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Inteligência Artificial

China quase alcança EUA em IA, mas depende de chips estrangeiros

Modelos chineses de IA já ficam só 2,7% atrás dos americanos em desempenho e o país lidera a compra de equipamentos de semicondutores, com US$ 49,3 bi em 2025. Gargalos de fabricação e dependência de tecnologia externa, porém, ainda seguram a autossuficiência.

China quase alcança EUA em IA, mas depende de chips estrangeiros

Inteligência Artificial

Modelos chineses de IA avançam, mas dependem de chips importados para manter o ritmo de crescimento tecnológico.

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Modelos chineses de inteligência artificial já aparecem praticamente empatados com os líderes globais em desempenho, enquanto a China consolida a maior expansão do mundo em equipamentos para semicondutores. O avanço, porém, ainda não se traduz em autossuficiência: gargalos na fabricação de chips e a dependência de tecnologia estrangeira continuam no centro da disputa tecnológica com Estados Unidos, Taiwan e Coreia do Sul.

Modelos chineses encostam nos americanos

O AI Index 2026, de Stanford, mostra que, em março deste ano, a diferença entre os melhores modelos de IA da China e dos Estados Unidos na métrica Arena é de apenas 2,7%. O relatório aponta alternância recente na liderança entre sistemas dos dois países, indicando que desenvolvedores chineses já operam no pelotão de frente da corrida global.

A avaliação é compartilhada por analistas do Goldman Sachs, que veem a competição entre empresas chinesas de IA e o avanço da cadeia de chips acima do que esperavam. Ao mesmo tempo, o banco ressalta restrições importantes em acesso a processamento, capacidade de fabricação e equipamentos avançados.

Para Ronald Keung, chefe da equipe de pesquisa de internet da Ásia no Goldman Sachs, a redução da distância na qualidade dos modelos muda o foco da disputa. “A redução das diferenças de desempenho aumenta a importância do custo e das ferramentas que permitem usar o modelo em tarefas”, afirma. Essa camada de conexão entre IA, dados e fluxos de trabalho é conhecida no setor como harness.

Na prática, o ponto de atenção é que testes de benchmark não bastam. Para transformar um modelo em produto de massa, empresas precisam garantir acesso seguro a informações internas, integração com processos e uma relação de custo e desempenho que permita rodar a tecnologia para milhões de usuários, e não só em laboratórios.

Entenda o contexto

O AI Index destaca ainda a presença de modelos chineses com pesos abertos em plataformas ocidentais de nuvem. Isso permite que clientes fora da China usem esses sistemas em servidores locais, ampliando a distribuição sem que os desenvolvedores necessariamente controlem a infraestrutura física em cada país.

O movimento acontece em paralelo à escalada dos investimentos chineses em hardware. De um lado, há a ambição de reduzir a vulnerabilidade a restrições externas; de outro, a necessidade imediata de acesso a chips estrangeiros para treinar e operar os modelos mais avançados.

China lidera compra de equipamentos de chips

No front da infraestrutura, a China foi, pelo sexto ano consecutivo, o maior mercado do mundo para equipamentos de fabricação de semicondutores. Em 2025, vendas destinadas ao país somaram US$ 49,3 bilhões, segundo dados compilados pela Associação Japonesa de Equipamentos para Semicondutores (SEAJ) em parceria com a SEMI.

O valor ajuda a dimensionar o apetite chinês por ampliar fábricas e linhas de produção. No mesmo período, o mercado global de equipamentos de semicondutores movimentou US$ 135,1 bilhões, alta de 15% em relação ao ano anterior. Taiwan aparece em segundo lugar, com US$ 31,5 bilhões em vendas, seguida da Coreia do Sul, com US$ 25,7 bilhões.

Esses números medem o destino das máquinas, não a origem dos fabricantes nem o domínio completo das tecnologias. Ou seja: mostram onde os equipamentos estão sendo instalados, não se as empresas locais já conseguem produzir ou replicar, sozinhas, os processos mais avançados de fabricação de chips.

A diferença é crucial para entender a estratégia de Pequim. Comprar litógrafos, fornos e sistemas de inspeção é condição necessária para aumentar a capacidade, mas não garante, por si só, que o país consiga produzir os processadores mais sofisticados, que exigem propriedade intelectual, materiais e know-how fortemente concentrados em poucos grupos globais.

Dependência de TSMC e centros de dados dos EUA

O próprio AI Index 2026 reforça essa concentração. Uma fatia decisiva da produção dos chips de IA mais avançados continua nas mãos da taiwanesa TSMC, peça central da cadeia global. Já os Estados Unidos mantêm a maior concentração de data centers, a infraestrutura física que sustenta o treinamento e a operação em larga escala dos modelos.

Na prática, isso significa que, mesmo com fábricas em expansão e forte compra de equipamentos, a China segue exposta a gargalos externos tanto na fabricação de ponta quanto na capacidade de processamento global. Em um cenário de tensões geopolíticas e controles de exportação, essa dependência é vista como risco estratégico.

Uso de chips estrangeiros continua decisivo

O avanço dos modelos de IA e a busca por semicondutores estrangeiros acontecem ao mesmo tempo. Em setembro, autoridades em Pequim sinalizaram disposição para permitir a compra de chips da Nvidia por grupos chineses como ByteDance e Alibaba, num gesto interpretado como pragmatismo diante da urgência por capacidade de processamento.

A possível flexibilização indica que o governo não pretende abrir mão, no curto prazo, de tecnologias críticas desenvolvidas fora do país, mesmo enquanto tenta fortalecer fornecedores domésticos. Para empresas que treinam grandes modelos de linguagem e sistemas de recomendação, o acesso a chips topo de linha continua sendo um gargalo central.

O mercado de semicondutores, porém, não se resume a esses processadores de IA. A pressão sobre a oferta de memórias, por exemplo, pode abrir espaço para fabricantes chineses em segmentos específicos, enquanto empresas de internet, comércio eletrônico e serviços digitais seguem em busca de qualquer ganho incremental de desempenho que reduza custo por usuário.

O que está em jogo na disputa por IA?

O quadro que se desenha é de uma China mais forte em software e com musculatura crescente em investimento industrial, mas ainda distante da autossuficiência. Desenvolvedores locais já competem de perto com rivais americanos na qualidade dos modelos; ao mesmo tempo, o país depende de uma rede global que inclui a TSMC em Taiwan, fabricantes de equipamentos na Ásia e na Europa e data centers concentrados nos Estados Unidos.

Para analistas financeiros e acadêmicos, isso tende a intensificar a disputa tecnológica nos próximos anos. De um lado, a China acelera a expansão de fábricas, treina engenheiros e tenta reduzir a exposição a sanções. De outro, continua a negociar acesso a chips estrangeiros e infraestrutura de nuvem, numa estratégia de equilíbrio entre ambição de autonomia e necessidade imediata de capacidade computacional.

O resultado provável, no horizonte visível, é uma indústria chinesa de IA e semicondutores mais robusta e influente, mas ainda inserida em uma cadeia global complexa e interdependente, em que o domínio total de todas as etapas da produção continua sendo um objetivo de médio a longo prazo.

Fonte: matéria original