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Lançamentos de IA

Matt Husk desafia IA em vídeos e recusa ofertas da OpenAI e xAI

Comediante Matt Husk viraliza ao expor, em vídeos, falhas de modelos de IA como o ChatGPT. Sucesso rende assédio de OpenAI, Anthropic e xAI, mas criador recusa propostas.

Matt Husk desafia IA em vídeos e recusa ofertas da OpenAI e xAI

Tecnologia

Comediante destaca limitações da IA e rejeita convites de grandes empresas do setor.

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O comediante e criador de conteúdo Matt Husk transformou em carreira a tarefa de expor, com humor, as falhas de modelos de inteligência artificial como o ChatGPT. Depois de viralizar com vídeos em que pede para a IA contar até 100, medir tempo de corrida ou negociar o preço de um pão, ele revelou na WIRED World Fair que foi procurado por gigantes do setor como OpenAI, Anthropic e xAI, mas recusou as propostas de colaboração.

Vídeos que expõem limites da IA viram negócio

Com cerca de 2 milhões de seguidores somados em Instagram, TikTok e YouTube, Husk grava vídeos em que faz pedidos simples ou absurdos a modelos de IA, em especial à versão com voz do ChatGPT. As respostas vão de erros grosseiros a contradições curiosas, com a máquina alternando entre bajulação e um tom próximo do gaslighting, o que ajuda a explicar o alcance do conteúdo.

Em um dos vídeos mais comentados, ele pede para o modelo medir o tempo de uma corrida. A IA erra feio na contagem, transformando poucos segundos em muitos minutos. Ao ouvir a queixa de Husk — que diz ter corrido mais rápido —, o sistema responde com empatia genérica: “It can feel faster in the moment”, frase que o criador passou a citar como símbolo do descompasso entre a confiança vendida pelas empresas e o desempenho real das ferramentas.

Outra gravação mostra o chatbot tentando negociar, em um site de classificados, o preço de um pão que parte de um valor absurdo de 10 mil dólares. Husk instrui o modelo a tentar baixar para 5 dólares, mas a IA aceita pagar 400, evidenciando a dificuldade em lidar com números e barganha básica. “The way they promote it is like ‘It can do anything,’ so I’ll put it to the test—see if it can order bread for me”, provoca o criador.

Abordagens de OpenAI, Anthropic e xAI

Durante conversa pública na WIRED World Fair com o apresentador Evan Ratliff, do podcast Shell Game, Husk contou que “all the big AI companies” já o procuraram para trabalhar junto. Segundo ele, até a xAI, empresa ligada a Elon Musk, entrou na fila e chegou a colocar um carro na mesa. “All the big AI companies have inquired about working with me, including Elon Musk’s xAI, which offered a Tesla for a week if I made videos exclusively for the firm”, relatou.

A OpenAI, dona do ChatGPT, teria ido além da sondagem inicial por e-mail para propor uma colaboração em vídeo. Husk afirma que a oferta financeira foi baixa. “They offered me the smallest amount. I was just like, ‘No.’” A empresa também teria sugerido enviar presentes e pedido seu endereço residencial, iniciativa que o comediante igualmente recusou.

Como tentativa de aproximação técnica, a OpenAI ofereceu ainda acesso antecipado a uma correção para o problema de cronômetro do modelo, desde que ele compartilhasse sua conta para testes. Husk não topou. O comediante diz preferir manter distância comercial das grandes empresas de IA para seguir livre para criticar as falhas dos sistemas sem amarras contratuais.

Sam Altman admite falha: “known issue”

As críticas de Husk atravessaram a bolha do entretenimento e chegaram à cúpula da OpenAI. Em participação recente em um podcast de tecnologia, o CEO Sam Altman foi confrontado com o vídeo em que a IA erra o tempo da corrida de Husk. Altman, segundo o próprio criador, admitiu que o modelo não consegue cronometrar com precisão.

“It’s a known issue and will be for another year”, disse o executivo, classificando o problema como uma limitação já mapeada e sem solução imediata. A admissão contrasta com o discurso de marketing das empresas, que vêm promovendo os modelos mais avançados como capazes de cuidar de tarefas do dia a dia, de preparar cardápios a ajudar em matrícula escolar.

Para Husk, justamente aí está o terreno fértil para o humor. Quando ouve que a IA “pode fazer qualquer coisa”, ele responde com testes banais e situações cotidianas, como pedir para o sistema pedir pão ou negociar preços, mostrando onde o discurso otimista esbarra em resultados atrapalhados.

Do vídeo “ruim” às 100 mil visualizações

O ponto de virada da carreira de Husk com IA começou quase por acaso, enquanto ele ainda trabalhava com jardinagem e gravava vídeos de perguntas para desconhecidos. Sem muitas pessoas por perto e sem ideias, decidiu testar o chatbot em frente à câmera.

Em um dos primeiros vídeos, ele diz ao modelo que uma bomba nuclear explodiu. A resposta da IA foi tão deslocada da gravidade da situação quanto involuntariamente cômica. “The model’s response, ‘I’m rooting for you,’ and advice to take shelter ‘was not helpful at all'”, lembra Husk. Achando que o vídeo não tinha graça, ele publicou assim mesmo.

A surpresa veio no dia seguinte, quando acordou com 100 mil visualizações. Animado com o retorno, repetiu a fórmula com outra situação absurda — contar que foi atropelado por um trem — e consolidou o formato de “trollar” a IA com pedidos dramáticos ou sem sentido.

Marcas, séries e vida além dos robôs

O sucesso nas redes levou Husk a assinar com a agência de talentos Unicorn e a fechar parcerias com marcas como CeraVe e Ninja, que surfam na audiência gerada pelos vídeos com IA. Ele também desenvolve uma série original com o site de humor The Onion, em que aparece aprendendo habilidades complexas, como ser mímico, em aulas remotas.

Nessa nova fase, o criador diz querer reduzir a dependência da IA como personagem central de seu conteúdo. “I’m spending too much time talking to AI, so I’m going to branch out and learn stuff from humans”, afirma, explicando a guinada para vídeos em que interage mais com pessoas e menos com modelos de linguagem.

Embora use ferramentas de IA para sondar como elas responderiam a determinadas ideias e testar limites técnicos, Husk evita deixar que algoritmos ditem a pauta de seus roteiros. “I don’t really use it in that creative sense”, conta. “I’d rather just have my worst idea at least be my idea rather than AI’s idea for a video.”

Entenda o contexto

A explosão de popularidade de Husk acontece enquanto laboratórios de IA disputam espaço no mercado apresentando seus modelos como assistentes capazes de automatizar tarefas simples e complexas. Falhas como a incapacidade de medir tempo, calcular valores de forma lógica ou conduzir uma negociação elementar, porém, colocam em xeque a promessa de que essas ferramentas estariam prontas para uso irrestrito no cotidiano.

Na prática, os vídeos funcionam como uma espécie de auditoria pública, acessível e engraçada, sobre o que esses sistemas conseguem ou não fazer. Para o público, o resultado é um ajuste de expectativas: fica mais claro que modelos de linguagem ainda cometem erros básicos, o que exige supervisão humana em áreas sensíveis como educação, atendimento ao cliente e comércio eletrônico.

Para as empresas, o fenômeno é ambivalente. De um lado, exposição de falhas pressiona por mais investimento em pesquisa, testes e transparência. De outro, a associação com criadores virais como Husk é vista como oportunidade de melhorar a imagem, mostrar abertura à crítica e, eventualmente, transformar problemas em vitrine de melhorias futuras.

Husk, por enquanto, mantém a postura independente, recusando ofertas que considera baixas ou que impliquem exclusividade. “They offered me the smallest amount. I was just like, ‘No.’” A tendência é que a relação entre grandes laboratórios de IA e influenciadores siga se estreitando, em meio ao esforço dessas empresas para convencer o público de que, apesar das trapalhadas expostas em vídeos virais, a tecnologia ainda merece confiança.