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Inteligência Artificial

Brasil cria instituto de IA para clima com apoio da ONU em 2026

Brasil lidera criação do Instituto Internacional de Inteligência Artificial para o Clima, com sede em Brasília, para capacitar países em desenvolvimento no uso de IA contra a crise climática.

Brasil cria instituto de IA para clima com apoio da ONU em 2026

Inteligência Artificial

Iniciativa brasileira visa capacitar nações em desenvolvimento no uso de IA para enfrentar desafios climáticos globais.

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O Brasil lança neste 16 de novembro, durante a COP31 em Antalya, na Turquia, o Instituto Internacional de Inteligência Artificial para o Clima (AICI), uma rede global de capacitação e cooperação técnica que terá sede em Brasília e mira a redução da dependência tecnológica de países em desenvolvimento na luta contra as mudanças climáticas.

Instituto terá sede em Brasília e apoio da ONU

Proposto pelo governo brasileiro, o AICI nasce em parceria com a Unesco e com a União Internacional de Telecomunicações (UIT), ambas ligadas às Nações Unidas. A secretaria do instituto ficará em Brasília, vinculada ao Green Digital Action Hub e sob responsabilidade institucional da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que dará suporte operacional e ajudará a articular regulação e infraestrutura digital.

Segundo a Unesco, “o instituto funcionará como uma rede internacional de capacitação e cooperação técnica, conectando governos, pesquisadores, universidades e profissionais de tecnologia”. O foco são países com menos infraestrutura tecnológica e oferta de formação especializada, inicialmente na América Latina e no Sudeste Asiático.

A proposta foi apresentada pelo Brasil em negociações climáticas anteriores e ganhou corpo após ações preparatórias em cidades amazônicas. O lançamento em Antalya consolida o país como articulador de uma agenda que cruza clima, tecnologia e desenvolvimento.

Como o AICI vai atuar

O instituto trabalhará em duas frentes principais de capacitação. A primeira é voltada a gestores públicos, com temas como governança de dados, formulação de políticas climáticas, desenho de sistemas de monitoramento e uso responsável de algoritmos em políticas ambientais. A segunda mira desenvolvedores de software e cientistas de dados, com atividades práticas de programação, construção e ajuste de modelos de IA aplicados ao clima.

Entre as aplicações previstas estão o monitoramento do desmatamento, a gestão de recursos hídricos, a previsão de eventos climáticos extremos e a prevenção de desastres naturais. Um dos projetos-piloto que serão apresentados na COP31 usa inteligência artificial para apoiar ações de prevenção ao desmatamento na Amazônia.

Para reduzir barreiras de entrada, o AICI também criará uma biblioteca digital de acesso aberto com bases de dados ambientais, modelos de IA prontos para adaptação e guias técnicos desenhados para funcionar em regiões com internet instável e infraestrutura limitada.

De acordo com a Unesco, “a ideia é dar aos países em desenvolvimento condições técnicas e institucionais para criar suas próprias soluções de IA, sem depender exclusivamente de sistemas desenvolvidos e controlados por empresas estrangeiras”. A avaliação é que, ao criar competências locais, governos e instituições passam a ter mais autonomia para modelar soluções adaptadas à sua realidade climática e social.

Experiência-piloto na Amazônia

Antes do lançamento oficial, o instituto testou sua metodologia em um workshop piloto realizado em outubro de 2025, em cidades amazônicas como Manaus e Belém. O treinamento reuniu 25 participantes de oito países da região, com palestras de especialistas, estudos de caso e exercícios práticos.

A atividade serviu para ajustar conteúdos, identificar dificuldades comuns — como falta de dados padronizados e carência de infraestrutura computacional — e mapear áreas em que a cooperação regional em IA climática é mais urgente.

Entenda o contexto

A criação do AICI responde a uma dupla pressão sobre países em desenvolvimento. De um lado, essas nações são fortemente afetadas pela crise climática, com enchentes, secas, ondas de calor e aumento de desastres. De outro, dependem em grande medida de tecnologias e sistemas digitais desenvolvidos em poucos centros de poder econômico.

Ao apostar em formação e infraestrutura aberta, o instituto tenta inverter parte dessa lógica, fortalecendo capacidades locais e criando redes horizontais de troca entre universidades, órgãos públicos e centros de pesquisa. A participação ativa da Unesco e da UIT deve permitir o uso de estruturas já existentes, como programas educacionais, redes científicas, geoparques e reservas da biosfera, para ampliar o alcance das ações.

Os organizadores trabalham agora na mobilização de recursos financeiros, por meio de parcerias, redes de pesquisa e possíveis financiadores internacionais, para viabilizar o plano de trabalho previsto inicialmente para 2026 e 2027. O alcance geográfico e o número de países atendidos dependerão desse fôlego orçamentário.

IA Verde e redução do impacto ambiental

Além das aplicações climáticas diretas, o AICI quer enfrentar um problema interno à própria tecnologia que promove: o impacto ambiental da inteligência artificial. A expansão de modelos cada vez maiores pressiona o consumo de energia e água, com aumento da pegada de carbono associada a centros de dados e processamento.

Por isso, o instituto adotará como referência a chamada IA Verde, que busca reduzir o consumo de recursos naturais em toda a cadeia da tecnologia. Um estudo da Unesco em parceria com a University College London (UCL) apontou que “o uso de modelos menores, especializados em tarefas específicas, e de instruções otimizadas pode reduzir o consumo de energia em até 90% em determinadas condições”.

Esses resultados não são meta numérica do AICI, mas servem como base científica para orientar boas práticas que serão disseminadas na rede de parceiros. A expectativa é que desenvolvedores e gestores públicos sejam estimulados a optar por arquiteturas mais enxutas, códigos mais eficientes e estratégias de uso que gastem menos energia.

Impacto para o Brasil e para países em desenvolvimento

Com a secretaria do AICI instalada em Brasília, o Brasil reforça sua posição em fóruns internacionais que discutem clima e tecnologia. O Green Digital Action Hub, ao qual o instituto ficará vinculado, foi concebido para aproximar o setor digital das metas climáticas globais e ganha agora um braço dedicado à inteligência artificial.

Na prática, a iniciativa pode transformar a forma como governos de países em desenvolvimento desenham e executam políticas climáticas baseadas em dados. Ao formar quadros técnicos locais, o AICI tende a reduzir custos com contratação de soluções prontas no exterior, aumentar a transparência sobre o funcionamento dos modelos de IA usados em políticas públicas e favorecer soluções adaptadas a realidades específicas, como florestas tropicais, megacidades costeiras e regiões semiáridas.

Para a Unesco e a UIT, o instituto é uma oportunidade de ampliar programas de cooperação técnica já existentes, conectando agendas de inclusão digital, infraestrutura de telecomunicações e ação climática. Durante a COP31, as instituições vão detalhar o plano de trabalho inicial, áreas prioritárias e formas de participação de governos, universidades, centros de pesquisa e eventuais financiadores privados interessados em apoiar a iniciativa.