Ciberataque atinge geladeiras de supermercados na Europa hoje
Redes na Suécia, Bélgica e Luxemburgo relatam aumento súbito de temperatura em refrigeradores e freezers, em incidente semelhante ao ataque que destruiu alimentos em 700 lojas na França.

Cibersegurança
Incidente afeta equipamentos essenciais em supermercados europeus, causando prejuízos e riscos à cadeia de alimentos.
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Refrigeradores e freezers de dezenas de supermercados na Suécia, Bélgica e Luxemburgo registraram aumento anormal de temperatura durante a noite, em um episódio que redes varejistas e autoridades tratam como possível novo ataque cibernético, semelhante ao que já havia destruído estoques inteiros de alimentos em centenas de lojas na França.
Supermercados relatam falhas súbitas em vários países
Na Suécia, a rede Coop informou que seis lojas tiveram os sistemas de refrigeração afetados. A concorrente ICA afirmou estar “aware that a limited number of stores were affected by an incident overnight which impacted their refrigeration and freezer systems”, sem detalhar o total de unidades atingidas.
Na Bélgica e em Luxemburgo, o grupo Ahold Delhaize reportou um “incidente de TI” que fez subir as temperaturas de geladeiras e freezers em dezenas de supermercados, incluindo pontos das bandeiras Spar, Shop & Go (em postos de serviço Q8) e minimercados Proxy Delhaize. De acordo com a porta-voz Sarah De Meester, a empresa já constatou que “temperatures in the cooling systems had increased, incident being investigated”.
Instaladoras especializadas foram acionadas de madrugada para tentar conter os danos. “We started mobilising technicians at 1am”, disse Stephan Moelans, CEO da Sabcobel, empresa belga de sistemas de refrigeração. Segundo ele, equipes “passaram a noite e a manhã desconectando as instalações afetadas da rede” para impedir que o problema se alastrasse.
Entenda o contexto
O novo incidente ocorre poucas semanas após um ataque em larga escala contra sistemas de refrigeração de supermercados na França. Naquele episódio, hackers tomaram controle remoto de controladores eletrônicos conectados à internet e ajustaram as temperaturas de milhares de equipamentos, levando alguns freezers de -27°C para acima de 50°C.
Até 700 supermercados franceses de grandes redes como Intermarché, Coopérative U, Carrefour, Leclerc e Monoprix tiveram de descartar grandes quantidades de carnes, laticínios e produtos congelados. Em muitas lojas, as perdas ficaram na faixa de dezenas de milhares de euros, chegando a até €130.000 em alguns casos. Duas unidades na região da Alsácia relataram prejuízos combinados de €270.000.
Nesse ataque, os criminosos exploraram vulnerabilidades em controladores majoritariamente fornecidos pela dinamarquesa Danfoss. Os invasores teriam desativado os alarmes antes de alterar os termostatos ou prolongar por horas os ciclos de degelo, o que levou ao aquecimento extremo dos equipamentos. A Danfoss afirma que identificou falhas de segurança anteriormente e “long recommended customers install updates” nos dispositivos.
Investigação mira fragilidade de sistemas conectados
As autoridades francesas tratam o caso como um marco na exposição de riscos dos sistemas industriais conectados à internet. A Procuradoria de Paris abriu investigação formal sobre o ataque contra os supermercados do país e informou que o dano incluía “damage included ‘food losses and fires’”. O governo encarregou a agência nacional de cibersegurança, ANSSI, de conduzir a apuração técnica.
A ANSSI já confirmou que, além dos equipamentos da Danfoss, controladores de pelo menos outras duas fabricantes também foram atingidos na ofensiva na França, o que reforça a hipótese de uma campanha coordenada de ataques contra esse tipo de infraestrutura. O padrão agora observado na Suécia, Bélgica e Luxemburgo aumenta a preocupação de que os mesmos grupos continuem explorando brechas semelhantes em outros países.
Embora ainda não haja confirmação oficial de que os episódios mais recentes sejam uma continuação direta do ataque francês, especialistas apontam coincidências na forma de atuação: acesso remoto aos sistemas de controle, desativação de alarmes, alteração brusca das temperaturas e necessidade de desligar às pressas as instalações afetadas.
Impacto na cadeia de alimentos e pressão por novas regras
Os prejuízos financeiros podem ser significativos. No caso francês, a necessidade de descartar produtos por risco à segurança alimentar somou, em algumas lojas, dezenas de milhares de euros em poucas horas. Como geladeiras e freezers concentram itens de alto valor agregado e perecíveis, cada falha pode resultar em perdas de centenas de milhares de euros por unidade atingida.
Além do impacto direto para as redes varejistas, a sabotagem dos sistemas de refrigeração afeta toda a cadeia de suprimentos de alimentos perecíveis e a oferta ao consumidor. Em situações mais graves, lojas podem precisar fechar setores inteiros, reduzir a disponibilidade de carnes, laticínios e congelados e mobilizar equipes extras de limpeza, descarte e reposição de estoques.
O risco de incêndios, apontado pelas autoridades francesas, adiciona uma camada de preocupação, já que o superaquecimento de equipamentos de grande porte pode danificar instalações elétricas. Técnicos e equipes de TI vêm sendo acionados de forma emergencial para desconectar sistemas, aplicar correções e reforçar a segurança das redes corporativas.
A expectativa no setor é de que o avanço desses incidentes acelere a adoção de padrões mais rígidos de proteção cibernética para equipamentos industriais conectados, com exigência de atualizações obrigatórias, segmentação de redes e protocolos específicos para supermercados e centros de distribuição. Órgãos reguladores europeus são pressionados a elaborar normas claras para reduzir a exposição desse tipo de infraestrutura crítica a ataques remotos.
Enquanto as investigações seguem, as redes afetadas recomendam a instalação imediata das atualizações de segurança indicadas pelos fabricantes de controladores, em especial a Danfoss, e reforçam monitoramento manual dos sistemas de refrigeração para tentar evitar novas perdas e recuperar a confiança dos consumidores.

