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Inteligência Artificial

Medo de restrições à IA derruba US$ 3 tri em Wall Street hoje

Vitória democrata nas eleições de meio de mandato acendeu o alerta para regras mais duras e freios à expansão de centros de dados, derrubando ações de tecnologia e IA em Wall Street.

Medo de restrições à IA derruba US$ 3 tri em Wall Street hoje

Mercado Financeiro

A possibilidade de novas regulamentações impacta negativamente o setor de tecnologia e inteligência artificial nos EUA.

Leia também: Temor de regras para IA derruba Nasdaq e bolsas globais

Wall Street viveu um tombo histórico na quinta-feira (5), quando o temor de novas restrições à infraestrutura de inteligência artificial após a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato derrubou especialmente as gigantes de tecnologia e apagou cerca de US$ 3 trilhões em valor de mercado do S&P 500.

O que causou a queda trilionária em Wall Street em um dia?

A queda trilionária foi causada pelo choque político da vitória democrata, que reacendeu o medo de regras mais duras e entraves locais à construção de centros de dados, pilar da infraestrutura de IA nos EUA. O resultado das urnas na terça-feira (3), com democratas ampliando espaço no Congresso e em governos estaduais, acendeu o alerta entre investidores de que licenças podem ficar mais difíceis, projetos bilionários podem atrasar e a expansão da capacidade de computação pode perder ritmo.

Na prática, isso se traduziu numa onda de venda generalizada de ações ligadas à IA e tecnologia na sessão de quinta. O Nasdaq Composite, fortemente concentrado em empresas do setor, despencou 5,52%, para 24.315 pontos, na maior queda diária em mais de um ano e meio. O índice acumula agora quase 12% de baixa desde o recorde recente registrado em 6 de outubro, entrando oficialmente em território de correção.

O S&P 500 caiu 4,36%, fechando a 7.353,73 pontos, e o Dow Jones recuou 3,44%, para 51.523,06 pontos. Só as empresas do S&P 500 perderam juntas cerca de US$ 3 trilhões em valor de mercado em um único pregão. As chamadas “Sete Magníficas” — grupo que inclui Nvidia, Meta, Alphabet e Microsoft — encolheram aproximadamente US$ 800 bilhões.

“Pensávamos que já havíamos superado as dificuldades após a recuperação do mercado no dia seguinte às eleições de meio de mandato, mas, de repente, isso se transformou em um verdadeiro banho de sangue em Wall Street”, resumiu Jose Torres, analista da Interactive Brokers.

Como a crise afetou o mercado de tecnologia e IA em Wall Street?

A turbulência atingiu em cheio a espinha dorsal da aposta global em inteligência artificial: fabricantes de chips, operadores de centros de dados, empresas de nuvem e big techs que lideram a corrida pela tecnologia.

As ações das companhias diretamente ligadas à expansão de centros de dados e ao fornecimento de semicondutores — essenciais para treinar e operar modelos de IA — estiveram entre as maiores quedas do dia. O índice de semicondutores da Filadélfia despencou mais de 12%, refletindo o medo de que projetos de novas instalações sejam revistos, atrasados ou encolhidos diante de uma regulação mais dura.

Os centros de dados concentram grandes quantidades de servidores e chips e consomem volumes elevados de energia e água. Justamente por isso passaram a enfrentar resistência crescente de moradores e autoridades locais em dezenas de cidades americanas, preocupados com o impacto em redes elétricas e no abastecimento hídrico. “Haverá muita resistência em relação a esses centros de dados estarem localizados geograficamente no quintal de alguém, sobrecarregando a rede elétrica e os sistemas de abastecimento de água”, afirmou Bruce Zaro, diretor-gerente da Granite Wealth Management.

Analistas estimam que cerca de 30% do aumento previsto na capacidade dos centros de dados nos Estados Unidos até 2028 pode estar em risco por causa de atrasos ou paralisações em novos projetos. Isso ameaça a demanda futura por chips, servidores, equipamentos e energia, encurtando as projeções de receita para toda a cadeia da IA.

Segundo Michael O’Rourke, estrategista-chefe de mercado da JonesTrading, o resultado das eleições mudou o foco do mercado. “O grande resultado das eleições foi, especialmente com os democratas conquistando muitos cargos de governador, que a desaceleração da expansão dos centros de dados é o verdadeiro tema-chave que vai perdurar”, disse.

Entenda o contexto

A votação de meio de mandato redesenhou o mapa político dos Estados Unidos com uma guinada democrata em Washington e em governos estaduais que concentram parte relevante da infraestrutura tecnológica do país. Vários candidatos eleitos fizeram campanha defendendo reduzir o ritmo de construção de centros de dados e impor limites ao consumo de energia e água dessas instalações.

Ao mesmo tempo, comunidades locais vêm aprovando restrições ou até proibições à instalação de grandes complexos de servidores em seus territórios. O movimento expõe o conflito entre a corrida pelo avanço da IA e preocupações ambientais e de infraestrutura básica.

Para o mercado, o recado é que o caminho para erguer novos centros de dados tende a ficar mais longo e imprevisível. “Embora já existam vários centros de dados aprovados, ainda há muitos a serem licenciados. O caminho para a obtenção dessas licenças será difícil”, avaliou Bruce Zaro.

Melissa Brown, diretora global de pesquisa de decisões de investimento da SimCorp, afirma que a reação dos investidores mostra que o risco político entrou de vez no radar da IA. “Os investidores parecem estar reconhecendo que alguns membros recém-eleitos do Congresso e governadores pretendem desacelerar o ritmo do desenvolvimento da infraestrutura de IA”, disse. Para ela, mesmo que uma paralisação total seja improvável, “qualquer desaceleração gera preocupação” porque o crescimento recente do setor dependeu da construção rápida dessa infraestrutura.

Além da política, o setor já vinha sob escrutínio por causa dos custos elevados dos centros de dados, das dúvidas sobre o retorno efetivo dos investimentos bilionários e de um ambiente de juros ainda altos, que torna o financiamento de novos projetos mais caro — especialmente para empresas menores. A combinação desses fatores com o novo cenário regulatório ajudou a amplificar a correção dos preços.

O resultado é um quadro de volatilidade, em que investidores tentam recalibrar quanto de crescimento futuro em IA ainda cabe nas ações depois da forte valorização dos últimos anos. Analistas avaliam que os próximos capítulos dependerão de como os governos democratas eleitos vão desenhar, na prática, as novas regras para centros de dados — e de quão rapidamente as empresas de tecnologia conseguirão adaptar seus planos de expansão a esse novo ambiente.