Gás mais barato na Bahia expõe guerra por botijões
Redução de 7,1% no GLP em Mataripe deve baratear em até R$ 4 o botijão de 13 kg na Bahia, enquanto importação recorde de botijões da China racha o setor.
Economia
Queda no preço do GLP em Mataripe impacta o custo do botijão de 13 kg, intensificando a disputa no mercado baiano.
O preço do gás de cozinha começa a cair na Bahia desde 1º de julho de 2026, após a Refinaria de Mataripe reduzir em 7,1% o valor do GLP vendido às distribuidoras. A mudança alivia o bolso das famílias baianas, mas ocorre em paralelo a uma disputa nacional acirrada em torno da importação de botijões, que envolve fabricantes, distribuidoras e programas sociais do governo federal.
Queda na refinaria, alívio gradual nas casas
Administrada pela Acelen, a Refinaria de Mataripe reduz o preço da tonelada de gás liquefeito de petróleo, o GLP usado no botijão, de R$ 4.281 para R$ 3.985. O corte vale desde sábado, 1º de julho, e atinge diretamente as distribuidoras que abastecem o estado.
Nas revendas, a expectativa é de repasse parcial e aos poucos. O presidente do Sindicato dos Revendedores de Gás de Cozinha da Bahia (Sindrevgás), Roberto Souza, calcula um alívio palpável no fim da cadeia. “A queda no preço praticado pelas revendedoras deve ficar entre R$ 3 e R$ 4 por botijão”, afirma.
Esse repasse, porém, não é imediato. As revendedoras ainda escoam estoques adquiridos a preços mais altos. Só quando esses lotes acabam a redução aparece de forma mais clara para o consumidor, em especial para famílias que dependem do botijão de 13 quilos para cozinhar diariamente.
A Acelen informa que seus preços seguem critérios de mercado, com base na cotação internacional do petróleo, na variação do câmbio e nos custos de transporte. O ajuste, segundo a empresa, responde a esse conjunto de fatores, não a uma decisão isolada de política pública.
Programa social puxa demanda e abre porta à China
O alívio no preço do gás na Bahia convive com um estresse em outra ponta da cadeia: o fornecimento de botijões. O programa federal Gás do Povo, voltado a famílias em situação de vulnerabilidade, amplia o número de lares atendidos e, com isso, pressiona a demanda por recipientes.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, o programa já alcança cerca de 15 milhões de famílias. Cada novo benefício implica botijões adicionais em circulação, tanto para equipar lares que não tinham gás de cozinha quanto para reforçar a reposição do parque existente.
Esse movimento abre espaço para a entrada de produtos importados. No primeiro semestre de 2026, distribuidoras brasileiras compram 515 mil botijões de 13 quilos no exterior, mais de 90% vindos da China. Em 2025 inteiro, o total importado soma apenas 9,9 mil unidades.
O salto é de mais de 52 vezes em um ano e faz com que, em seis meses, quase um quinto dos novos botijões que entram no mercado seja de origem estrangeira. Para as distribuidoras, trata-se de uma resposta necessária à escalada da demanda puxada pelo Gás do Povo.
Indústria nacional reage e pede proteção
O avanço chinês acende o sinal de alerta na indústria brasileira de botijões. Em maio, fabricantes como Mangels e Aratell formalizam ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) um pedido para elevar a tarifa de importação sobre botijões de GLP de 12,6% para 25% por pelo menos 12 meses.
Líder do mercado, com cerca de 30% de participação, a Mangels aponta um desequilíbrio tributário criado após o aumento do imposto de importação do aço para 25% em 2024. O aço é a principal matéria-prima dos botijões produzidos no país. “A assimetria entre o custo da matéria-prima e o preço do produto final importado pode comprometer a viabilidade da produção local”, argumenta a empresa.
A Aratell, que detém cerca de 25% do mercado, reforça a preocupação. Segundo a fabricante, “o avanço chinês sobre o setor poderá resultar em perdas de emprego e menor investimento em produção e tecnologia”. Juntas, as duas companhias respondem por mais da metade dos botijões produzidos no país e afirmam ter margem para ampliar a oferta.
A Mangels calcula que a demanda adicional real em 2026 fique entre 900 mil e 1 milhão de botijões, número que, diz, a indústria nacional consegue suprir. A capacidade instalada pode chegar a 12 milhões de unidades por ano, segundo a empresa, caso haja previsibilidade de demanda e proteção mínima contra importados.
Distribuidoras temem desabastecimento
Do outro lado do balcão, as distribuidoras de gás veem na proposta de aumento de tarifa um risco à continuidade do programa social e ao abastecimento de gás de cozinha. O Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás), que reúne empresas como Amazongás, Consigaz, Copa Energia, GasLog, Nacional Gás, Supergasbras e Ultragaz, reage ao pleito das fabricantes.
Em nota, a entidade afirma que “a medida ocorre justamente em um momento de forte expansão da demanda por recipientes, impulsionada pelo programa Gás do Povo”. O sindicato defende a importação como forma de ganhar tempo até que a indústria nacional acompanhe o ritmo da procura.
O Sindigás calcula que, além da reposição habitual de botijões — cerca de 2% ao ano, o que equivale a 2,6 milhões de unidades —, o programa Gás do Povo exige um reforço muito maior. “Para atender os novos beneficiários do programa seriam necessários aproximadamente 10,5 milhões de novos botijões”, estima a entidade.
Somados os dois volumes, a demanda poderia ultrapassar 13 milhões de recipientes, ou cerca de 8% de todo o parque nacional. Com base nesse cenário, as distribuidoras não apenas se opõem ao aumento de tarifa como pedem a redução ou até isenção do imposto de importação, alegando risco de desabastecimento caso a oferta de novos vasilhames não acompanhe o ritmo do programa social.
Entre o preço do botijão e a política industrial
A disputa coloca o governo em posição delicada. O MDIC analisa, em paralelo, o pedido das fabricantes por tarifa maior e o pleito das distribuidoras por isenção. O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social acompanha de perto, atento ao impacto sobre famílias que dependem do Gás do Povo para garantir o preparo de alimentos.
Uma decisão que aumente a proteção à indústria pode significar botijões mais caros e menor presença de produtos chineses, com possível reflexo no ritmo de ampliação do programa social. Uma sinalização favorável à importação tende a segurar preços, mas pressiona empregos e investimentos nas fábricas nacionais.
No curto prazo, o consumidor baiano sente primeiro o efeito mais positivo: a redução de até R$ 4 no botijão de 13 quilos, resultado direto da queda de 7,1% no preço do GLP em Mataripe. No médio prazo, porém, a disponibilidade de recipientes e a definição sobre tarifas de importação podem pesar tanto quanto a cotação do petróleo na conta de gás.
As próximas semanas devem ser decisivas. O governo precisa arbitrar um conflito que opõe metas de política industrial a um programa social de grande alcance. Enquanto a decisão não sai, fábricas ajustam turnos, distribuidoras mantêm contratos de importação, e famílias em todo o país seguem à espera de um botijão mais barato e garantido à porta de casa.
Como o programa do governo impactou a importação de botijões de gás da China?
O Gás do Povo ampliou o número de famílias atendidas, exigindo milhões de novos botijões. A indústria nacional não acompanhou o salto imediato e distribuidoras recorreram ao exterior. Com isso, as importações de botijões, em sua maioria chineses, passaram de 9,9 mil unidades em 2025 para 515 mil apenas no primeiro semestre de 2026.
Qual é a diferença entre GLP e GN no contexto do abastecimento doméstico?
O GLP é o gás liquefeito de petróleo, vendido em botijões, mais comum em áreas sem rede encanada. O GN é o gás natural, distribuído por tubulações, mais presente em grandes centros urbanos. Ambos servem para cozinhar, mas têm composições e formas de distribuição distintas.


