NYT Cooking lança IA que personaliza receitas em segundos no app
NYT Cooking estreia ferramenta de IA no app para iOS que adapta receitas a utensílios, ingredientes e dietas. Recurso gera crítica de assinantes, mas funciona bem em testes.

Tecnologia
Nova ferramenta usa inteligência artificial para ajustar receitas conforme utensílios, ingredientes e preferências dietéticas dos usuários.
Leia também: Trio é acusado de usar deepfake para roubar US$ 129 mi nos EUA
O NYT Cooking passou a oferecer uma ferramenta de inteligência artificial que personaliza receitas para assinantes no aplicativo de iOS, ajustando ingredientes, utensílios e necessidades dietéticas sem abandonar o espírito do prato original. O recurso, lançado em versão beta e apresentado como um assistente da equipe editorial, já provoca reação forte entre leitores, mas mostrou bom desempenho nos primeiros testes práticos.
Como funciona a IA que adapta receitas no NYT Cooking
No app, um campo “customize esta receita” aparece logo acima da lista de ingredientes. É ali que o usuário descreve o que precisa: trocar carne de porco por carne bovina, adequar para uma restrição alimentar, compensar a falta de uma forma específica ou ajustar quantidades de acordo com o que tem na despensa.
Um modelo de linguagem de grande porte entra em ação consultando, em sequência, a receita original, o guia interno de substituições de ingredientes, comentários de usuários e a própria bagagem editorial acumulada pelo time de culinária. Com isso, a IA gera uma versão adaptada da receita, sem reescrevê-la do zero.
Todas as mudanças são sinalizadas em vermelho-alaranjado ao longo do texto, do título ao passo a passo. O usuário pode alternar entre a versão original e a personalizada, e vê um aviso claro de que aquela nova variação “não foi testada nem endossada” pelos autores da receita, o que preserva a distinção entre o conteúdo desenvolvido e aprovado pela redação e as sugestões criadas pela máquina.
Na prática, a ferramenta é usada principalmente para substituições simples de ingredientes e equipamentos, ajustes para alergias ou dietas específicas, escalonamento de porções e conversão de medidas. Se o pedido for viável — por exemplo, adaptar um pão de banana para outra assadeira — a IA redistribui tempos de forno, quantidades de gordura ou líquido e demais detalhes técnicos. Se a exigência descaracteriza o prato, o sistema recusa e oferece um caminho alternativo.
Segundo Camilla Velasquez, gerente geral do NYT Cooking, um dos cuidados foi ensinar a IA a dizer “não” quando a mudança desvirtua completamente a proposta da receita. “We put a lot of effort into trying to tell you when not to do something if it’s no longer in the spirit of the recipe”, afirma. Há casos em que o usuário tenta, por exemplo, transformar um prato salgado em sobremesa; nesses cenários, o sistema faz um “desvio forçado” e direciona para outra receita mais compatível.
Entenda o contexto
A aposta em IA vem depois de experiências mais discretas na mesma plataforma, como a automatização de escalonamento de receitas — transformar uma preparação “para 4 pessoas” em “para 6”, por exemplo — e a conversão entre sistemas de medidas, de xícaras e colheres para gramas e mililitros, ou de temperaturas em Fahrenheit para Celsius.
A diferença agora é que a tecnologia passa a interferir diretamente na estrutura das receitas, área considerada sensível por veículos especializados. Desenvolver preparos confiáveis, saborosos e repetíveis em casa exige testes intensivos e uma equipe robusta, algo que o NYT Cooking mantém com cerca de 60 profissionais entre editores, redatores, jornalistas de vídeo e outros cargos ligados à cozinha.
Na fase de desenvolvimento da nova função, esse time não ficou à margem. Velasquez explica que os editores de receitas ajudaram a definir o conjunto de regras seguido pela IA e depois avaliaram, na prática, como a ferramenta se comportava diante de pedidos reais. A ideia era preservar o tom e a clareza das instruções originais, mesmo quando a estrutura do prato fosse ajustada.
Em testes relatados por quem experimentou a novidade, a IA demonstrou bom senso técnico: ao trocar coxas de frango com osso e pele por peito sem osso nem pele, reduziu o tempo de cozimento e acrescentou manteiga para compensar a gordura perdida, inserindo essas mudanças nos pontos certos do modo de preparo. Em outra receita, ajustou o corte e o tempo de forno de legumes extras, como abóbora, para que tudo terminasse de assar ao mesmo tempo.
Assinantes criticam IA e NYT desliga comentários
Apesar dos cuidados, a recepção inicial foi dura. A matéria que anunciou o lançamento do recurso somou 172 comentários em poucos dias, quase todos críticos, com assinantes questionando a necessidade da ferramenta, ameaçando cancelar a assinatura e pedindo formas de desligar a IA. Diante da escalada de insatisfação, a seção de comentários desse texto foi temporariamente desativada.
As reações expõem o desconforto de parte do público com o avanço da inteligência artificial em áreas tradicionalmente ligadas à sensibilidade humana, como a cozinha. Também tocam em um ponto sensível da indústria de mídia: o temor de que a automação acabe reduzindo vagas e colocando em risco a voz de colunistas e chefs que os leitores acompanham há anos.
Camilla Velasquez tenta rebater esses receios ao enfatizar que a ferramenta não foi criada para substituir ninguém. Ela afirma que a IA deve ser vista como apoio pontual, não interlocutor principal. “You shouldn’t be chatting with it”, resume, reforçando que o objetivo é resolver problemas específicos no preparo, e não virar um chatbot de conversas soltas sobre comida.
Questionada diretamente sobre o impacto na equipe, ela diz que o NYT Cooking está em fase de expansão, não de cortes. Segundo Velasquez, o time “has been hiring more than ever” e há “zero intention of publishing fewer recipes”. A mensagem dirigida aos assinantes é de que a base de receitas testadas e a presença de jornalistas e cozinheiros de carne e osso continuam no centro do produto.
Ferramenta mira escala, engajamento e futuras expansões
A aposta em tecnologia acontece em uma plataforma com alcance considerável. De acordo com o diretor executivo de comunicações do NYT, Jordan Cohen, o site e o app do NYT Cooking registraram 514 milhões de visitas recentes em um único ano, e o canal de YouTube da marca soma mais de 1,4 milhão de inscritos. O volume ajuda a explicar por que qualquer mudança no produto, especialmente envolvendo IA, ganha tanta visibilidade e suscita reações fortes.
Para a redação, a nova função é uma forma de lidar com uma demanda antiga dos leitores — adaptar receitas ao que se tem em casa — sem abrir mão do controle de qualidade. Ao concentrar as sugestões em uma única camada visualmente separada do texto original, o NYT tenta manter intacta a biblioteca de receitas testadas, ao mesmo tempo em que abre espaço para infinitas variações geradas sob medida.
Internamente, o resultado dos testes é visto como sinal de que o recurso pode ser refinado e ampliado no futuro, inclusive para além do iOS. A tendência é que a equipe siga calibrando a IA a partir do uso real: quais pedidos aparecem com mais frequência, onde as sugestões funcionam melhor e em que ponto a ferramenta ainda erra o tom — seja por detalhes técnicos, seja por interferir demais na “voz” do autor da receita.
O equilíbrio entre tecnologia e tradição editorial no NYT Cooking é observado de perto por outros projetos de culinária digital, em um momento em que empresas do setor avaliam como incorporar IA sem diluir a identidade das marcas. O sucesso ou fracasso dessa experiência deve influenciar se, e como, ferramentas semelhantes chegarão a outras cozinhas digitais mundo afora.


