Blackstone investe R$ bilionário em IA e reduz risco de bolha
Com US$ 1,3 trilhão sob gestão, Blackstone amplia crédito bilionário a neoclouds e startups de chips, usando GPUs e contratos com Microsoft e Meta como garantia, apesar da alta dos juros.

Investimentos
Blackstone amplia crédito bilionário para startups e neoclouds, minimizando riscos em meio a juros altos.
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A gestora Blackstone está dobrando a aposta na infraestrutura de inteligência artificial, abrindo linhas de crédito bilionárias para neoclouds e startups de chips e usando GPUs e contratos com gigantes como Microsoft e Meta como garantia, enquanto tenta acalmar o mercado em meio à disparada do endividamento dessas empresas.
Blackstone monta hub de IA e vira dona de “computação” fora dos gigantes
Para coordenar a ofensiva, a gestora criou o Blackstone N1, com base em San Francisco, liderado pelo veterano Jas Khaira, que se mudou de Nova York para ficar próximo do epicentro da corrida da IA. O grupo centraliza desde financiamentos de data centers até investimentos em modelos avançados e aplicações.
Segundo Khaira, a escala exigida pela IA não se compara a ciclos anteriores da tecnologia, como mobile ou softwares na nuvem, que permitiam crescer com menos capital. Com US$ 1,3 trilhão em ativos sob gestão, a Blackstone se apresenta como o financiador de peso para essa nova fase.
O executivo afirma que o diferencial em relação ao venture capital clássico está no foco em financiar capacidade de computação e na flexibilidade das estruturas de capital, que combinam dívida e participação acionária conforme a necessidade de cada negócio. “We’re the largest owner of compute outside of the hyperscalers today, whether it’s investments in neo clouds, investments in data centers, and being able to use that compute strategically to support companies”, disse Jas Khaira, líder do Blackstone N1.
Nesse modelo entram aportes como os US$ 5 bilhões comprometidos na neocloud Crux AI, criada em parceria com o Google para comercializar seus chips próprios de IA, e o investimento em fabricantes de chips como a Etched, que tenta acelerar o desenvolvimento de hardware otimizado para modelos generativos.
Como funcionam os financiamentos lastreados em GPUs
A Blackstone estruturou operações em que o crédito é garantido pelo valor dos equipamentos de IA — principalmente GPUs — e pelos contratos firmados com grandes clientes corporativos. O caso inaugural foi o empréstimo de US$ 2,3 bilhões concedido à neocloud CoreWeave, que viu a demanda disparar após a popularização de modelos generativos.
Na época, a empresa ainda tinha receita modesta, mas ofereceu como garantia um grande parque de GPUs Nvidia, além de contratos com clientes de alta qualidade de crédito, como a Microsoft. A transação virou referência para outros financiamentos de infraestrutura de IA, tanto da própria Blackstone quanto de outros credores.
Khaira explica que a qualidade do cliente final é peça central na análise de risco. “One of the primary things that we’re looking to is the nature of the customer. And if the customer is an investment-grade customer — let’s say it’s Microsoft or let’s say it’s Meta — the risk gets priced relative to that customer”, afirmou.
Com a validação do modelo, a Blackstone passou a replicá-lo em outros acordos, como a co-liderança, ao lado da gestora Coatue, de uma linha de crédito de US$ 10 bilhões para a australiana Firmus, que aluga infraestrutura de GPUs focada em IA.
Entenda o contexto
A explosão da IA generativa elevou o apetite por capacidade de processamento a um patamar sem precedentes. Diferentemente de aplicativos móveis ou softwares corporativos, que podiam ser escalados com investimentos relativamente menores, treinar e rodar grandes modelos de linguagem exige data centers sob medida, energia em larga escala e estoques de chips caríssimos.
Enquanto os grandes provedores globais de nuvem concentram a maior parte da infraestrutura, surgiram as chamadas neoclouds — provedores especializados em alugar GPUs de alto desempenho e oferecer ambientes sob medida para startups e empresas que querem treinar e rodar modelos avançados. É nesse vácuo entre os gigantes da nuvem e as empresas menores que a Blackstone enxerga espaço para oferecer capital em grande volume.
Endividamento explode e mercado reavalia risco das neoclouds
O avanço acelerado, porém, veio acompanhado de uma escalada de dívidas. A CoreWeave, que abriu caminho para a primeira grande operação de crédito da Blackstone no setor, acumula hoje cerca de US$ 50 bilhões em compromissos financeiros. O tamanho do passivo acendeu o alerta em parte do mercado.
Em entrevista recente, o investidor Brad Gerstner, fundador da Altimeter Capital, criticou a qualidade das garantias oferecidas pela neocloud. “The collateral that CoreWeave is putting up which is really only GPUs is not good enough anymore. They used that in the past to get cheap debt”, afirmou.
A mudança de humor ocorre em um cenário de juros mais altos e inflação pressionada, que encarecem o custo de capital. Khaira admite que spreads de crédito — o adicional cobrado pelos credores sobre a taxa básica — estão mais largos e que até empresas com balanços robustos, como Microsoft e Meta, têm pago mais caro para tomar recursos para projetos de IA.
O aperto nas condições financeiras já aparece no mercado de ações e de ofertas públicas. Os papéis da CoreWeave registraram queda superior a 20% nos últimos dias, reflexo direto das dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida, enquanto a Firmus resolveu cancelar uma abertura de capital que mirava avaliação em torno de US$ 30 bilhões na bolsa australiana.
Ao comentar o recuo, Khaira foi direto: “Ultimately, the market wasn’t there at that valuation, and so I think as a result, that deal didn’t get done”. Para ele, o movimento faz parte de um ajuste mais amplo. “The market is thinking what is the right price for neoclouds, what is the right price for these businesses in this moment when interest rates are moving up”, disse.
Blackstone minimiza risco sistêmico e ajusta preço do crédito
Apesar do sobe e desce nas ações e do adiamento de ofertas, Khaira descarta a ideia de que o acúmulo de dívida para infraestrutura de IA possa desencadear uma crise de crédito generalizada. Na visão dele, a diferença em relação a episódios passados está justamente na qualidade de quem está na outra ponta dos contratos.
A maior parte dos data centers financiados por esses pacotes de crédito atende aos grandes provedores globais de tecnologia, considerados alguns dos emissores mais seguros do mercado. Isso, argumenta o executivo, reduz a chance de uma onda de calotes em cadeia.
Por outro lado, a Blackstone vem endurecendo as condições de financiamento, com spreads mais altos e exigência de garantias mais robustas, o que tende a favorecer empresas com contratos firmes e parcerias estratégicas. Neoclouds menores e startups de chips menos maduras podem enfrentar mais dificuldade para acessar capital na mesma escala.
Paralelamente às linhas de crédito e aos investimentos em infraestrutura, a gestora também tenta capturar valor na adoção prática da IA dentro das empresas. Uma joint venture de US$ 1,5 bilhão, batizada de Ode, foi montada em parceria com a Anthropic e a gestora Hellman & Friedman para levar engenheiros especializados a clientes corporativos — começando pelo universo das cerca de 280 empresas investidas pela própria Blackstone.
Khaira admite que o retorno sobre esses projetos ainda é desigual, variando bastante entre setores e estágios de adoção, mas aposta que o avanço da tecnologia ao longo dos próximos anos tende a preencher a eventual folga de capacidade que hoje parece sobrar em alguns segmentos da infraestrutura de IA.
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