Crise da Nissan faz acionistas pedirem volta de Carlos Ghosn hoje
Assembleia de acionistas da Nissan, em meio a forte queda nas vendas, recoloca Carlos Ghosn no centro do debate e expõe a fragilidade da atual gestão.
Economia
Acionistas da Nissan pressionam por mudanças na liderança diante da queda nas vendas e da crise interna.
O nome de Carlos Ghosn volta ao centro da cena na Nissan, em plena assembleia anual de acionistas marcada por cobrança dura contra a atual diretoria. Em meio a um declínio prolongado nas vendas e na relevância global da montadora, investidores chegaram a pedir em voz alta o retorno do executivo brasileiro-libanês que um dia salvou a companhia da beira da falência.
A cena expõe a profundidade da crise. A Nissan vende hoje cerca de 3,15 milhões de veículos por ano, bem abaixo dos 5,5 milhões registrados antes da derrocada recente, e enfrenta concorrentes chineses agressivos na eletrificação. A frustração dos acionistas se traduz em pressão direta sobre a gestão de Ivan Espinosa, novo CEO, e em uma reavaliação pública do legado de Ghosn.
Da ascensão meteórica ao pedido de volta
Carlos Ghosn nasce em Porto Velho, Rondônia, filho de libaneses, e começa a construir sua trajetória na Michelin em 1978. Três anos depois, já comanda uma fábrica na França. Em 1985, assume a operação sul-americana, em um Brasil de hiperinflação, e recoloca o negócio no azul. Em 1989, muda-se para os Estados Unidos para presidir a Michelin North America.
Em 1996, é contratado pela Renault. Três anos mais tarde, quando a montadora francesa compra uma participação relevante na Nissan, Ghosn é enviado ao Japão para reerguer uma empresa endividada, com queda de participação de mercado e risco real de colapso. O plano passa por fechar fábricas, cortar custos e mexer em hábitos enraizados do capitalismo japonês. O executivo ganha o apelido de “cost killer” e vira celebridade, a ponto de ter a história contada em mangá.
Em 2001, Ghosn assume o comando executivo da Nissan. Em 2005, acumula a chefia da Renault e passa a pilotar simultaneamente duas gigantes globais. Em 2016, consolida a aliança com a compra de 34% da Mitsubishi Motors pela Nissan, criando um triângulo industrial que domina mercados em três continentes. Durante anos, é tratado como exemplo máximo de gestor global, símbolo de integração entre culturas e de recuperação de empresas em crise.
Prisão, fuga cinematográfica e exílio no Líbano
A curva muda de direção quando Ghosn é preso em Tóquio, em novembro de 2018, sob acusações de subdeclarar remuneração e usar recursos da Nissan em benefício próprio. Promotores japoneses apontam dezenas de milhões de dólares em supostas irregularidades. O executivo nega desde o início, e sustenta que é vítima de uma conspiração interna para barrar uma integração maior com a Renault, apoiada pelo governo francês, acionista da parceira europeia.
Depois de meses alternando prisão e liberdade sob fiança, Ghosn protagoniza uma fuga que parece saída de roteiro de cinema. Em dezembro de 2019, deixa o Japão escondido em uma caixa de equipamentos musicais, carregada para um jato particular. A operação envolve Michael Taylor, ex-integrante das forças especiais americanas, e seu filho Peter Taylor. O avião segue para o Líbano, onde Ghosn tem cidadania e onde permanece até hoje, fora do alcance direto da Justiça japonesa.
Instalado em Beirute, ele reinventa sua atuação. Em vez de comandar fábricas, passa a produzir conteúdo sobre liderança e carreira, em inglês, em uma newsletter batizada de The Carlos Ethos e em redes sociais. Usa casos da própria trajetória para discutir decisões difíceis, erros e conflitos em grandes corporações. Também comenta, com frequência, a situação da Nissan e da aliança que ajudou a construir.
Crise prolongada e acionistas divididos
A montadora vive hoje um de seus períodos mais delicados. As vendas globais caem de 5,5 milhões de veículos, antes da prisão de Ghosn, para cerca de 3,15 milhões atualmente. A empresa perde peso em mercados-chave, reduz capacidade produtiva e tenta, sem muito sucesso, recuperar margens e relevância em veículos elétricos e tecnologias como robotáxis, em parceria com empresas como Uber e Wayve.
Executivos se sucedem no comando sem conseguir estancar a sangria. Ghosn resume essa sequência ao afirmar que “três CEOs sucessivos fracassaram em revitalizar a Nissan” e que apenas uma liderança forte, disposta a tomar decisões impopulares, poderia reverter o quadro. De sua casa no Líbano, ele classifica a reação dos acionistas nesta assembleia como “uma reação com muito bom senso. Dá para sentir a raiva e a frustração dos acionistas”.
Parte dos investidores enxerga o ex-CEO menos como o homem que escapou escondido em uma caixa e mais como o gestor que tirou a Nissan da quase falência no fim dos anos 1990. A memória seletiva relembra o período em que a empresa disputava o topo da indústria global, e relativiza o peso das acusações criminais e da ruptura traumática com o Japão corporativo.
Espinosa sob fogo e a disputa por narrativas
Ivan Espinosa assume a Nissan com uma agenda quase impossível. Precisa acelerar a eletrificação da frota, fortalecer projetos em robotáxis, cortar custos, simplificar a presença global e ao mesmo tempo defender o terreno diante de rivais chinesas com produtos baratos e avanços rápidos em bateria e software. Ainda carrega o peso da queda no valor de mercado e da desconfiança dos investidores.
A evocação de Ghosn em plena assembleia aprofunda o desgaste. A atual gestão perde espaço simbólico diante de um fantasma que paira sobre a sala do conselho. Cada resultado trimestral fraco alimenta a comparação com o passado e reforça o coro dos descontentes. A própria aliança Renault-Nissan-Mitsubishi entra na linha de tiro, com discussões sobre o quanto ainda faz sentido manter a estrutura original e como reposicionar o grupo diante da ofensiva asiática.
Ghosn, em entrevistas recentes, admite que “talvez meu maior erro tenha sido não me aposentar depois de assegurar a Aliança Renault-Nissan e concluir a recuperação que originalmente havia sido levado para executar”. A frase sintetiza o conflito: para uns, ele fica tempo demais no poder; para outros, sai justamente quando a empresa mais precisa de alguém com seu perfil.
Legado, governança e o que vem pela frente
A crise da Nissan transborda o balanço trimestral. A queda de produção, em torno de 43%, atinge diretamente empregos em fábricas, fornecedores e redes de concessionárias, inclusive nas operações brasileiras, presentes no país há 22 anos. Afeta decisões de investimento em novas linhas de montagem, pesquisa em eletrificação e parcerias tecnológicas.
O embate em torno de Ghosn também vira caso de estudo de governança. De um lado, expõe como estruturas de poder concentradas podem gerar abusos e cegar conselhos para riscos. De outro, mostra que uma reação brusca, movida por disputas políticas e nacionais, pode destruir valor em ritmo acelerado e deixar os acionistas órfãos de liderança.
O retorno de Ghosn à Nissan, na prática, hoje parece improvável. As pendências judiciais, o rompimento com o establishment japonês e os esforços da própria empresa para apagar sua imagem atuam como barreira quase intransponível. O que permanece é a pressão por mudanças profundas no conselho, por maior voz dos investidores e por um plano de recuperação crível.
Enquanto isso, o ex-CEO segue de longe, transformando sua biografia em conteúdo e sua queda em narrativa sobre escolhas de gestão. A Nissan corre contra o tempo para provar que consegue escrever um novo capítulo sem o executivo que a resgatou no passado, mas também a arrastou para uma das maiores crises de reputação da indústria automobilística recente.
Onde está Carlos Ghosn hoje?
Carlos Ghosn está atualmente no Líbano, vivendo em Beirute desde que fugiu do Japão em dezembro de 2019, e atua como uma espécie de “guru” de gestão, produzindo conteúdos em inglês sobre liderança e carreira em sua newsletter The Carlos Ethos e em redes sociais, enquanto acompanha à distância a crise da Nissan.
O que aconteceu com Carlos Ghosn na Nissan?
Carlos Ghosn foi o executivo que liderou a recuperação da Nissan a partir de 1999, tornou-se CEO em 2001, acumulou o comando da Renault e, depois, da Mitsubishi Motors, mas viu sua trajetória ruir quando foi preso em Tóquio, em novembro de 2018, acusado de irregularidades financeiras, o que levou à sua queda e à ruptura com a montadora.
Como foi a fuga de Carlos Ghosn do Japão?
Carlos Ghosn fugiu do Japão em dezembro de 2019 escondido dentro de uma caixa para equipamentos musicais, colocada em um jato particular, em uma operação articulada por Michael Taylor, ex-integrante das forças especiais americanas, e seu filho Peter Taylor, que o levou de Tóquio até o Líbano enquanto ele aguardava julgamento em liberdade sob fiança.
Por que acionistas da Nissan querem o retorno de Carlos Ghosn?
Acionistas da Nissan pedem o retorno de Carlos Ghosn porque veem nele o líder que salvou a empresa da quase falência, lembram o período em que a montadora vendia cerca de 5,5 milhões de veículos por ano e com mais lucro, e se dizem frustrados com a queda para aproximadamente 3,15 milhões, sucessivos planos fracassados e a falta de uma liderança considerada forte.
Qual o impacto da prisão de Carlos Ghosn na crise da Nissan?
A prisão de Carlos Ghosn, em novembro de 2018, detonou uma crise prolongada na Nissan ao expor disputas internas de poder, abalar a confiança de investidores e desorganizar a liderança justamente no momento de maior pressão competitiva, contribuindo para a queda nas vendas globais, a sucessão de CEOs, os repetidos planos de reestruturação e a atual perda de relevância frente a rivais.


