseguição e censura.

No Congresso, a ausência física de um dos principais nomes do bolsonarismo tende a reduzir o peso da bancada ligada ao ex-presidente em votações estratégicas e na disputa interna por espaços de poder, como a presidência do Senado. Ao mesmo tempo, abre margem para a ascensão de novas lideranças à direita, que buscam combinar oposição dura ao governo Lula com preservação do diálogo institucional.

Do ponto de vista jurídico, a permanência de Flávio nos Estados Unidos coloca pressão adicional sobre as investigações por lavagem de dinheiro e sobre eventuais medidas de cooperação internacional. No plano externo, a presença de um senador brasileiro autoexilado, alegando perseguição política, pode despertar atenção de governos e organizações estrangeiras, afetando a imagem do Brasil em debates sobre estabilidade democrática e respeito às leis.