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Inteligência Artificial

EUA ordenam remoção do DeepSeek; empresa libera código aberto

Departamento de Segurança Interna dos EUA ordena remoção do DeepSeek de agências civis federais. No dia seguinte, empresa libera código do DeepInfer em resposta, acirrando disputa entre IA aberta e modelos fechados.

EUA ordenam remoção do DeepSeek; empresa libera código aberto

Inteligência Artificial

Governo americano age contra DeepSeek, enquanto empresa responde com código aberto, intensificando debate sobre IA.

Leia também: Alphabet emite € 6 bi em eurobonds para turbinar IA

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos determinou que todas as agências civis federais removam de seus sistemas o DeepSeek e qualquer tecnologia construída sobre sua base, enquanto a própria DeepSeek reagiu abrindo totalmente o código do DeepInfer, seu sistema de inferência de baixo custo, e do codec que replica o serviço oficial, numa ofensiva para democratizar o acesso à inteligência artificial avançada.

Ordem de remoção amplia disputa por controle da IA

A ordem do governo americano foi publicada em 19 de outubro e vale para todo o aparato civil federal. Além de proibir o uso direto do DeepSeek, o texto manda expurgar das redes governamentais softwares, serviços e integrações que tenham sido desenvolvidos sobre a tecnologia da empresa. O critério central é a origem da solução de IA, em linha com a estratégia de reduzir dependência de sistemas considerados sensíveis sob a ótica de segurança nacional e soberania tecnológica.

Na prática, órgãos federais terão de substituir aplicações internas, contratos de nuvem e ferramentas de produtividade que usam o DeepSeek como motor, o que deve gerar custos de migração, renegociação com fornecedores e ajustes técnicos em larga escala. Integradores e startups que vendiam soluções baseadas no modelo também são impactados e podem perder espaço para concorrentes alinhados às exigências de Washington.

A medida aprofunda a fragmentação do ecossistema global de IA, num momento em que grandes empresas do setor já restringem o acesso a seus serviços por critérios geopolíticos. A exclusão de países inteiros de plataformas comerciais e o bloqueio de contas em caso de uso fora de listas oficiais tornaram-se instrumentos de pressão internacional, agora reforçados pela força regulatória do Estado norte-americano.

DeepSeek responde liberando motor de inferência

No dia seguinte à ordem, em 20 de outubro, a DeepSeek anunciou a abertura completa do código do DeepInfer, o framework interno que sustenta a oferta de seus modelos de IA de baixo custo, e do codec que garante que instalações próprias se comportem como o serviço oficial. Com isso, qualquer comunidade ou organização pode rodar o sistema de forma local ou em nuvem, sem depender da infraestrutura da empresa e com custos próximos aos praticados internamente.

A decisão foi recebida como uma contraofensiva direta à tentativa de confinamento da tecnologia. Especialistas do setor passaram a descrever o movimento como a entrega ao público de uma “máquina de imprimir dinheiro” em forma de software, pela capacidade de reduzir drasticamente o custo de operação de aplicações avançadas de IA para empresas, universidades, governos locais e coletivos independentes.

Ao abrir o DeepInfer, a DeepSeek fortalece o campo da IA de código aberto e amplia a possibilidade de desenvolvimento de soluções autônomas em países com acesso limitado a serviços comerciais ou sob sanções. Pesos de modelos e frameworks abertos podem ser copiados e adaptados por qualquer pessoa ou instituição com conhecimento técnico, o que dificulta tentativas de bloquear ou monopolizar o acesso a essas ferramentas.

“Código aberto contra código fechado, luz contra trevas”

O embate ganhou contornos ideológicos com a declaração de Chen Deli, pesquisador sênior da DeepSeek, em uma publicação no X logo após o anúncio do DeepInfer. Ele recorreu a uma frase histórica para descrever o momento: “Código aberto contra código fechado, luz contra trevas. Uma batalha decisiva entre dois futuros, dois destinos para a humanidade. Por quanto tempo quiserem lutar, nós lutaremos, até conquistarmos a vitória completa.”

A mensagem reforça a narrativa da empresa de que o conflito vai além de uma disputa comercial entre provedores de tecnologia. Para Chen, trata-se de escolher entre um futuro em que a inteligência artificial avançada é controlada por poucos grupos privados e governos, com acesso limitado e orientado ao lucro, e outro em que o conhecimento circula de forma aberta e pode ser apropriado por comunidades, instituições públicas e países em desenvolvimento.

Veículos e analistas internacionais destacam que a estratégia da DeepSeek desafia diretamente o modelo de negócios baseado em serviços fechados de IA na nuvem, que concentram poder computacional, dados e propriedade intelectual nas mãos de um pequeno número de empresas ocidentais e de seus financiadores.

Entenda o contexto

O choque entre a ordem do governo dos EUA e a reação da DeepSeek ocorre em meio a uma corrida global pela chamada inteligência artificial geral, sistemas capazes de superar humanos em boa parte do trabalho economicamente relevante. Sam Altman, diretor-executivo da OpenAI, vem defendendo que a superinteligência “é possível… em alguns milhares de dias” e alerta que quem chegar primeiro deve concentrar o controle sobre ciência, conhecimento e infraestrutura digital.

Em textos e apresentações, Altman já afirmou que, sem capacidade computacional suficiente, a IA tende a se tornar “um recurso muito limitado, pelo qual se travarão guerras e que se tornará sobretudo uma ferramenta para os ricos”. A dinâmica atual, em que dados sociais são capturados em larga escala para treinar modelos que depois são vendidos de volta às sociedades, alimenta críticas sobre extração de valor e assimetria de poder entre empresas de tecnologia e o restante da economia.

Apesar do discurso de transformação, os números evidenciam o custo e o risco do modelo concentrado. Em 2025, a OpenAI registrou US$ 13,07 bilhões em receitas, contra US$ 34 bilhões em custos e despesas, o que resultou em prejuízo operacional de US$ 20,92 bilhões e prejuízo líquido de US$ 38,53 bilhões. “Estamos numa fase em que os investidores, como um todo, estão excessivamente empolgados com a IA? Minha opinião é que sim”, reconheceu Altman.

Jeff Bezos, um dos principais investidores em tecnologia, classificou o atual ciclo de investimentos em IA como “uma espécie de bolha industrial”. A avaliação é compartilhada por reguladores: estima-se que cerca de US$ 3 trilhões em compromissos ligados à IA estejam hoje fora de balanço no mercado de dívida. Em alerta recente, o Conselho de Estabilidade Financeira afirmou que “uma correção brusca poderia levar a perdas de crédito consideráveis”.

Indicadores de mercado reforçam a preocupação. O índice P/L de Shiller, que compara o preço das ações com os lucros das empresas, alcançou o nível de 40, algo que não ocorria desde a bolha das pontocom. Na Ásia, a pressão se espalhou: o índice KOSPI, da Coreia do Sul, caiu 44% em quarenta dias, puxado pela venda de papéis de empresas ligadas à fabricação de memória para IA.

Risco de monopólio e fragmentação tecnológica

Além dos números, o desenho geopolítico da infraestrutura de IA preocupa governos e especialistas. Grandes plataformas comerciais restringem o acesso a seus serviços em países sob sanções ou em conflito com os Estados Unidos, deixando de fora mercados inteiros e limitando o desenvolvimento tecnológico local. As mesmas empresas ameaçam bloquear contas de usuários que driblem essas limitações.

A ordem do Departamento de Segurança Interna contra o DeepSeek é lida, nesse contexto, como parte de uma estratégia mais ampla de contenção de tecnologias associadas a rivais geopolíticos e de proteção de campeões nacionais da IA. Críticos acusam Washington de usar o discurso de segurança para reforçar um projeto de monopólio sobre a inteligência artificial avançada e o hardware que a sustenta.

Do outro lado, a abertura do DeepInfer e de outros componentes da DeepSeek reforça um ecossistema de IA de código aberto que já vinha ganhando terreno. Com pesos de modelos, frameworks de agentes e suporte a hardwares alternativos sendo liberados sob licenças permissivas, países do Sul Global e comunidades técnicas conseguem construir soluções próprias sem depender exclusivamente dos grandes provedores ocidentais ou de uma única cadeia de fornecimento.

Autoridades financeiras dos EUA já discutem, em paralelo, se o ecossistema de IA se tornou “grande demais para quebrar”, dado o volume de recursos alocado em poucos atores privados e o risco de contágio em caso de quebra ou forte correção de expectativas. Para o Conselho de Estabilidade Financeira, o ajuste desse mercado não é apenas um tema de inovação, mas de estabilidade do sistema financeiro internacional.

A disputa entre modelos fechados, altamente concentrados, e projetos abertos como o da DeepSeek tende a se intensificar nos próximos meses, à medida que a ordem de remoção for implementada nas agências civis dos EUA, eventuais ações judiciais avancem e comunidades de software livre passem a incorporar o DeepInfer em aplicações comerciais, acadêmicas e governamentais fora da órbita de Washington.