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Lançamentos de IA

Anthropic pede IPO em novembro e garante controle para IA segura

Anthropic protocolou pedido de IPO nos EUA com estrutura que garante 50,1% do poder de voto aos fundadores, foco em clientes empresariais e compromisso declarado com segurança em IA.

Anthropic pede IPO em novembro e garante controle para IA segura

Mercado Financeiro

A Anthropic planeja oferta pública inicial com foco em segurança e controle majoritário dos fundadores.

Leia também: Anthropic eleva 50% gasto com Hooked book para reter empresas

A Anthropic protocolou nesta semana seu pedido de IPO nos Estados Unidos, estruturando a abertura de capital para manter o controle majoritário nas mãos dos fundadores e preservar a missão declarada de desenvolver tecnologia de inteligência artificial segura, mesmo sob pressão do mercado.

Anthropic já entrou com pedido para IPO?

Sim. A Anthropic já deu entrada no pedido de oferta pública inicial junto à SEC, o regulador do mercado de capitais nos EUA, e trabalha com a expectativa de estrear na bolsa já no próximo mês, possivelmente em meados de novembro, antes das eleições de meio de mandato.

No documento entregue às autoridades, a empresa de IA generativa detalha a estratégia de focar em clientes corporativos, revela números financeiros robustos, embora ainda no vermelho, e descreve uma arquitetura de governança pensada para blindar o controle em torno da agenda de segurança em IA.

O movimento deve colocar a Anthropic na bolsa à frente da rival OpenAI, num momento em que grandes empresas correm para se financiar e ganhar escala em modelos de linguagem avançados disputados por bancos, indústrias, varejo e governos.

Governança com 50,1% de voto nas mãos dos fundadores

Para garantir que decisões estratégicas sigam alinhadas à missão de segurança, a Anthropic adotou uma estrutura societária em LLC com ações de voto especial. Na prática, os fundadores concentram 50,1% do poder de voto em temas de governança corporativa, mesmo após o IPO.

O conselho de administração tem sete membros, incluindo os irmãos Dario Amodei, CEO, e Daniela Amodei. Além disso, a empresa criou um trust de benefícios de longo prazo com curadores independentes, responsável por uma classe de ações desenhada para eleger a maioria do conselho e funcionar como guardião da missão de segurança e responsabilidade.

Para analistas, essa configuração reforça o controle interno, mas reduz a influência dos acionistas públicos sobre decisões-chave, o que pode alimentar discussões futuras sobre transparência e prestação de contas.

Números do negócio e disputa por capital em IA

No prospecto preliminar, a Anthropic informa ter gerado US$ 16,3 bilhões em receita nos primeiros seis meses do ano, mas com prejuízo de US$ 80,7 bilhões no mesmo período. Só com infraestrutura de computação e nuvem, o gasto chegou a cerca de US$ 9 bilhões.

Mesmo com o resultado negativo, a empresa destaca crescimento expressivo de receita ano a ano desde sua fundação, em 2021, impulsionado principalmente pelo consumo de seus modelos de IA por grandes clientes corporativos.

O mercado projeta que o IPO pode levantar entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões, o que, se confirmado, colocaria a operação como a maior oferta pública já realizada, superando o recorde atual de outra gigante de tecnologia.

A Anthropic ingressou no setor com o chatbot Claude, concorrente direto do ChatGPT, mas rapidamente reposicionou a estratégia para atender empresas. Hoje, destaca o modelo Claude Code como o mais popular entre desenvolvedores corporativos, com foco em automação de tarefas, geração de código e apoio a fluxos de trabalho complexos.

Por que a Anthropic mantém o foco em segurança no seu pedido de IPO?

A Anthropic coloca o compromisso com segurança como eixo central do IPO porque quer sinalizar a investidores, reguladores e clientes que decisões de curto prazo em busca de receita não vão se sobrepor à avaliação de riscos ligados à IA.

“Esta é uma empresa de IA que prioriza a segurança”, resume Michael Bennett, vice-chanceler associado para ciência de dados e estratégia de IA da University of Illinois Chicago. Para ele, a estrutura de supervoto explicita essa escolha: “É bastante claro que eles indicam que os fundadores terão uma participação majoritária na empresa e, portanto, a capacidade de governá-la efetivamente”.

Bennett avalia que, diante de eventuais dilemas entre expansão de faturamento e mitigação de riscos, a balança pode pender para a segurança: “Se preocupações com segurança indicarem movimentos que deveriam realisticamente ser esperados para diminuir a receita no curto, médio ou longo prazo, a empresa pode ser compelida a seguir esse caminho, mesmo que forças de mercado privilegiem aumentos de receita em algumas situações”.

Entenda o contexto

Desde sua criação, a Anthropic se apresenta como uma desenvolvedora de IA “safety-first”, com forte ênfase em modelos treinados a partir de princípios explícitos de valores humanos — abordagem que a empresa apelida de “IA constitucional”.

Nos últimos meses, o CEO Dario Amodei publicou ensaios defendendo que avanço tecnológico e segurança não são incompatíveis e pedindo regulação mais rígida para sistemas de IA de fronteira. A companhia também restringe o acesso a modelos considerados mais sensíveis, como o Mythos, limitado a instituições e empresas selecionadas por poder tanto ajudar na defesa cibernética quanto facilitar ataques sofisticados.

Para especialistas, o IPO bem-sucedido com essa moldura de governança pode virar um modelo de referência para outras empresas de IA que buscam conciliar capital intensivo, pesquisa avançada e responsabilidade social. Ao mesmo tempo, investidores institucionais terão de calibrar expectativas: o foco em segurança tende a reduzir o espaço de influência direta sobre rumos estratégicos, ao menos no desenho inicial pensado pela Anthropic.

Na outra ponta, grandes clientes corporativos ganham um fornecedor com mais fôlego financeiro para expandir infraestrutura e pesquisa, mas são aconselhados a manter abordagem pragmática, sem concentrar sistemas críticos em um único provedor de IA, justamente porque o setor ainda ajusta seus modelos de negócio, compromissos regulatórios e padrões de governança.

Nesse cenário, a estreia da Anthropic na bolsa, esperada para meados de novembro, será acompanhada de perto não só por investidores, mas também por reguladores, concorrentes e empresas que hoje dependem — ou planejam depender — de modelos de IA generativa em processos essenciais de negócios.