Acionistas da Nissan exigem volta de Carlos Ghosn mesmo foragido
Em assembleia tensa, acionistas da Nissan evocam o retorno de Carlos Ghosn, foragido no Líbano, num gesto de protesto contra a crise e a gestão atual da montadora.
Economia
Acionistas da Nissan protestam contra a atual gestão, pedindo o retorno de Carlos Ghosn mesmo após sua fuga ao Líbano.
Acionistas da Nissan voltam a pedir publicamente o retorno de Carlos Ghosn ao comando da montadora em assembleia anual no Japão, num gesto raro de nostalgia corporativa. O ex-CEO e chairman segue foragido no Líbano, acusado de irregularidades financeiras que ele nega.
Assembleia expõe frustração com a gestão atual
A reunião, realizada nesta semana, escancara a insatisfação de investidores com o rumo da Nissan após a queda de Ghosn. A empresa, que vendia cerca de 5,5 milhões de veículos por ano antes da crise, hoje gira em torno de 3,15 milhões de unidades, uma redução de mais de 40% no volume.
Os apelos pelo nome de Ghosn não ganham maioria, mas ganham o microfone. O simples fato de um foragido concentrar a atenção na assembleia resume o tamanho da decepção com a gestão atual, liderada por Ivan Espinosa. Um analista resume: “Quando acionistas começam a pedir a volta de um ex-CEO foragido, eles não estão necessariamente votando pelo passado. Estão expressando sua decepção com o presente.”
Dentro da Nissan, a diretoria reage com o discurso de continuidade dos planos de reestruturação e reforça que não há qualquer possibilidade de retorno de Ghosn. Nos bastidores, porém, o episódio é lido como um alerta sobre a confiança cada vez mais frágil dos investidores.
Do “cost killer” à fuga em uma caixa
Carlos Ghosn constrói sua imagem de superexecutivo muito antes do escândalo. Inicia a carreira na Michelin em 1978, assume o comando da operação sul-americana em 1985 e, em 1996, é contratado pela Renault. Três anos depois, com a entrada da montadora francesa na Nissan, desembarca em Tóquio para salvar uma empresa endividada e em perda acelerada de mercado.
O plano é agressivo. Ghosn fecha fábricas, corta custos e desmonta práticas tradicionais da indústria japonesa. O resultado o transforma em celebridade empresarial. Em 2001, vira CEO da Nissan. Em 2005, passa a comandar Renault e Nissan ao mesmo tempo. Em 2016, assume também a presidência da Mitsubishi Motors, consolidando uma aliança em que a Nissan detém 34% da Mitsubishi.
O auge antecede a queda. Em novembro de 2018, promotores japoneses prendem Ghosn em Tóquio, acusando-o de subdeclarar sua remuneração e usar recursos da Nissan em benefício próprio. Ele nega os crimes e diz ser vítima de uma conspiração interna, que uniria executivos da montadora e autoridades preocupadas com o aumento da influência estrangeira sobre um ícone industrial japonês.
A fuga cinematográfica e o exílio no Líbano
Depois de períodos de detenção e liberdade sob fiança, com rígidas restrições de movimento, Ghosn decide não esperar a Justiça japonesa. Em dezembro de 2019, executa uma fuga digna de roteiro de cinema, organizada com ajuda dos ex-militares americanos Michael Taylor e Peter Taylor.
O plano usa uma brecha básica: a inspeção menos rigorosa de cargas. Ghosn é colocado dentro de uma grande caixa para equipamentos musicais, levada até um jato particular em um aeroporto de Osaka. A peça embarca como carga, sem passar por detector de metais, e o avião decola, faz escala na Turquia e segue para Beirute.
O Líbano, que não tem acordo de extradição com o Japão, vira o porto seguro. De lá, Ghosn fala com a imprensa internacional, ataca o sistema de Justiça japonês e a antiga diretoria da Nissan, e tenta reescrever sua própria narrativa. Os Taylors são presos depois e extraditados para o Japão, o que mantém o caso vivo no campo judicial e diplomático.
Nostalgia dos acionistas e crise prolongada
A assembleia mais recente insere um novo capítulo nessa história. De Beirute, Ghosn reage rápido aos pedidos por sua volta. “É uma reação com muito bom senso”, diz, em entrevista. “Dá para sentir a raiva e a frustração dos acionistas.” Ele afirma que três sucessores falham em reerguer a montadora e sugere que apenas um líder forte e disposto a decisões impopulares pode inverter a trajetória.
O ex-CEO também faz uma autocrítica calculada. Em uma de suas falas, afirma que “seu maior erro pode ter sido não ter se aposentado depois de assegurar a Aliança Renault-Nissan e concluir a recuperação que originalmente havia sido levado para executar”. A frase mira dois alvos: reconhece o desgaste, mas reforça a narrativa de missão cumprida antes do colapso.
O contraste entre passado e presente é o combustível da nostalgia. Sob Ghosn, a Nissan se firma como uma das maiores montadoras do mundo e vira referência em reestruturação industrial. Hoje, enfrenta queda nas vendas, margens pressionadas e forte concorrência global, especialmente de fabricantes chineses no segmento de veículos elétricos.
Aliança sob tensão e disputa por futuro
A crise da Nissan não se limita a números trimestrais. O desempenho fraco pressiona toda a aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, construída ao longo de mais de duas décadas e que ainda tenta encontrar um modelo de governança mais equilibrado. O episódio Ghosn expõe um dilema que persiste: como conciliar interesses nacionais, egos corporativos e a necessidade de escala global.
O atual CEO, Ivan Espinosa, herda um tabuleiro complexo. Precisa acelerar a eletrificação, sustentar a presença em mercados maduros e emergentes e, ao mesmo tempo, reduzir custos e simplificar a operação. A Nissan tenta costurar parcerias em tecnologias como robotáxis com empresas de mobilidade, enquanto vê rivais chinesas avançarem rapidamente em preço e inovação.
Investidores, porém, cobram resultados mais tangíveis. A queda de vendas de 5,5 milhões para 3,15 milhões de veículos por ano reduz a relevância da marca nas conversas globais, afeta margens e desidrata o valor de mercado da empresa. Quem comprou ações na era Ghosn assiste, hoje, à erosão de parte relevante desse patrimônio.
Governança, justiça e o limite do poder
O caso Carlos Ghosn ultrapassa o drama individual. A prisão, as acusações de fraude, a fuga extravagante e o exílio levantam discussões sobre governança corporativa, concentração de poder e o funcionamento da Justiça japonesa. Críticos apontam para um sistema que permite longas detenções preventivas e forte pressão sobre acusados para obtenção de confissões.
No front corporativo, a história alimenta um debate global: até onde empresas devem ir ao concentrar poder em executivos quase incontestáveis, responsáveis por salvar companhias em crise e, na sequência, transformados em símbolos insubstituíveis. A assembleia da Nissan, com acionistas clamando pela volta de um foragido, é um lembrete incômodo de que personalismos cobram preço alto quando o desempenho desaba.
Os próximos capítulos dependem menos de Ghosn e mais da capacidade da Nissan de apresentar um plano convincente para reconquistar mercado e confiança. A probabilidade de um retorno físico do ex-CEO é mínima, mas seu fantasma segue rondando a montadora. Enquanto vendas e lucro não reagirem de forma consistente, o nome de Carlos Ghosn continuará a emergir em assembleias, relatórios e conversas de bastidor.
Onde está Carlos Ghosn hoje?
Carlos Ghosn vive hoje em Beirute, no Líbano, onde permanece desde que fugiu do Japão em um jato particular após sair de Tóquio escondido dentro de uma caixa de equipamentos musicais. Ele é considerado foragido pela Justiça japonesa e não pode deixar o país sem arriscar prisão em outras jurisdições.
O que aconteceu com Carlos Ghosn na Nissan?
Carlos Ghosn foi preso em Tóquio em meio a acusações de subdeclarar remuneração e usar recursos da Nissan em benefício próprio, o que ele nega e atribui a uma conspiração interna. Após a prisão, perdeu todos os cargos na aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, rompeu com a empresa e hoje ataca abertamente seus antigos parceiros.
Como foi a fuga de Carlos Ghosn do Japão?
A fuga de Carlos Ghosn ocorreu em uma operação clandestina que o escondeu dentro de uma grande caixa para equipamentos musicais embarcada como carga em um jato particular. Com ajuda dos ex-militares americanos Michael e Peter Taylor, ele saiu do Japão, fez escala na Turquia e chegou ao Líbano, que não o extradita ao Japão.
Por que acionistas da Nissan pedem o retorno de Carlos Ghosn?
Acionistas da Nissan pedem o retorno de Carlos Ghosn porque veem o colapso de vendas de 5,5 milhões para 3,15 milhões de veículos por ano como símbolo do fracasso da gestão atual. O apelo expressa nostalgia pela recuperação comandada por Ghosn e frustração com planos recentes que não devolvem lucratividade nem competitividade global.
Qual o impacto do caso Carlos Ghosn na crise da Nissan?
O caso Carlos Ghosn aprofunda a crise da Nissan ao combinar ruptura de liderança, choque de governança e incerteza estratégica no momento em que a empresa precisa investir pesado em eletrificação. A saída abrupta do executivo cria um vácuo que sucessivos CEOs não preenchem, contribui para a queda nas vendas e mina a confiança dos investidores.
Como o caso Carlos Ghosn influenciou críticas ao sistema prisional japonês?
O caso Carlos Ghosn intensificou críticas ao sistema prisional japonês ao expor práticas como detenções longas, altas taxas de condenação e pressão por confissões em investigações financeiras. A narrativa de Ghosn, amplificada por sua fama global, coloca holofotes internacionais sobre a Justiça do Japão e alimenta debates sobre direitos de executivos estrangeiros.


