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Economia

Galípolo denuncia demora do BC em análise de crédito de R$12 bi

Presidente do BC relatou à PF reuniões tensas com fiscais suspeitos de favorecer o Banco Master e disse ter criado equipe paralela para revisar operação de R$ 12 bi com o BRB. Em coletiva, negou ida à Fazenda.

Galípolo denuncia demora do BC em análise de crédito de R$12 bi

Economia

Presidente do BC relata tensões e ações paralelas para revisar operação bilionária envolvendo o BRB.

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O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, contou à Polícia Federal que precisou “esgotar seu repertório de palavrões” em reuniões com servidores da fiscalização da própria autarquia para destravar análises sobre carteiras de crédito do Banco Master vendidas ao Banco de Brasília (BRB), operação de R$ 12 bilhões hoje no centro de uma investigação por suspeita de favorecimento em troca de propina.

Quais foram as denúncias feitas por Gabriel Galípolo sobre servidores do Banco Central?

Galípolo afirmou à PF que houve “demora injustificada” na fiscalização do Banco Master e resistência de servidores em entregar informações completas sobre a instituição ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo a transcrição do depoimento, o presidente do BC relatou duas reuniões longas, com toda a diretoria da casa e mais de uma dezena de técnicos, nas quais subiu o tom para cobrar os relatórios.

Em uma dessas reuniões, Galípolo disse ter “esgotado seu repertório de palavrões ao pedir com bastante ênfase aquela análise do balanço”. Ele descreveu que, apesar das reiteradas cobranças, os trabalhos não andavam no ritmo esperado na área responsável por supervisionar o Master.

O presidente do BC contou que só foi informado das inconsistências nas carteiras vendidas ao BRB pelo atual diretor de fiscalização, Ailton de Aquino. Diante das suspeitas sobre a conduta do então diretor de fiscalização Paulo Souza e do ex-chefe de supervisão bancária Belline Santana, ambos afastados de seus cargos, Galípolo decidiu montar uma equipe paralela para revisar o caso.

“De início, sempre se tem muita dúvida sobre se a equipe original, que supervisionava e fiscalizava há muito tempo, poderia não ter identificado o problema efetivamente”, declarou Galípolo, ao justificar a criação desse segundo grupo de análise. A medida, na prática, driblou a estrutura tradicional de supervisão e expôs a quebra de confiança interna.

As investigações da PF apontam que Paulo Souza e Belline Santana atuavam, na prática, como consultores informais de Daniel Vorcaro, então controlador do Master, e teriam favorecido o banco em troca de vantagem indevida. O caso inclui a venda da carteira de crédito de R$ 12 bilhões ao BRB e a suposta postergação de medidas mais duras contra a instituição.

Galípolo foi ouvido pela PF como testemunha, depois de ter sido citado em depoimento de Souza. O ex-diretor acusou Ailton de Aquino de omissão e afirmou que, à época da sabatina de Galípolo no Congresso para assumir o comando do BC, a área de fiscalização teria sido orientada a “jogar parado”, ou seja, evitar decisões sensíveis.

Entenda o contexto

A suspeita central da PF é que parte da cúpula técnica responsável por supervisionar o sistema bancário tenha atuado para proteger o Master em meio ao avanço de problemas na carteira de crédito, em especial naquelas operações que acabaram repassadas ao BRB. A demora em reconhecer publicamente as fragilidades e propor medidas como a liquidação do banco é vista como possível sinal de favorecimento.

A defesa de Paulo Souza contesta essa versão. Em nota, afirma que não houve atraso deliberado e sustenta que irregularidades relevantes no Master foram identificadas ainda em setembro do ano passado. De acordo com seus advogados, a área técnica propôs a liquidação do banco em março seguinte e “essa proposta chegou à sua 23 versão em outubro de 2025 sem que houvesse decisão da Diretoria Colegiada”.

Já a defesa de Belline Santana afirma que o depoimento de Galípolo “não apontou qualquer indício concreto de irregularidade no exercício das atribuições funcionais” do ex-chefe de supervisão bancária. Os dois ex-dirigentes alegam perseguição e dizem que sempre atuaram dentro das normas.

O Banco Central, por meio de sua assessoria, tem evitado comentar o mérito das acusações enquanto o inquérito da PF está em curso. Internamente, porém, a criação da equipe paralela, o afastamento de servidores-chave e o próprio depoimento do presidente evidenciam uma crise de confiança na engrenagem de fiscalização da autoridade monetária.

Quem é Gabriel Galípolo e qual seu papel no Banco Central?

Gabriel Galípolo é o presidente do Banco Central do Brasil e cumpre mandato de quatro anos, de 1º de janeiro de 2025 a 31 de dezembro de 2028. Economista de formação, ele é o responsável por comandar a política monetária, zelar pela estabilidade do sistema financeiro e chefiar a Diretoria Colegiada, que toma decisões como a definição da taxa básica de juros e a intervenção em instituições financeiras.

Antes de chegar ao comando do BC, Galípolo construiu trajetória no setor financeiro e na formulação de políticas econômicas. No atual cargo, tornou-se uma das principais vozes do governo na interlocução com o mercado e com o Congresso em temas como juros, crédito e regulação bancária, e agora tem de administrar também a crise interna provocada pelas suspeitas em torno da fiscalização do Banco Master.

Por que Gabriel Galípolo negou estar cotado para assumir o Ministério da Fazenda?

Galípolo negou estar cotado para o Ministério da Fazenda para tentar encerrar rumores sobre uma troca no comando da equipe econômica e reforçar seu compromisso com o mandato no Banco Central até 2028. Em coletiva nesta semana, ao comentar o Relatório de Estabilidade Financeira, ele disse que não há qualquer conversa nesse sentido com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Não existe eu estar sendo cotado. Nada disso relativo à Fazenda. Para quem é economista, não existe emprego mais legal do que o que eu estou. Adoro meu emprego. Meu mandato vai até o final de 2028. Estou muito contente e feliz aqui”, afirmou Galípolo, respondendo diretamente às especulações políticas.

A fala ocorre em meio às investigações sobre o Master e à expectativa pela definição do nome que comandará a Fazenda no próximo mandato presidencial. A leitura no mercado era de que uma eventual ida de Galípolo para o ministério poderia reconfigurar o arranjo entre política fiscal e monetária, concentrando ainda mais poder na mesma visão econômica.

Nos bastidores, ganhou força o nome do governador do Piauí, Rafael Fonteles, como favorito para o Ministério da Fazenda. Reeleito no primeiro turno, ele foi secretário estadual da Fazenda e presidiu o Comitê Nacional dos Secretários de Fazenda (Comsefaz), credenciais que agradam à ala do governo que defende experiência em gestão fiscal e articulação com estados.

Ao rechaçar a mudança de posto, Galípolo tenta preservar a imagem de autonomia do BC em um momento sensível, em que precisa conduzir a política de juros, administrar a crise envolvendo a fiscalização do Master e, ao mesmo tempo, blindar a instituição de turbulências políticas ligadas à formação do novo gabinete econômico.