Coreia do Norte rouba US$ 6,36 bi da Binance em 20 minutos hoje
Grupo estatal norte-coreano TraderTraitor usou inteligência artificial e engenharia social para roubar US$ 6,36 bilhões em criptomoedas da Binance em 20 minutos. Clientes não tiveram prejuízo.

Inteligência Artificial
Ataque rápido e sofisticado utiliza IA e engenharia social para um dos maiores roubos em criptomoedas da história.
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Hackers estatais da Coreia do Norte roubaram US$ 6,36 bilhões em criptomoedas da Binance em um ataque relâmpago de cerca de 20 minutos nesta semana, usando inteligência artificial e engenharia social para comprometer o laptop de um engenheiro da corretora. A empresa afirma que recompos os valores com recursos próprios e que clientes não tiveram prejuízo nem vazamento de dados, mas o episódio acende o alerta máximo no mercado de criptos.
Grupo de elite, IA e caça a “grandes presas”
O ataque é atribuído pelo FBI ao TraderTraitor, um grupo de hackers de elite ligado ao regime de Kim Jong Un e formado por cerca de uma dúzia de integrantes. Diferentemente de golpistas que miram investidores comuns, o coletivo adota a estratégia de “Caça de Grandes Presas”, concentrando esforços em grandes empresas de criptomoedas e outros alvos de alto valor.
Segundo especialistas em cibersegurança, a inteligência artificial é hoje peça central nesse modus operandi. Ela ajuda a mapear vulnerabilidades, selecionar funcionários com acesso privilegiado e automatizar partes dos ataques, encurtando prazos e aumentando a taxa de sucesso. “Este grupo específico busca um grande butim”, resume Park Seong-su, pesquisador de ameaças da Zscaler. “As barreiras para tais habilidades caíram significativamente, enquanto a velocidade com que essas operações podem ser realizadas aumentou tremendamente”, afirma.
O TraderTraitor combina ferramentas técnicas avançadas com ofensivas agressivas de engenharia social, como abordagens com falsas ofertas de emprego para convencer funcionários a baixar arquivos maliciosos ou ceder credenciais sensíveis. “O forte deles é a parte humana”, diz Nick Carlsen, investigador sênior da TRM Labs.
Como foi o roubo de US$ 6,36 bilhões da Binance
Em comunicado, a Binance informou que a violação começou a partir de um laptop comprometido de um engenheiro, usado como porta de entrada para acessar sistemas críticos. A partir daí, os hackers dispararam uma série de transferências que, em cerca de 20 minutos, drenaram US$ 6,36 bilhões em diferentes criptomoedas.
A corretora afirma que conseguiu congelar aproximadamente US$ 2,8 bilhões logo após identificar o ataque, reduzindo as saídas líquidas para US$ 3,6 bilhões. Todos os ativos afetados, segundo a empresa, foram integralmente recompostos com caixa próprio, e as moedas seguem, diz a Binance, “100% lastreadas”. A companhia sustenta ainda que não houve vazamento de dados cadastrais de clientes.
Mesmo com o ressarcimento, o episódio se torna o maior roubo de criptomoedas já registrado, superando o ataque de US$ 1,5 bilhão contra a Bybit em 2025, também atribuído ao TraderTraitor. A dimensão da perda e a rapidez da ação expõem o risco estrutural de plataformas que concentram grandes volumes de criptoativos sob gestão.
Entenda o contexto
Isolada do sistema financeiro internacional por sanções ligadas a seus programas nuclear e de mísseis balísticos, a Coreia do Norte transformou o hacking de criptomoedas em uma das principais fontes de moeda forte do regime. Estimativas recentes apontam que grupos ligados a Pyongyang respondem por 89% das perdas relatadas em ataques contra o setor neste ano.
O valor levado da Binance equivale a quase 20% da produção econômica anual estimada do país. Parte relevante desses recursos, apontam órgãos internacionais e analistas, é canalizada para bancar programas militares proibidos. Há avaliações de que roubos cibernéticos e outras atividades ilícitas já financiam uma fatia próxima à metade do orçamento dedicado a armamentos estratégicos norte-coreanos.
“Para o regime de Kim Jong Un, o hacking de criptomoedas evoluiu além de um mero meio criminoso de compensar a escassez de moeda estrangeira”, afirma Lim Eul-chul, professor do Instituto de Estudos do Extremo Oriente da Universidade Kyungnam. Segundo ele, a escala dos ataques recentes amplia a capacidade de Pyongyang de investir não só em armas nucleares e mísseis, mas também em forças convencionais e novas tecnologias militares, como drones.
Pressão sobre corretoras e corrida por defesa cibernética
O mega-roubo contra a Binance acelera uma corrida por reforço de segurança em todo o setor de criptoativos. Corretoras já vinham reforçando controles sobre funcionários com acesso privilegiado, mas o uso de IA por grupos como o TraderTraitor torna a tarefa mais complexa, ao baratear e acelerar ataques sofisticados.
Empresas especializadas em segurança digital defendem que o foco saia apenas da proteção de servidores e se volte, com igual peso, para o fator humano: treinamento contínuo, restrição de acessos, monitoramento de comportamentos anômalos e simulações frequentes de engenharia social. A aposta em ferramentas de defesa também baseadas em inteligência artificial, capazes de identificar padrões suspeitos em tempo real, é vista como caminho inevitável.
Do lado geopolítico, a atribuição oficial do ataque ao TraderTraitor pelo FBI tende a aumentar a pressão internacional sobre a Coreia do Norte e a colocar o cibercrime estatal no centro de novas discussões sobre sanções, cooperação entre agências e proteção de infraestrutura financeira digital. Cada novo grande roubo, porém, reforça o caixa de Pyongyang e, na prática, amplia o poder de barganha militar do regime na península coreana e além.


