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Inteligência Artificial

Wall Street perde US$ 3,2 tri e aposta em IA cai 5% nesta semana

Nasdaq 100 cai 4,9% na semana e fabricantes de chips lideram perdas após eleições de meio de mandato nos EUA reacenderem temor regulatório e reverem boom da IA.

Wall Street perde US$ 3,2 tri e aposta em IA cai 5% nesta semana

Mercado Financeiro

Nasdaq 100 registra queda significativa, com fabricantes de chips sofrendo após eleições nos EUA e preocupações regulatórias.

Leia também: EUA ligam Jensen Huang a suspeita de espionagem chinesa

Uma perda de US$ 3,2 trilhões em valor de mercado nesta semana derrubou a grande aposta de Wall Street em inteligência artificial, com o Nasdaq 100 afundando mais de 6% na quinta-feira (5) e fechando a semana em queda de 4,9%, na esteira de incertezas políticas e econômicas após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

Por que a aposta de Wall Street em inteligência artificial entrou em colapso?

A aposta desandou porque o mercado deixou de enxergar a IA como um projeto com “cheque em branco”, diante de um novo ambiente regulatório e de custos mais altos de energia e financiamento, justamente quando os preços embutiam um cenário quase perfeito.

O movimento ganhou força depois da chamada onda azul nas eleições de meio de mandato, que levou governadores democratas a estados estratégicos para o setor de tecnologia, como o Texas. A expectativa entre investidores é de mais barreiras à construção de data centers e de uma postura mais dura em relação aos impactos da IA sobre consumo de energia, uso de água, uso de dados e mercado de trabalho.

“As eleições de meio de mandato acabaram com a suposição de que haveria um cheque em branco para a IA”, afirmou Ludovic Subran, diretor de investimentos da Allianz. Segundo ele, o mercado descobriu na marra que “o céu é o limite” não é metodologia aceitável para avaliar empresas.

Na prática, fundos de hedge começaram a desmontar posições alavancadas em ações de tecnologia e fabricantes de chips, enquanto investidores pessoa física correram para vender papéis. Nas duas primeiras horas do pregão de quinta-feira, as saídas líquidas desse grupo somaram US$ 388 milhões em ações individuais, no maior movimento de venda desde a pandemia, o que acelerou a correção de preços.

Um executivo do setor de ações descreveu a dinâmica como um processo em cadeia: “É como uma reação química. Você tem um, dois, três elementos e, então, ocorre uma explosão. A eleição foi o elemento explosivo”.

Como o colapso da aposta em IA afetou o mercado financeiro americano?

O impacto imediato foi uma perda de US$ 3,2 trilhões no mercado acionário dos EUA, com forte concentração nos papéis de tecnologia e semicondutores listados no Nasdaq 100.

Na quinta-feira, o índice, fortemente exposto a grandes empresas de tecnologia, recuou mais de 6%, em um dos piores dias já registrados para fabricantes de chips. Houve recuperação parcial na sexta-feira (6), com alta de 1,4%, mas insuficiente para evitar o tombo semanal de 4,9%.

Por trás dos números, houve um ajuste brusco de risco. Fundos de hedge foram obrigados a “reduzir a exposição bruta”, encerrando apostas alavancadas em empresas ligadas à IA. O movimento, típico de momentos de estresse, alimentou ainda mais a queda dos preços. Operadores descrevem um pregão guiado pelo medo e pela necessidade de levantar caixa após perdas concentradas na tese da IA.

Ao mesmo tempo, os títulos de dívida de empresas mais arriscadas do ecossistema, como as chamadas neoclouds — companhias que dependem fortemente do boom de data centers —, também passaram a sofrer, reforçando o temor de um acerto de contas no crédito.

“O que mais nos preocupa é que executar todo esse [investimento de capital] será mais complicado com… mais atrasos e todas essas restrições”, disse Stephen Jones, gestor da Aegon Asset Management, em referência ao pacote estimado de US$ 1 trilhão em investimentos em IA previstos para o próximo ano.

Setor de chips no centro da correção

As fabricantes de semicondutores ficaram no olho do furacão porque são o elo mais direto entre o entusiasmo com IA e a economia real. O salto recente de lucros e projeções do setor vinha embalado por encomendas bilionárias de chips para treinar modelos de IA, abastecer supercomputadores e ampliar data centers.

Com a perspectiva de restrições à construção dessas estruturas e o custo do dinheiro mais alto, investidores passaram a questionar se a demanda prevista para os próximos anos vai de fato se concretizar no ritmo imaginado. O que parecia um ciclo de crescimento contínuo passou a ser visto como uma trajetória sujeita a atrasos, licenças mais difíceis e custos de energia e financiamento ainda maiores.

A temporada de balanços do terceiro trimestre já tinha sinalizado desconforto: gigantes de tecnologia prometeram planos agressivos de investimento em infraestrutura de IA, mas entregaram receitas fracas nos negócios principais, como publicidade digital, vendas de dispositivos e serviços em nuvem mais maduros. Com o baque político desta semana, esse ruído virou correção generalizada.

Entenda o contexto

A semana começou com forte otimismo em Nova York. Na quarta-feira (4), logo após o resultado incontestável das eleições legislativas e de governos estaduais, as ações de tecnologia subiram, embaladas pela queda do petróleo e pela leitura de que um possível arrefecimento da guerra no Oriente Médio poderia aliviar pressões sobre custos.

Uma grande instituição chegou a escrever, em nota a clientes, que “embora os riscos em torno tanto do Irã quanto do financiamento da IA provavelmente continuem presentes, acreditamos que os investidores já reduziram suficientemente sua exposição ao risco e que as ações podem subir”. Esse clima durou pouco.

Na quinta-feira, o petróleo voltou a subir, reacendendo temores inflacionários e de juros altos por mais tempo. Ao mesmo tempo, o foco mudou para o efeito concreto da nova composição política sobre a agenda de IA. Governadores democratas eleitos em estados com grandes projetos de data centers sinalizam mais rigor ambiental e regulatório, o que pode desacelerar o fluxo do pacote de até US$ 1 trilhão em investimentos na área.

Para Nikhil Srinivasan, da gestora Benzaiten Macro, a consequência é um freio na narrativa que vinha sustentando Wall Street: “A tese de investimento em IA foi desvalorizada. As ações precificam o futuro, e o futuro para além dos próximos anos agora é uma incógnita”. Na visão dele, o crescimento da economia americana já começa a ser revisto para baixo em função da provável desaceleração desses investimentos.

Risco político, crédito apertando e futuro da tese de IA

A turbulência desta semana expôs a fragilidade de um rali alimentado por poucos nomes e uma única história: a de que a inteligência artificial sustentaria, ao mesmo tempo, lucros crescentes para empresas de tecnologia e um novo ciclo de expansão para a economia dos EUA.

Agora, investidores se veem diante de um cenário de “marcha à ré dupla”: de um lado, perspectivas de receita e margens mais comprimidas para empresas envolvidas com IA e infraestrutura digital; de outro, a necessidade de recalibrar a contribuição da tecnologia para o crescimento do PIB, num contexto de petróleo mais caro e juros elevados.

No curto prazo, a avaliação predominante é que a volatilidade deve continuar, com mais ajustes em posições alavancadas e possível aperto adicional nas condições de crédito para empresas mais dependentes do ciclo da IA, especialmente as menores e mais endividadas. No médio prazo, cresce a busca por setores considerados defensivos e por companhias menos expostas à combinação de regulação, energia cara e capital mais restrito.

Entre gestores, há divisão sobre a intensidade do ajuste à frente. Parte do mercado considera que o choque político foi superdimensionado e que o fluxo de projetos em andamento evitará uma ruptura brusca no curto prazo. Outros veem na correção um sinal de fim de ciclo.

“Acho que o mercado vai cair a partir daqui. Ele pode subir nesta semana, na próxima… mas ainda vai cair mais”, projeta Srinivasan. O consenso, por ora, é que a história da IA continua em construção, mas, para os preços em Wall Street, o recado desta semana foi claro: a nova fronteira da tecnologia também tem limite.