IA vai liderar decisões estratégicas nos conselhos até 2035
Pesquisa da FIA Business School com 80 executivos indica que, até 2035, a inteligência artificial será usada sobretudo para análise de cenários estratégicos nos conselhos, com decisões finais mantidas sob controle humano.

Inteligência Artificial
Estudo revela que IA será ferramenta chave na análise estratégica dos conselhos, mantendo o controle humano nas decisões finais até 2035.
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A inteligência artificial deve assumir um papel central e estratégico nos conselhos de administração brasileiros até 2035, sobretudo na análise de cenários para tomada de decisão, sem substituir o julgamento humano. A projeção aparece em pesquisa da FIA Business School, em São Paulo, feita com 80 executivos e coordenada pela professora Renata Spers.
IA como parceira de estratégia, não de rotina
De acordo com o levantamento, 83% dos executivos veem a análise de cenários como a principal função da inteligência artificial nos colegiados até 2035. A tecnologia é apontada como ferramenta para identificar sinais de negócios, testar hipóteses, simular alternativas, comparar situações de mercado e antecipar riscos.
Outras funções aparecem bem atrás: 46% citam apoio a normas de conformidade e 31% mencionam a geração de pareceres automatizados. A leitura dos pesquisadores é que o maior valor da IA, para os conselhos, estará menos na automação de rotinas e mais no reforço da inteligência competitiva.
“O estudo mostra que o maior potencial da IA nos conselhos está na ampliação da inteligência estratégica ou em um maior apoio para identificar tendências, antecipar riscos, simular cenários e avaliar alternativas”, afirma Renata Spers, professora da FIA Business School e coordenadora da pesquisa. Segundo ela, a tecnologia tende a “melhorar e aprofundar análises e decisões, mas preservando o julgamento e a responsabilidade dos conselheiros”.
Quem respondeu à pesquisa
A pesquisa “Futuro da inteligência artificial nas organizações – Cenários, competências e governança até 2035” foi concluída em setembro, após duas rodadas de consulta com 80 executivos brasileiros. O trabalho foi conduzido pelo Centro de Conhecimento Global C-level e Board da FIA Business School.
Entre os participantes, 83% ocupam posições de liderança, incluindo cadeiras em conselhos de administração. Um total de 97% declara ter experiência ou contato profissional com ferramentas de IA, e 71% têm pós-graduação, MBA, mestrado ou doutorado. O grupo inclui ainda consultores e especialistas técnicos, o que amplia a diversidade de olhares sobre a adoção da tecnologia nas organizações.
Entenda o contexto
O estudo busca antecipar como a IA será incorporada ao processo decisório dos conselhos brasileiros ao longo da próxima década, em um cenário de avanço rápido das tecnologias generativas e de automação. A expectativa dos autores é que setores com governança mais estruturada, como finanças, tecnologia e indústria, liderem a adoção, enquanto áreas menos preparadas enfrentem mais desafios para integrar a IA às rotinas dos colegiados.
Na prática, isso significa conselhos com maior capacidade de leitura do ambiente de negócios, de simulação de caminhos estratégicos e de identificação precoce de riscos – desde mudanças regulatórias até movimentos de concorrentes. As decisões finais, principalmente as de peso ético e de alto impacto, continuam nas mãos dos conselheiros.
Executivos rejeitam autonomia plena da IA
Nenhum dos 80 executivos ouvidos apontou a autonomia plena da IA como cenário preferencial para o uso em conselhos. A maioria defende modelos em que a tecnologia opera sob supervisão humana.
“Mais da metade defende a supervisão parcial e 37% indicam uma autonomia auditável da ferramenta nas rotinas”, diz Renata Spers. Para a professora, o resultado mostra que, mesmo diante do avanço tecnológico, os gestores “reconhecem a prioridade do julgamento humano, especialmente em movimentações estratégicas, éticas e de maior impacto, justamente aquelas que circulam no âmbito dos conselhos”.
Na prática, isso indica a tendência de adoção de sistemas de IA que expliquem como chegam às recomendações, possam ser auditados por conselheiros e estejam submetidos a regras claras de uso e limites de atuação.
Principais riscos vistos nos conselhos
Os executivos demonstram preocupação explícita com o lado sombreado da IA. O risco mais citado é o uso antiético de modelos de linguagem, apontado por 69% dos participantes. Em seguida aparecem o viés algorítmico na tomada de decisões, mencionado por 63%, e as vulnerabilidades cibernéticas, lembradas por 46%.
Também foram listados dependência tecnológica (31%), perda de privacidade (29%), desinformação e manipulação (23%), substituição de trabalhadores qualificados (17%) e concentração de poder (11%). A combinação de riscos técnicos, éticos e organizacionais reforça, segundo os autores, a necessidade de uma governança específica para a IA.
“A adoção da IA precisa avançar acompanhada de governança, transparência e capacitação”, afirma Renata Spers. Para ela, ignorar riscos como viés e uso antiético pode comprometer não só decisões específicas, mas a própria credibilidade dos conselhos e das empresas perante o mercado e a sociedade.
Governança e capacitação entram na agenda
A partir das respostas, o estudo recomenda que conselhos de administração passem a tratar a IA como tema estratégico permanente. Entre as prioridades sugeridas estão incorporar a tecnologia aos processos de planejamento e análise, criar mecanismos de governança para supervisão de riscos e de decisões automatizadas e definir claramente as responsabilidades de conselheiros e executivos quando a IA é usada no processo decisório.
A pesquisa aponta ainda para a necessidade de investir na formação dos conselheiros. A recomendação inclui tanto treinamentos técnicos sobre funcionamento das ferramentas quanto capacitação mais ampla em ética e responsabilidade no uso de IA. A expectativa é que empresas passem a estruturar programas próprios de educação para conselhos, em parceria com escolas de negócios e especialistas em tecnologia.
Ao mesmo tempo, os resultados devem alimentar discussões regulatórias e de autorregulação no mercado, com tendência de surgimento de normas e boas práticas voltadas à transparência, à auditoria de algoritmos e à proteção de dados em decisões suportadas por IA.
Para a FIA Business School, a pesquisa indica uma transformação gradual: a IA se consolida como instrumento de inteligência estratégica nos conselhos, enquanto o julgamento humano permanece no centro das decisões de maior impacto, em um equilíbrio que exigirá investimentos constantes em governança e qualificação.


