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Inteligência Artificial

Temor de regras para IA derruba Nasdaq e bolsas globais

Nasdaq cai 5,52%, perde fôlego com medo de freio a centros de dados após vitória democrata nos EUA e arrasta US$ 3 tri em valor de mercado, contaminando Europa e Ásia.

Temor de regras para IA derruba Nasdaq e bolsas globais

Inteligência Artificial

Mercados globais recuam após preocupações com regulamentação de IA e impacto nos centros de dados nos EUA.

Leia também: Medo de restrições à IA derruba US$ 3 tri em Wall Street hoje

O Nasdaq Composite despenca 5,52% em Nova York e puxa uma correção nas ações de tecnologia ligadas à inteligência artificial, após a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato acender o alerta para regras mais duras sobre centros de dados nos Estados Unidos, derrubando US$ 3 trilhões em valor de mercado e arrastando bolsas da Europa e da Ásia.

O que causou a queda bilionária das ações de IA em Wall Street?

A forte realização começou com o medo de que o novo Congresso de maioria democrata imponha freios à expansão de centros de dados, peça-chave da infraestrutura de inteligência artificial. Na prática, investidores passaram a duvidar do ritmo de crescimento dos lucros das gigantes de tecnologia e apertaram o botão de venda.

Na quinta-feira (5), o Nasdaq Composite, referência para empresas de tecnologia, caiu 5,52%, para 24.315 pontos. O S&P 500 recuou 4,36%, para 7.353,73 pontos, e o Dow Jones cedeu 3,44%, a 51.523,06 pontos. Só o S&P 500 perdeu cerca de US$ 3 trilhões em valor de mercado em um único pregão.

As chamadas “Sete Magníficas”, grupo que reúne gigantes como Nvidia, Meta, Alphabet e Microsoft, encolheram aproximadamente US$ 800 bilhões em valor de mercado. O Nasdaq entrou em território de correção, acumulando queda próxima de 12% desde o recorde registrado em 6 de outubro.

A virada de humor veio após a confirmação de que os democratas garantiram o controle do Congresso e avançaram em estados onde cresceu a oposição à instalação de novos centros de dados, estruturas que concentram servidores, chips e consomem grandes volumes de energia e água.

Muitos dos eleitos fizeram campanha prometendo endurecer regras ambientais e urbanísticas para esses projetos. O temor é que novas licenças demorem mais, projetos sejam adiados e parte da expansão prevista simplesmente não saia do papel, afetando toda a cadeia de IA, dos fabricantes de chips às big techs.

“Pensávamos que já havíamos superado as dificuldades após a recuperação do mercado no dia seguinte às eleições de meio de mandato, mas, de repente, isso se transformou em um verdadeiro banho de sangue em Wall Street”, afirmou Jose Torres, analista da Interactive Brokers.

Queda em Nova York contagia Europa e Ásia

O tombo em Wall Street se espalha nesta sexta-feira (6) para as principais praças financeiras do mundo, num movimento de aversão a risco puxado justamente pelo setor que vinha sustentando a alta das bolsas nos últimos anos: tecnologia e inteligência artificial.

Na Europa, o índice pan-europeu STOXX 600 recua 1,80%. O DAX, da Alemanha, cai 2,35%; o CAC-40, da França, perde 1,79%; e o FTSE 100, em Londres, recua 2,29%. As bolsas europeias refletem a leitura de que qualquer freio ao ciclo de investimentos em IA nos EUA reduz a demanda global por componentes, software e energia.

Na Ásia, o efeito dominó é ainda mais visível. O Nikkei, em Tóquio, desaba 5,96%, a 57.434 pontos. O Kospi, em Seul, recua 6,02%, a 5.059 pontos, após chegar a cair 8,8% no intradia e acionar o circuit breaker — mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de quedas extremas. Em Taiwan, o Taiex cai 4,51%, a 39.701 pontos.

Outros mercados da região acompanham a maré negativa: o Straits Times, de Cingapura, perde 2,17%, a 5.181 pontos; o Hang Seng, em Hong Kong, recua 1,27%, a 24.481 pontos; os índices Xangai e CSI 300 caem 1,10% e 1,44%, respectivamente; na Austrália, o S&P/ASX 200 cede 0,49%, a 9.020 pontos.

O movimento reforça como o setor de IA virou eixo central dos fluxos globais de capital: quando a narrativa de crescimento ilimitado é colocada em dúvida, a correção não fica restrita a Nova York e passa a reprecificar ativos em vários continentes.

Por que as ações da Nvidia despencaram durante a queda do mercado?

A Nvidia perde cerca de 9% no pregão que detonou a correção no Nasdaq porque é hoje um dos símbolos máximos da aposta em inteligência artificial, com receitas diretamente ligadas ao apetite de centros de dados por chips avançados.

Com a perspectiva de que parte dos projetos de novos data centers seja atrasada ou encolhida, investidores passaram a projetar demanda menor — ou, pelo menos, mais lenta — pelos processadores da companhia. Em poucas horas, a Nvidia vê aproximadamente US$ 400 bilhões em valor de mercado evaporarem.

Outros fabricantes de semicondutores seguem o mesmo caminho. O índice setorial Philadelphia SE Semiconductor chega a cair mais de 12%, indo ao menor nível em mais de seis meses. A AMD e a Micron recuam em torno de 17% cada; Broadcom e Intel perdem pouco mais de 10%; a Qualcomm cai 9,5%, pressionada também por projeções mais fracas para vendas de chips de smartphones.

Para gestores, trata-se de uma combinação de realização de lucros após um ciclo de forte valorização e de reprecificação do risco regulatório. Alguns avaliam, porém, que o ajuste foi além da conta. “Parece que estamos na fase de capitulação das ações beneficiadas pelos investimentos em centros de dados, especialmente as de semicondutores, mas acho que a magnitude desses movimentos é exagerada”, disse Jed Ellerbroek, gestor da Argent Capital Management.

Como a queda das ações de IA impacta o mercado financeiro global?

A perda trilionária nos índices americanos aumenta a volatilidade em praticamente todos os mercados e muda, ao menos no curto prazo, a forma como investidores olham para o setor de tecnologia e para a própria inteligência artificial como motor de ganhos fáceis na bolsa.

Setores diretamente ligados à construção e operação de centros de dados sentem o tranco. Empresas de infraestrutura de IA como IREN, Applied Digital e Cipher Digital desabam mais de 14%; CoreWeave cai perto de 10%; Nebius perde cerca de 15%. Empresas de energia e de imóveis ligados a parques de dados também entram na mira, diante do risco de mais exigências ambientais e de uso do solo.

A turbulência acontece num ambiente em que os juros seguem elevados, o que já vinha pressionando ativos de crescimento. Com o novo fator político-regulatório, analistas veem aumento do chamado “prêmio de risco” exigido para investir em IA, o que pode encarecer captações e atrasar projetos.

Por outro lado, a guinada política fortalece grupos que defendem um ritmo mais lento de expansão, em nome de preocupações com consumo de energia, água, ocupação de áreas sensíveis e impacto urbano. Governadores e parlamentares democratas que fizeram campanha com esse discurso ganham espaço para emplacar leis mais rigorosas.

Especialistas em regulação lembram que uma desaceleração não significa necessariamente estagnação da IA, mas tende a reduzir a velocidade de implantação de novos serviços, pressionar margens de lucro e levar grandes empresas a rever planos, diversificar geograficamente seus investimentos e ampliar o lobby em busca de regras mais previsíveis.

O que os investidores estão dizendo sobre a recente volatilidade em Wall Street?

A avaliação dominante entre gestores é que a correção era, em parte, esperada, mas o gatilho político e a intensidade do movimento surpreenderam. “O grande resultado das eleições foi, especialmente com os democratas conquistando muitos cargos de governador, que a desaceleração da expansão dos centros de dados é o verdadeiro tema-chave que vai perdurar”, disse Michael O’Rourke, estrategista-chefe de mercado da JonesTrading.

Melissa Brown, diretora global de pesquisa de decisões de investimento da SimCorp, avalia que o mercado começa a precificar um novo cenário para o setor: segundo ela, investidores já “reconhecem que alguns membros recém-eleitos do Congresso e governadores pretendem desacelerar o ritmo do desenvolvimento da infraestrutura de IA”.

A percepção geral é de que dificilmente os projetos já aprovados serão cancelados em massa, mas novas licenças podem enfrentar caminhos mais longos e litigiosos. Para Art Hogan, da B. Riley Wealth Management, qualquer dúvida sobre a continuidade do ciclo de investimentos em centros de dados é suficiente para provocar reações “particularmente violentas” nas bolsas.

No curto prazo, o foco se volta para a agenda legislativa em Washington e para as sinalizações de governadores sobre regras locais. Enquanto não houver clareza, a expectativa é de mais pregões instáveis, com ajustes de posição em empresas de IA e em setores correlatos em todo o mundo.