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Lançamentos de IA

Huawei pressiona clientes a comprar memória HBM no mercado negro

Sem acesso à memória HBM de Samsung e SK Hynix, Huawei orienta clientes a buscar chips no mercado negro. Contrabando eleva custo da memória para até US$ 32 mil por chip de IA.

Huawei pressiona clientes a comprar memória HBM no mercado negro

Tecnologia

Huawei enfrenta restrições e incentiva compra de memória HBM por vias não oficiais, elevando custos para clientes.

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A Huawei está orientando clientes de seus chips de inteligência artificial a comprar por conta própria a memória de alta largura de banda (HBM) necessária para operar os processadores, o que, na prática, empurra parte do mercado para redes de contrabando que se espalham entre Coreia do Sul, Hong Kong e China continental, encarecendo projetos de IA e abrindo novos flancos de risco legal e operacional.

Rede de contrabando cresce na sombra das sanções

No centro do problema está o futuro chip Ascend 960DT, que a Huawei pretende lançar no início do próximo ano, prometendo desempenho dobrado em relação à geração atual. Para funcionar, esses chips dependem de módulos HBM, hoje dominados por Samsung e SK Hynix, responsáveis por mais de 80% da oferta global. A fabricante chinesa, porém, não consegue comprar diretamente dessas empresas por causa das restrições de exportação impostas pelos Estados Unidos, e os fornecedores domésticos não dão conta da demanda.

Esse vácuo é explorado por uma rede de contrabandistas que aproveita brechas nas regras de exportação norte-americanas. A operação começa na Coreia do Sul, onde memórias HBM são embaladas junto com processadores de servidor de baixo desempenho, abaixo do limite de controle regulatório. O pacote segue via Hong Kong rumo à China, declarado como produto menos sensível.

Na chegada, oficinas especializadas se encarregam do trabalho mais delicado: separar os chips de memória HBM dos processadores. O procedimento exige equipamento caro e mão de obra experiente, e tem alto índice de falhas. “O processo é frágil e a taxa de erro é alta, mas as margens compensam”, admite um corretor em Shenzhen que atua nessa intermediação.

Além do fluxo disfarçado ao lado de processadores, o mercado paralelo também é abastecido por placas de vídeo Nvidia usadas, desmontadas para extração de componentes reutilizáveis, e por estoques excedentes de projetos cancelados ou encolhidos por outras empresas de semicondutores.

Preços disparam e encarecem projetos de IA

Com a explosão da demanda e o risco embutido na operação, o preço da memória HBM3E contrabandeada disparou. Em cerca de um ano, unidades que custavam algumas centenas de dólares passaram a ser negociadas em torno de US$ 4.000 cada. Cada chip de IA típico precisa de 6 a 8 módulos, o que leva o custo só de memória a até US$ 32.000 por processador.

Para clientes da Huawei, isso significa projetos mais caros, cronogramas mais incertos e uma dependência direta de canais informais, sem garantias de qualidade nem de continuidade do fornecimento. Na prática, data centers, desenvolvedores de modelos de IA e empresas que planejam ampliar sua infraestrutura computacional precisam decidir entre atrasar investimentos ou assumir custos e riscos adicionais ao recorrer ao mercado negro.

Internamente, a conta também pesa para a própria Huawei, que tenta manter competitividade em chips de IA de alta performance em um ambiente em que o componente crítico é escasso e regulado. A orientação para que clientes busquem a memória por fora reduz a pressão imediata sobre a cadeia de suprimentos da companhia, mas transfere parte do problema — e dos riscos legais — para parceiros e compradores.

Fiscalização aumenta e eleva tensão geopolítica

Na Coreia do Sul, autoridades alfandegárias intensificam a vigilância sobre cargas ligadas a bens estratégicos, categoria que inclui semicondutores avançados. Até maio, a aduana sul-coreana já havia identificado violações comerciais somando US$ 560 milhões, ultrapassando o recorde anual anterior, com cerca de um terço desse valor ligado a produtos estratégicos exportados sem licença ou com declarações falsas.

O avanço da repressão tende a pressionar ainda mais os preços no mercado paralelo e a tornar mais arriscadas as operações, ao mesmo tempo em que aumenta a tensão entre países envolvidos na cadeia global de chips. Cada novo aperto regulatório reforça o incentivo para que empresas chinesas acelerem o desenvolvimento de fornecedores domésticos de HBM, um movimento que exige tempo, investimento pesado e domínio tecnológico sofisticado.

Enquanto essa capacidade interna não amadurece, a combinação de sanções, escassez e contrabando expõe a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos em semicondutores e adiciona uma camada de incerteza para todo o ecossistema de IA, da pesquisa em modelos avançados à expansão de grandes data centers na China.