Banqueiro manda fazer vídeos e planeja ataque a jornalistas
Mensagens interceptadas revelam que Daniel Vorcaro encomendou vídeos anônimos para atacar Malu Gaspar e Lauro Jardim e chegou a ordenar agressão forjada ao colunista, em reação a reportagens sobre o Banco Master.
Mercado Financeiro
Mensagens mostram plano de ataque contra jornalistas após reportagens sobre Banco Master.
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Mensagens interceptadas pela Polícia Federal mostram que o banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, encomendou vídeos apócrifos para atacar os jornalistas Malu Gaspar e Lauro Jardim e chegou a ordenar uma agressão física forjada contra o colunista, em resposta a reportagens críticas sobre as operações do banco.
Vídeos apócrifos e ataques pessoais
Nas conversas, a ex-funcionária do Banco Master Ana Matos envia a Vorcaro um rascunho de roteiro para um vídeo que ironizaria a suposta proximidade de Lauro Jardim com o BTG Pactual, cuja sede em São Paulo fica no edifício Pátio Victor Malzoni. Ela pede que o banqueiro leia o texto “pensando que seria um vídeo curto com a cara do Lauro voando na tela” e pergunta: “Seria mais ou menos isso?”.
O texto sugeria que o jornalista seria “praticamente um colaborador fixo” do banco concorrente e indagava, em tom insinuoso, o que ele faria com tanta frequência no prédio. Vorcaro responde orientando a focar o ataque na figura de Lauro, e não no veículo em que trabalha. Recomenda “tirar Globo” do roteiro e comenta: “Resto ficou excelente”.
Ana Matos também propõe um vídeo contra Malu Gaspar, descrevendo a colunista como “Mãe Diná da Faria Lima” cujas matérias “quase nunca se confirmam” e dizendo que suas fontes seriam como “disco voador”. Segundo as mensagens, Vorcaro aprova o texto, mas rejeita o material final: “Ana, o texto ta legal mas esse video nao ta nao. Dois almofadinhas falando”.
Os conteúdos seriam divulgados sem identificação de autoria, para tentar descredibilizar os jornalistas e suas reportagens sem expor quem estava por trás da campanha.
Plano de agressão e devassa na vida pessoal
Em outro trecho das conversas, o banqueiro aciona Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, apontado como responsável por obter informações sigilosas e monitorar pessoas, e fala explicitamente em violência contra Lauro Jardim. “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, escreve Vorcaro, sugerindo a montagem de um assalto forjado para mascarar a agressão.
Sobre Malu Gaspar, as mensagens indicam uma tentativa de devassa na vida pessoal da jornalista. Vorcaro procura o publicitário Thiago Miranda e diz: “Vamos ter que pegar algo dessa mulher no pessoal”. O profissional promete levantar dados sobre a colunista, mas admite não ter encontrado nada que pudesse ser usado contra ela: “Nem multa na CNH dela encontrei”, relata.
Ana Matos trabalhou no Banco Master até dezembro de 2025. As mensagens com os roteiros de vídeos são de 3 de março de 2025. Ela nega ter tido acesso ao material hoje divulgado e afirma não ter como atestar a autenticidade dos arquivos que circulam.
Reação do jornal e movimentos da defesa
Em nota pública, o jornal para o qual trabalham Malu Gaspar e Lauro Jardim repudiou a campanha de difamação e associou o episódio a uma tentativa de cercear a imprensa. “Trata-se de mais uma tentativa de intimidar a imprensa e desacreditar o jornalismo profissional, pilar fundamental da democracia. O GLOBO e seus jornalistas não se intimidarão e seguirão apurando e noticiando, com rigor e independência, os fatos de interesse público”, diz o texto.
A defesa de Daniel Vorcaro levou o caso ao Supremo Tribunal Federal e pediu a abertura de investigação sobre o vazamento das conversas interceptadas pela Polícia Federal, buscando questionar a origem e a divulgação das provas. Até o momento, a estratégia da defesa é concentrar o foco na forma como o material veio a público, enquanto o conteúdo das mensagens provoca reação no meio jornalístico e político.
Entenda o contexto
Malu Gaspar e Lauro Jardim assinam reportagens e colunas sobre mercado financeiro e política econômica, incluindo textos críticos às operações do Banco Master e aos negócios de Daniel Vorcaro. As conversas agora reveladas indicam que o banqueiro reagiu tentando minar a credibilidade pessoal dos dois, com vídeos anônimos, difamação e até a ordem para uma agressão física simulada.
A exposição do caso reforça a preocupação de entidades ligadas ao jornalismo com o aumento de campanhas coordenadas contra repórteres e colunistas que investigam interesses econômicos poderosos. A avaliação de especialistas em liberdade de imprensa é que práticas desse tipo criam ambiente de medo, estimulam a autocensura e distorcem o debate público ao substituir a discussão de fatos por ataques pessoais.
A tendência é que o material coletado alimente novas frentes de apuração da Polícia Federal e possa embasar processos por ameaças, crimes contra a honra e eventual atuação de organização criminosa. No campo institucional, o episódio pressiona por medidas mais firmes de proteção a jornalistas e por maior transparência e responsabilização no setor financeiro diante de tentativas de intimidar a cobertura crítica.
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