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Economia

Acionistas da Nissan exigem volta de Carlos Ghosn após fuga

Em meio a queda nas vendas e perda de valor de mercado, assembleia de acionistas da Nissan resgata o nome de Carlos Ghosn e expõe crise de confiança na direção.

27/09/2026 16:00 7 min de leitura
Acionistas da Nissan exigem volta de Carlos Ghosn após fuga
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Economia

Acionistas da Nissan pedem retorno de Ghosn para restaurar confiança e reverter perdas financeiras da empresa.

Carlos Ghosn volta ao centro da crise da Nissan. Em assembleia recente no Japão, acionistas, em voz alta, pedem o retorno do ex-CEO que hoje vive no Líbano.

O movimento, derrotado na votação, rompe o padrão de discrição corporativa no país e escancara a desconfiança em relação à gestão atual, comandada por Ivan Espinosa.

Do “Cost Killer” à prisão em Tóquio

Ghosn nasce em Porto Velho e inicia a carreira na Michelin em 1978. Aos 30 anos já comanda a operação sul-americana, num Brasil em hiperinflação. Em 1989, assume a Michelin North America, nos Estados Unidos.

Em 1996, é contratado pela Renault. Três anos depois, a montadora francesa compra participação na Nissan e envia o executivo ao Japão para salvar uma empresa endividada e em perda acelerada de mercado.

Ghosn fecha fábricas, corta custos, rompe práticas tradicionais da indústria japonesa e devolve a Nissan ao lucro. Ganha o apelido de “Cost Killer” e vira celebridade, a ponto de ter sua trajetória contada em mangá.

Em 2001, assume o comando executivo da Nissan. Em 2005, passa a acumular também o cargo de CEO da Renault, algo raro na indústria global. Em 2016, a Nissan compra 34% da Mitsubishi Motors, e Ghosn passa a liderar a aliança de três montadoras.

Acusação, conspiração e fuga cinematográfica

A trajetória muda em novembro de 2018, com a prisão em Tóquio. Promotores o acusam de subdeclarar remuneração e usar recursos da Nissan em benefício próprio. Ghosn nega e fala em conspiração dentro da empresa, apoiada por autoridades japonesas incomodadas com o peso da Renault e do governo francês.

Após meses detido e depois em liberdade sob fiança, com forte vigilância, ele executa uma fuga cinematográfica em dezembro de 2019: deixa sua casa, entra em uma caixa de equipamento musical e embarca em um jato particular.

A operação conta com Michael Taylor e Peter Taylor, ex-integrantes das forças especiais americanas. O avião faz escala na Turquia e segue até Beirute, onde Ghosn se estabelece e permanece hoje, sem acordo de extradição com o Japão.

Os Taylor acabam presos e extraditados para Tóquio. A imagem de Ghosn, antes símbolo de eficiência, passa a dividir o mundo corporativo entre quem o vê como fugitivo e quem o enxerga como vítima de uma disputa de poder.

Nissan encolhe e nostalgia por Ghosn cresce

Quando Ghosn cai, a Nissan ainda vende cerca de 5,5 milhões de veículos por ano, mesmo com críticas ao foco excessivo em volume. Hoje, as vendas globais recuam para cerca de 3,15 milhões de unidades.

A empresa perde valor de mercado, anuncia sucessivos planos de reestruturação, troca de comando e fechamento de capacidade produtiva. Continua atrás das rivais na corrida dos veículos elétricos e sente o avanço agressivo das montadoras chinesas.

O novo CEO, Ivan Espinosa, assume um tabuleiro complexo. Precisa acelerar a eletrificação, fechar parcerias em robotáxis, como com Uber e Wayve, reduzir custos, simplificar operações globais e, ao mesmo tempo, convencer investidores de que a Nissan ainda pode competir com relevância.

Dentro desse cenário, a assembleia recente escancara o descontentamento. Um acionista pede em plenário o retorno de Ghosn. Outros criticam a direção por não entregar resultados, num país em que confrontos abertos com a administração em assembleias são raros.

Ghosn reage do Líbano e faz autocrítica tardia

De Beirute, Ghosn acompanha cada movimento. Ao comentar a revolta dos acionistas, ele não esconde o orgulho. “É uma reação com muito bom senso. Dá para sentir a raiva e a frustração dos acionistas”, afirma.

O ex-CEO sustenta que três sucessores fracassam em revitalizar a empresa e sugere que só uma liderança forte, disposta a decisões duras, poderia reverter a situação. Na prática, volta a se colocar como alternativa, embora reconheça que dificilmente será chamado.

Ao mesmo tempo, faz uma autocrítica calculada. “Talvez meu maior erro tenha sido não me aposentar depois de assegurar a Aliança Renault-Nissan e concluir a recuperação que originalmente havia sido levado para executar”, admite.

Longe das salas de reunião, ele tenta reinventar a própria influência. Mantém a newsletter The Carlos Ethos, produz conteúdo em inglês sobre gestão e carreira e usa a experiência acumulada em fábricas, fusões e crises como laboratório para teoria de liderança.

Governança em xeque e futuro da aliança

A pressão por seu retorno funciona como sintoma, não como solução. Investidores associam o nome de Ghosn a um período de recuperação rápida e lucros robustos, enquanto veem a gestão atual patinar. A memória seleciona o auge e tende a suavizar os erros.

A crise atual, porém, é diferente da virada conduzida por Ghosn no início dos anos 2000. A Nissan hoje enfrenta um setor em transformação acelerada, com eletrificação, software, serviços de mobilidade e players chineses redefinindo preços e margens.

A aliança entre Renault, Nissan e Mitsubishi também entra em zona de tensão. O governo francês, acionista relevante da Renault, observa com prudência. Decisões sobre investimentos conjuntos, plataformas e desenvolvimento de tecnologias de ponta passam a depender de uma confiança que se desgasta.

O caso Ghosn continua, assim, a atravessar fronteiras: expõe o choque entre modelos de governança, levanta dúvidas sobre o sistema judicial japonês e alimenta debates sobre até onde vai o poder de um executivo em conglomerados globais.

O desfecho ainda é aberto. A Nissan precisa mostrar rapidamente que consegue se reinventar sem o homem que um dia a salvou. Se falhar, a assembleia em que seu nome ressurge com força pode ser lembrada como o início de uma nova reviravolta na história da montadora.

Onde está Carlos Ghosn hoje?

Carlos Ghosn vive hoje em Beirute, no Líbano, para onde viaja após fugir do Japão em um jato particular. O país não tem acordo de extradição com as autoridades japonesas, o que na prática o protege de ser levado de volta para julgamento. De lá, ele atua como comentarista de gestão.

O que aconteceu com Carlos Ghosn na Nissan?

Carlos Ghosn comanda a reestruturação da Nissan após a entrada da Renault em 1999, vira CEO em 2001 e símbolo de recuperação. Em novembro de 2018, é preso no Japão sob acusações de irregularidades financeiras, que nega. A crise leva à sua queda, à ruptura com antigos aliados e a uma disputa aberta por poder.

Como foi a fuga de Carlos Ghosn do Japão?

Carlos Ghosn foge do Japão em dezembro de 2019 escondido em uma caixa de equipamento musical, embarcada em um jato particular. A operação envolve o ex-militar americano Michael Taylor e seu filho Peter, que coordenam a saída da casa vigiada, o embarque, uma escala na Turquia e a chegada final ao Líbano.

Por que acionistas da Nissan querem o retorno de Carlos Ghosn?

Acionistas da Nissan pedem o retorno de Carlos Ghosn porque veem a empresa encolher de cerca de 5,5 milhões para 3,15 milhões de veículos vendidos por ano e perder valor de mercado. A atual gestão, liderada por Ivan Espinosa, não consegue entregar recuperação convincente, e o ex-CEO simboliza um período de lucros e expansão.

Qual o impacto da prisão de Carlos Ghosn na crise da Nissan?

A prisão de Carlos Ghosn aprofunda a crise da Nissan ao expor uma disputa de poder interna e abalar a confiança na governança da montadora. Desde sua saída, a empresa troca de comando, corta capacidade, perde competitividade em veículos elétricos e vê vendas globais caírem para 3,15 milhões, alimentando frustração entre investidores.


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